domingo, outubro 07, 2007

De Chirico

Auto-retrato com Paleta, 1924


Solidão (Melancolia), 1912

O Poeta e a Sua Musa, 1925

Nas Praias da Tessália, 1926

Partida do Argonauta

“E o que hei-de amar senão o enigma?”, escreveu Giorgio de Chirico em latim porbaixo do seu primeiro auto-retrato de 1911 (il. p.10). O pintor retrata-se de perfil,a cabeça descansando na mão esquerda, na pose clássica do melancólico. O olho, embora aberto, não tem a pupila reconhecível. O plano de fundo é constituído por um céu sem nuvens de um verde-frio e onde não corre uma brisa. O auto-retrato surgiu no início da fase da Pittura Metafisica - “Pintura Metafísica” - que tornaria De Chirico famoso. A trabalhar em Itália por volta de 1910, o artista começou a formular uma nova linguagem poética posteriormente designada por “metafísica”. As correntes de arte do século 20, como o Surrealismo e a Neue Sachlichkeit ( “NovaObjectividade” ), seriam decisivamente influenciadas pela pintura de De Chirico, que não se baseava predominantemente na inovação formal, mas sim numa nova forma de ver os objectos e de perseguir o seu significado escondido.

De Chirico proclama de forma programática, no seu auto-retrato, que o enigma é o estímulo e objectivo da sua pesquisa artística. “Temos de pintar todos os fenómenos do mundo como um enigma”, escreveu ele em 1913. É esta singularidade misteriosa das coisas que, nos quadros de De Chirico, tão imediatamente nos surpreende,com o seu estado de espírito de profunda solidão e melancolia. O mundo com que nos confrontamos nas obras deste mestre italiano é um mundo de sombra e ilusão, de céus frios e verdes, de espaços sem vento e perspectivas absurdas. Nos seus quadros, os objectos deixam de ser inequívocos. De Chirico pinta objectos reconhecíveis, mas combina-os de tal forma que as coisas nossas conhecidas e quotidianas - uma rapariga com um arco, uma carruagemaberta, um comboio, uma luva, uma torre - se tornam objectos sem aparente sentido: estranhos, fechados sobre si próprios. Num texto antigo, escreveu: “Para se tornar verdadeiramente imortal, uma obra de arte tem de escapar a todos os limites humanos: a lógica e o senso comum só causam interferências. Mas uma vez quebradas estas barreiras, entrará nas zonas da visão e do sonho de infância.” De Chirico foi o primeiro artista da era moderna a reconhecer e traduzir a ambiguidade do mundo visível. Com a sua Pittura Metafisica criou aquilo que o escritor surrealista André Breton chamaria mais tarde o “mito moderno”: retratos de uma nova melancolia que deram expressão pictórica à perda de sentido e ao sentimento de alienação experimentados pelo homem moderno.

A poética da pintura metafísica foi alimentada por um complexo entrançado de memórias pessoais e colectivas, estímulos associativos e racionais, inspiração- De Chirico fala de “revelação” - e de leitura intensa de filosofia. De Chirico foi sobretudo influenciado pelos escritos de Friedrich Nietzsche: a pose que ele adopta no auto-retrato de 1911 (il. p.l0) é uma alusão directa ao retrato fotográfico do próprio Nietzsche (il. p.lI). De Chirico via Nietzsche não apenas como uma luz-guia mas também como figura identificadora: sentia que ambos partilhavam uma natureza semelhante e que estavam ligados pelo destino - afinal foi em 1888, o ano do nascimento de De Chirico, que a carreira de Nietzsche atingiu o ponto de não retorno em Turim, antes de sofrer um colapso na rua, nos primeiros dias de Janeiro de 1889 e perder a sanidade mental para sempre. Com Nietzsche, De Chirico não só partilhava o amor pelo enigma mas também o fascínio pelo mundo da mitologia clássica.

Tanto a citação em latim por debaixo do seu auto-retrato programático, como o olho desprovido de pupila aludem ao vidente cego da Antiguidade Clássica. Encontraremos, muitas e muitas vezes, a noção de cegueira exterior na obra de De Chirico. Cego para o presente,o olhar não se fixa numa forma extrínseca, vê o íntimo ou a forma futura das coisas. O artista metafísico assume, assim, uma capacidade profética para voltar o olhar para o aspecto desconhecido das coisas............................................................................

DE CHIRICO

Magdalena Holzey

Taschen

sexta-feira, outubro 05, 2007

Humberto Eco e a fealdade


Mulher a chorar
Picasso 1937


Piercings separados por 400 anos: pormenor de uma pintura de Bosch e rocker punk em Maio de 1998

Onde está o feio?
O poder do feio
O triunfo do kitsch
Humberto Eco

Cultura-Livros
A ver na Visão desta semana (nº 761)
www.visao.pt

António Lobo Antunes

Entrevista a António Lobo Antunes (escritor): "A morte é uma puta"


JOÃO CÉU E SILVA
NUNO FOX (imagem)

Eu agora jogo com as cartas para cima, está tudo à vista porque é a única maneira de viver. Demorei anos a perceber porque o conhecimento da vida chega sempre tarde e pensamos que ocultando conseguimos dar boa imagem aos outros. Agora é: eu sou assim! Peguem, larguem, não posso ser amado pelo mundo inteiro embora a sede de amor seja inextinguível.

Qual é a sua atitude perante Deus?

Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.

http://dn.sapo.pt/2007/09/30/artes/entrevista_a_antonio_lobo_antunes_es.html

segunda-feira, outubro 01, 2007

Fundação Gulbenkian

A uma pergunta aparentemente tão singela como “A ciência
terá limites?”, só se pode responder de modo igualmente
singelo: depende. Isto é, os limites dependem da maneira
como a ciência é encarada, pois a ciência resulta da tentativa
de melhor compreender a realidade em que nos encontramos
imersos, uma realidade tão multifacetada quanto complexa.
Em primeiro lugar, a ciência pode ser considerada como
um domínio do conhecimento. Nesta perspectiva, a ciência
dedica-se ao estudo dos fenómenos da Natureza e das suas
interacções. Sendo o Universo infinito, o processo de o apreendermos
não pode ser limitado. O progresso da ciência, neste
quadro, não conhece limites.
Mas podemos igualmente observar que, sendo a ciência
um domínio do conhecimento, ela exprime-se e comunica-se
de maneira semelhante à dos outros domínios, isto é, usando
linguagens especializadas. Nestes termos, a precisão da
descrição da realidade e dos seus fenómenos está condicionada
à pertinência dessas linguagens e dos seus componentes
(a música, por exemplo, não se traduz bem por palavras).
Nesta perspectiva, os limites surgem da incapacidade de
inventar novas linguagens.
Por outro lado, a especialização crescente acarreta uma
progressiva fragmentação das disciplinas científicas e um
distanciamento cada vez maior em relação aos outros domínios
do conhecimento. Os limites da ciência corresponderão
neste caso às fronteiras cognitivas dos outros domínios,
que serão tanto mais inultrapassáveis quanto o esforço
de comunicação interdisciplinar se tornar desaconselhado,
ou mesmo proscrito.
Mas a ciência não se pode fazer, nem praticar, sem cientistas.
Nesta medida, poder-se-á afirmar que os limites societais
impostos à liberdade de acção das comunidades científicas
serão determinantes para o desenvolvimento futuro da
ciência. Essas barreiras, resultantes das percepções sobre
o valor da ciência para as economias e as sociedades em
que essas comunidades se inserem, são uma das mais fortes
condicionantes das nossas possibilidades de adaptação
e de ajustamento a novas situações e condições de vida.
Espero, com esta enumeração simples de limites, condições,
barreiras e constrangimentos, ter despertado o apetite e o
interesse para a discussão das várias atitudes e posições
que não deixarão de ser apresentadas pelos oradores convidados
na Conferência Internacional de 25 e 26 de Outubro
próximo. Veremos certamente como as humanidades,
as ciências sociais e os diversos ramos da ciência encaram
a questão posta consoante as estratégias de descoberta
e as visões do mundo de que são portadoras.
Sobretudo, esta oportunidade de diálogo deverá permitir
uma reflexão sobre o limite fundamental da nossa aventura
como espécie biológica no planeta – a imaginação. Porque
é a imaginação que nos faz sonhar. E transformar os sonhos
em realidade. ■
por João Caraça

http://www.gulbenkian.org/v1/newsletters/87.pdf