domingo, agosto 31, 2008

Salvador Espriu

ENSAIO DE CÂNTICO NO TEMPLO

Ah, que farto que eu estou da minha
cobarde e velha terra, tão selvagem,
e como gostaria de abalar
para o norte
onde dizem que a gente é limpa e nobre, culta e rica,
viva, livre, feliz!
Então, na confraria, os irmãos diriam
reprovando: «Como pássaro que deixa o ninho,
assim o homem que deixa o lugar»,
enquanto eu, bem longe, riria
da lei, da sabedoria .
antiga desta terra tão ávida.
Porém de que me serve prosseguir um sonho-
¬aqui hei-de ficar até morrer,.
pois cobarde e selvagem também eu o sou,
e além disso amando
com dor desesperada
esta pobre,
suja, triste, desgraçada pátria minha.

Salvador Espriu
Trocar de Rosa
Traduções de Eugénio de Andrade
Na Regra do Jogo
1980

Vítor Nogueira

CINCO VISITAS AO PÁSSARO-DA-MORTE

ANZOL

Ao fim da tarde, o cardume desagrega-se. Inteiro,
procuro reunir os meus pedaços. É a sensatez
de não abandonar o, esconderijo, a prudência com
que a ave canora evita o pássaro-da-morte.

Porém, noites há que me rebentam nos ouvidos.
Todas as experiências, todos os bocados de papel.
Um anzol à minha espera, a cidade é paciente, não
perdoa. Tem a astúcia da ave de rapina.

Bem sei: na vida, o primeiro golpe de génio
acontece no momento em que avaliamos
as nossas limitações. Mas, por muito calculistas
que sejamos, podemos realmente conhecer-nos
quando o abrigo se torna insuportável.

Vítor Nogueira
Telhados de Vidro
N.º 3
Novembro 2004

Walton Ford





quarta-feira, agosto 13, 2008