quinta-feira, agosto 17, 2006

Marguerite Yourcenar

(Continuação)

de quem se desvia como de uma repelente macaca;
cospe à passagem da mulher do pope, que cho-
rou dois meses até se conformar. As Ninfas en-
tonteceram-no para melhor o enredarem nos
seus jogos, como uma espécie de fauno ino-
cente. Deixou de trabalhar; pouco lhe importam
os dias e os meses; fez-se mendigo, e por isso
come quase sempre até fartar. Erra pelos cam-
pos, evitando o mais possível os caminhos con-
corridos, mete-se pelas matas de pinhais no
meio das colinas desertas e diz-se que uma flor
de jasmim pousada num muro de pedra seca,
um seixo branco aos pés de um cipreste são
mensagens em que ele decifra a hora e o local
do próximo encontro com as fadas. Os campo-
neses pretendem que não há-de envelhecer:
como todos aqueles que a má sorte atingiu, há-
-de extinguir-se sem que se saiba se tem dezoito
anos ou quarenta. Mas tremem-lhe os joelhos,
o espírito deixou-o para não mais voltar, e
nunca mais a palavra tornará a nascer-lhe nos
lábios; já Homero sabia que aqueles que dor-
mem com as deusas de ouro vêem consumir-se-
-lhes a inteligência e a força. Mas eu invejo Pa-
negyotis. Saiu do mundo dos factos para entrar
no das ilusões, e acontece-me pensar que a ilu-
são é talvez a forma que as realidades mais se-
cretas adquirem aos olhos do comum.
- Mas afinal o João não acha - disse a se-
nhora Demetriadis um tanto irritada - que Pa-
negyotis viu realmente as Nereidas?
João Demetriadis não respondeu, tão ab-
sorto estava em soerguer-se na cadeira para
responder ao cumprimento altivo de três es-
trangeiras que ali passavam. Aquelas três jo-
vens americanas, cingidas nos seus vestidos
de linho branco, avançavam com passo leve
no cais inundado de sol, seguidas de um ve-
lho carregador dobrado ao peso das compras
feitas no mercado; e, como três meninas à
saída da escola, andavam de mão dada. Uma
delas ia de cabeça descoberta, com a cabe-
leira ruiva salpicada de raminhos de mirto,
mas a segunda levava um enorme chapéu de
algodão à volta da cabeça, à maneira das
camponesas, e uns óculos de sol com lentes
escuras protegiam-na como uma máscara.
Aquelas três mulheres haviam-se estabelecido
na ilha, onde tinham comprado uma casa,
longe das casas principais: de noite, pescavam
a bordo do seu próprio barco, armadas com
um tridente, e, no Outono, iam à caça das co-
dornizes; não se davam com ninguém e elas
próprias faziam o serviço da casa, receando
introduzirem alguma criada na intimidade da
sua existência; numa palavra, isolavam-se fe-
rozmente para evitar as más-línguas, prefe-
rindo-lhes talvez as calúnias. Em vão tentei
interceptar o olhar que Panegyotis lançou
àquelas três deusas, mas os seus olhos dis-
traídos mantinham-se vagos e apagados: ma-
nifestamente não reconhecia as suas Nereidas
vestidas de mulher. De repente, num movi-
mento ágil e quase animal, inclinou-se para
apanhar outro dracma que caíra de um dos
nossos bolsos, e eu vi, agarrado ao pêlo gros-
seiro do dólman que lhe pendia do ombro e
uma fivela prendia aos suspensórios, o único
objecto capaz de fornecer uma prova impon-
derável à minha convicção: o fio sedoso, o
subtil fio, o fio perdido de um cabelo loiro.

Fim

A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
Publicações D. Quixote

1 comentário:

Anónimo disse...

Marguerite de Crayencour nasceu em Bruxelas em 1903 numa família aristocrática. Naturalizou-se americana em 1947. O nome Yourcenar é um anagrama imperfeito do seu nome original Crayencour.
Em 1981 torna-se a primeira mulher membro da Academia Francesa, instituído em 1635 por Richelieu. Para se ser membro da Academia Francesa é necessário ter a nacionalidade francesa. Yourcenar, de origem belga, tinha-se tornado americana, no entanto, o Presidente da República Francesa concedeu-lhe a dupla nacionalidade em 1979.
(merecidas facilidades...)