sexta-feira, dezembro 29, 2006

rosas

Isso é que era uma vida!

Faço o meu ninho na axila
do homem com o elmo de ouro. Se ele anda
eu imóvel ando também. Se ele dobra
o corpo eu em pé faço o mesmo.
Se ele come o p?o com o suor do seu rosto
eu perturbada pelos aromas deito-me-lhe
debaixo do braço viril.
A sua conversa Sim N?o é obviamente sempre
a minha. N?o semeies n?o colhas: Para qu?
se ele me dá de comer e vestir! E
nada mais exige em troca do que a sua dose diária
de rosas sem espinhos lhe teço a coroa
chilreando ? volta da divina cabeça.

Ulla Hahn
A sede entre os limites
Vers?o de Jo?o Barrento
Relógio d´Água


PARA AS ROSAS

Para as rosas, escreveu alguém,
o jardineiro é eterno.
E que melhor maneira de ferir o eterno
que mofar das suas iras?

Eu passo, tu ficas;
mas eu n?o fiz mais que florir e aromar,
servi a donas e a donzelas, fui letra de amor,
ornei a botoeira dos homens, ou expiro no próprio
arbusto, e todas as m?os, e todos os olhos me trataram
e me viram com admiraç?o e afeto.

Tu n?o, ó eterno;
tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu afliges-te!
A tua eternidade n?o vale um só dos meus minutos.

Machado de Assis
Brasil-1839-1908


Cor de Laranja e Ouro

Quarto aberto para o vazio
Cheiro a poeira
Pétalas emurchecidas redesenhando o lençol
que encobre o teu corpo
libertado.
Tu és vertigem e abandono...

A tempestade rebenta.
Inunda-te, cega-me.
Curvo-me sobre o teu rosto
resplandecente
como se tecido no irreal.
Com a alma ferida eu choro.

E as chuvas enfurecem-se,
surpreendendo o lugar cor de laranja e ouro.
Aí permaneço no declive do infinito.
As sombras estremecem.
Eu Vigio...

Mas do fundo do abismo o Oceano levanta-se
Roçando o sol com cortinas de areia
afastando o horizonte
os mitos da morte.

Devo reencontrar o tecido dos sonhos
a chave da aurora
E derramar sobre o teu corpo a ess?ncia das rosas
A Rosa de Vida do país Cor de Laranja e Ouro.

Alice Machado
Horas Azuis

terça-feira, dezembro 26, 2006

É um peixe num aquário...As minhas fotografias frequentemente destinam-se a fazer o observador imaginar... Nem sempre procuro figurar o que se v?.

sábado, dezembro 23, 2006

W. H. Auden

CANÇÃO

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas
Umas vivem em palácios, outras em mansardas;contudo não há lugar para nós,
minha querida, não há lugar para nós

Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.Olha para o mapa e lá a encontrarás;mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não podere- mos regressar tão cedo.

O cônsul deu um murro na mesa e disse:se não têm passaportes estão oficialmente mortos;mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.

Lá em baixo no adro um velho teixo
todas as primaveras floresce de novo:e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos passaportes não florescem.

Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira

disseram polidamente para voltar no ano seguinte:mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?

Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.

Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?
É Hitler sobre a Europa dizendo: «Eles têm de morrer!»
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no
Seu pensamento.

Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete
vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não ale-
mães.

Desci ao porto e parei no cais
vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés distância.
Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana.
Sonhei que vira um edifício com mil andares
mil janelas e mil portas;nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma.
Corri à estação para apanhar o expresso,
pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as carruagens estavam cheias.

Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair
dez mil soldados marchavam de um lado para o outro
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e
para ti.

W. H. Auden
(1907-1973)Reino Unido
TRAD.:Jorge Emílio
Rosa Do Mundo
2001 POEMAS PARA O FUTURO
Assírio & Alvim

Ao longe



Ao longe o rio Ă© prata
Ao pé a rua é neve

Camilo Pessanha

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caí­stes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze --- quanta flor! --- do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha
Fonógrafo
Clepsidra
e outros poemas
Colecção Poesia
Edições Ática
1973

Bom Natal

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Eugénio Lisboa

O Frisco de vez em quando faz investigações sobre o que coloco no blogue e que me são enviadas como comentários.
Daqui em diante e sempre que possível colocá-las-ei aqui, fora dos comentários para que as pessoa que cá vêm possam dar por elas...
E obrigada, mais uma vez, Frisco.

EUGÉNIO LISBOA
[Lourenço Marques (hoje Maputo)/Moçambique, 1930]


Ensaísta e crítico literário. Nascido em Lourenço Marques, onde viveu até 1976, formou-se (1953) em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico, de Lisboa. É doutor honoris causa, em Letras, pela Universidade de Nottingham, Reino Unido (1988). Já depois da independência de Moçambique, foi colocado em Paris, na Compagnie Française des Pétroles, como adjunto do director mundial de exploração (1976). O ramo petrolífero foi a sua especialidade profissional durante vinte anos (1958-78). Mas, entre 1974-78, acumulou essa actividade com a docência, que exerceu nas Universidades de Lourenço Marques, Pretória (1974-75) e Estocolmo (1977-78), onde regeu cursos de Literatura Portuguesa. Na Suécia foi também o coordenador do ensino da língua portuguesa. Exerceu, durante dezassete anos consecutivos (1978-95), o cargo de conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Londres. Durante esse lapso de tempo propiciou a tradução e edição, no Reino Unido, de alguns clássicos da nossa literatura. Por força da sua formação académica e das obrigações do serviço militar, viveu em Lisboa entre 1947-55. Data desses anos a sua lendária amizade com José Régio, que o convidou a organizar um volume antológico da sua poesia, José Régio: Antologia, Nota Bibliográfica e Estudo (1957). Esse volume, e em particular o Estudo nele inserido, será o primeiro sinal pĂşblico de uma exigente e continuada atenção Ă obra regiana. Depois do regresso a Moçambique, foi uma figura destacada e interveniente da vida cultural laurentina, tendo co-dirigido, com Rui Knopfli, suplementos literários de jornais desafectos ao regime, casos de A Tribuna e A Voz de Moçambique. Participou na recolha do espólio de Reinaldo Ferreira, sendo autor do estudo introdutório à 1ª edição dos Poemas (i.e. o posfácio das edições portuguesas). Para o Rádio Clube de Moçambique elaborou programas de teatro radiofónico, a partir de textos de Racine, Ibsen, Régio e Montherlant. Espírito atento e sulfuroso, autor de um ensaísmo informado que não abdica da clareza e do fair play, Eugénio Lisboa tem sido, ao arrepio de modas e conveniências de vária ordem, um leitor empenhado e provocante de autores pouco amáveis (Henry de Montherlant, Régio, Reinaldo Ferreira, Sena, Rui Knopfli, para citar apenas os casos de dedicação "militante"). Foi também, nos anos 60 e 70, um desassombrado crítico da visão oficiosa das "literaturas africanas de expressão portuguesa". A generalidade dos ensaios que escreveu e publicou em Moçambique foram coligidos nos dois volumes de Crónica dos Anos da Peste (1973 e 1975; tomo àşnico desde 1996). A par da sua actividade ensaística, Eugénio Lisboa é autor de um livro de poesia, A Matéria Intensa (1985). A pretexto desse livro, David Mourão-Ferreira fez notar os "inesperados acentos lĂşdicos" de uma voz "a um tempo áspera e calorosa, austera e fremente". Colaboração de vária índole encontra-se dispersa, desde os anos 50, por jornais e revistas de Moçambique - além dos já citados, Notícias, Diário, Notícias da Beira, Diário de Moçambique, Objectiva, Paralelo 20 - e de Portugal, tais como o Diário Popular, A Capital, JL, O Tempo e o Modo, Colóquio-Letras, Prelo, Nova Renascença, Oceanos, Ler, etc. Dirigiu, para o Círculo de Leitores, a colecção das Obras Escolhidas de José Régio. Escritor e diplomata, membro da Associação Internacional dos Críticos Literários, oficial da Ordem do Infante D. Henrique, tenente da Royal Victorian Order (Grã-Bretanha), presidiu à Comissão Nacional da UNESCO entre 1996 e 1998. Exerce actividade docente na Universidade de Aveiro. Foi o coordenador dos três primeiros volumes do presente Dicionário (1985-94). Usou os pseudónimos Armando Vieira de Sá, John Land e Lapiro da Fonseca.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998

terça-feira, dezembro 12, 2006

Eugénio Lisboa

HIPÓTESE - I (O INVERNO NUCLEAR)

Brisas

Brandas, as brisas alisam
aquilo que não é vida:
sossegam, calmas, deslizam,
na fria terra despida.
Solenes brisas avisam
quem já ouvi-las não sabe:
nas brisas que nada pisam
fulgor de vida não cabe.

Eugénio Lisboa
o Ilimitável Oceano
quasi

Miguel Correia

Vem ao jardim escuro da montanha
onde ferve a rocha negra o cântico forte
a deusa que distribui em trunfo
salmos imaginação e copas
vem passear por ruínas
a eterna veste sonhada
enquanto insectos na estação quietos
roem o armário da imudável beleza
porque arde o sol no labirinto verde
e o corpo é flor que ganha espinhos
e se despe em tempestade
em incêndio de cidades muradas
campos de batalha e nevoeiro
sacie estradas como pétalas de prata
meu pisado amor todos os dias
vem dormir na areia negra nossa
onde aos saciados ossos
nasce uma onda estival e primitiva
a obra que sendo arte nos vandaliza
e ante nós se abre como imago colorido

Miguel Correia
Lugar Comum
Tríptico
101 noites

Madrid



Velasquez "ao vivo"

Nuno Moura

-- e --

aruava rastante a marioneta magra
todo de si era um recanto.
Os dedos botijosos certificavam o vinho verde no bolso
era de emergências
não havia palhinha nem desejoso ulceroso
só um poema de trânsito vindo para diante do amor.
Frágifirme, ia numa guia-de-entrega chegá-lo.
Da estrada, tinha nome de loja de olhos armadurados.
Do número, dois degraus para uma porta azul
de fechar se faz favor

Nuno Moura
Adraar Bous
beauty contest talcum powder
Mariposa Azual

Singapura



Fotografia tirada pela Joana em Singapura

Francisco José Viegas

Partir


Para onde partes há uma casa solitária
onde é bom viver acompanhado de alguns livros
que, desde a infância, se tornaram indispensáveis.
Nada mais, o resto magoa, há gente que ama e se esquece.

Só paciente, agora partes, esqueces a autobiografia
que escondeste nas gavetas. Perfuma-a a alfazema,
o frio, a neblina, a humidade que cresce
corno urna mágoa ou um afecto. Sê lento,
aguarda, esquece a tua alegria por momentos.
as fotografias, a música. Um dia tudo regressará.


Francisco José Viegas
metade da vida
quasi

domingo, dezembro 10, 2006

emaranhado azul

azul

Dorothy Parker

EU HEI-DE VOLTAR
(I shall come back)


Não é fanfarronice eu voltar cá um dia
da paz do cemitério e do vento ululando:
trémula, a deslizar da Eternidade fria,
humilde sombrazinha atónita, passando.
Não pela meia-noite em sepulcral passeio;
hei-de vir suavemente aonde mais queria,
dum poente de Abril, na surda melodia;
e, dos dois, serei eu quem há-de ter receio.

Como é estranho deixar os sonhos bons da morte
para buscar quem me tratou tão duramente!
Não sentirás a minha mão na tua fronte,
que eu serei um fantasma novo e inexperiente.
Talvez nem dês por mim: mas terás, a teu lado,
um ténue coração de espectro, esfacelado.


DOROTHY PARKER
1893-1967
Oiro de Vário Tempo e Lugar
Versões de
A. HERCULANO DE CARVALHO
Edições ASA



UMA ROSA PERFEITA
( A perfect rose)


Só me deu uma flor desde que me encontrou.
assim pura e tão fiel, orvalhada e cheirosa,
que mensageira terna e feliz ele achou:
uma perfeita rosa.

Da linguagem da flor descobri o segredo:
"trago o seu coração na corola mimosa"!
De há muito o amor tomou para seu amuleto
uma perfeita rosa.

Nunca ainda ninguém pensou em me oferecer
um perfeito automóvel... pois, teimosa,
foi sempre sina minha apenas receber
uma perfeita rosa.


DOROTHY PARKER
1893-1967
Oiro de Vário Tempo e Lugar
Versões de
A. HERCULANO DE CARVALHO
Edições ASA

sábado, dezembro 09, 2006

Letra B - Bruno Wheinhals

ALGUÉM CORRE. UMA PESSOA QUALQUER


corre, foge, tropeça cai
fica no chão. Lábios e língua
movem a última imagem,
alguém, o seu próprio nome.

(Na nuca a mão na mão um revólver na cabeça uma bala.)

Que dia era aquele?
Cheiro a pó?


Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva



UM NOME PARA TI


um som que te faz ser quando precisares de ti
Para ti uma grafia uma sílaba mais forte
como rosto cabelo andar as pequenas manias

Com o teu nome existes Foste já
inventado para o macio aconchego
da pele ainda não presente


Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva



UMA VOZ COMEÇA E EXPANDE-SE


pelas tuas páginas A sombra que ignoras
vai avançando lenta O que refresca a pele
gostaria também de as folhear (pões a mão no livro)

A sombra alcança-te agora Não te incomoda
Mesmo sem solo teu sabor agrada Ă s palavras
bela e fresca e tão curiosa


Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva



TALVEZ SEM MEDO


estás deitada de costas com as mãos para trás
rendida ao poder do sono

É o teu sonho mas como
tantas coisas ele une entre si
o que também não conheces
nem tu nem as coisas

Uma sombra que só eu vejo
atravessa a janela tomba
e continua a voar


Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva



PAÍS DO MEIO-DIA


Atravessado pelo zumbido de um único ruído de carros
e pela música infinda de uma estação de rádio
o vazio do meio-dia

A cidade uma configuração constituída
por rede de aço e estruturas de betão

Atrás das gruas brilha
a água da bacia portuária
indolente em todas as cores de óleo usado

As ruas varridas
pelo sol recozidas

O apressado asfalto da cidade
um caminho de fuga
para a paisagem pedregosa

Uma língua quente rasga o corpo em suor

As cores são pó
não pó
são pedras


Bruno Wheinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
e outros poemas
Tradução colectiva



DÁDIVA MATINAL


Um beijo
e estas palavras
ao teu ouvido
na tua boca
possa este peso imposto
ser-te leve


Bruno Wheinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
e outros poemas
Tradução colectiva

Guilhem de Peitieu




Fiz um poema sobre nada:
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.

Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.

Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.

Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.

Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.

Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.

Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.

Guilhem de Peitieu
Canção, séc. XII

sexta-feira, dezembro 08, 2006

João Miguel Fernandes Jorge

SOBRE A PEDRA DOS DIAS


As formigas não saíram
das suas ruas subterrâneas. Um setembro
muito longe do fulgor do outono. Eu
despovoei-me dos sonhos: as mãos apertavam-
-se ao redor de nenhuma esperança. Traziam
o peso de outras mãos, repetidas, de um passado
tão longínquo.

Um tempo de demasiado torpor,
sem regresso. Havia uma voz branca sobre a
terra sêca, os olhos fatigados suspendiam o
desenho dos objectos o peso sobre as coisas.
“Não o conheço.”
“Aqui é tudo tão triste.”
“Dá-me um cigarro?”
A planície guardava a secreta memĂłria do verde,
dos campos verdes. Agora
os vários caminhos abriam para o iluminado
amarelo.

Os ombros cruzavam-se sob a remota
distância do ar quente, do verão sem fim. Os
corpos quase se tocavam, como todas as coisas sobre a
terra, sobre os campos da terra a arder.

“Lembro-me de ti.”
“Desculpe, mas nunca o conheci.”
“Eu trago ainda o teu retrato no bolso sobre
o meu coração. É uma velha fotografia.
Guardei-a desde esse ano, como quem suspende
entre duas folhas de caderno
ervas e flores.”
“Não me lembro.”
“É natural. Morreste há tantos anos.”
Repete-se o calor sobre as paredes.
O eco de uma casa desabitada: os
cães estão longe, o seu latir rompe o ar quieto.

Estava naquela aldeia de mar. Nos muros
que levam à rua principal. O largo tem uma
igreja, uma praga de orações.
Os passos os ombros os olhos que movem à
minha frente eu hei-de vê-los. As portas batem
sob o vento quente. Ninguém vive na terra
nesta casa que se prende e desprende daqueles que
vivem.

Escureceu. Clareou. “Boa-noite.”
“Bom-dia.” Escureceu de novo. “Bom-dia.” As
mãos vinham repletas de ruídos, silêncio, vozes
perto de ti.

Os passos juntaram-se aos que estavam à
espera. Eram passos presos a outros passos e
cravavam um sulco na terra negra do chão. Canto
entoado, baixo, muito baixinho
leva à viagem que retém o outro corpo. Caíam as
as horas do muito calor; a luz desaparecia pelo
amanhecer, ardia através da noite e dos campos.
Pareciam estar muito longe
os passos.

E faz com que desperte o prometido sonho; a
porta entre-aberta “faz o que quiseres”
ouvi, ouviu.
A esmaecida luz desaparecia nas paredes da casa
entre as sombras do corpo da casa. A terra é
uma vereda de fogo. Os ramos amanhecem sem
o brilho da voz da manhã.
Está sentado numa velha cadeira sob
a lassidão de setembro. Mexe os lábios,
incoerentes palavras.

Seguia pelo mais estreito corredor da vida.
Sombrio. Húmido. De novo sombrio na imensidade
da casa. Seguiu à baleia de deus, triste
quatro ou cinco moedas no bolso.

João Miguel Fernandes Jorge
o barco vazio
colecção forma
Editorial Presença
1ª edição
1994

João Camilo

O MENSAGEIRO DO AMOR

No andar de cima, do outro lado das escadas,
havia uma festa. Eu ouvia a música e os risos,
as vozes que se excitavam e enchiam o silêncio da noite
de desejos, de paixões. Depois a porta bateu, passos
nas escadas. Uma rapariga desceu, as palavras
saíam-lhe da boca com uma facilidade
tão cheia do amor da vida. À tarde,
no centro da cidade, uma outra rapariga esperava,
sentada à mesa do café, com a mala ao lado,
o mensageiro do amor. Estava
tão segura de si, tão convencida de que ele
acabaria por chegar. Eu olhei o seu rosto jovem,
os seus cabelos que o vento parecia ter desalinhado.
A sua espera comoveu-me. Depois continuei
o meu caminho. A chuva caía
sobre as ruas da cidade. Límpidas, nítidas,
as fachadas das casas enchiam o fim da tarde
com a sua presença silenciosa. A eternidade
não existe, mas enquanto é tempo de durar, as pedras
e a madeira das portas e janelas duram.
Pouco a pouco o ruído cessou, a casa adormeceu.
Os convidados da festa falaram alto na rua,
depois o ruído dos automóveis levou-os para longe.
Contemplei a parede branca, a capa de um livro,
a caneta em cima da mesa, ao lado do jornal.
E o sono desceu sobre os meus olhos.

João Camilo
A Mala dos Marx Brothers
Caminho
Da Poesia
1988

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Estampa 2006 - Madrid




Letra B - Boaventura de Sousa

MINIATURA


Parto da vida íntima,
do último século não distingo um beijo

Convivo com as ocasiões
de mãos erguidas ao céu da fala,
as luzes superiores apagam-se
como um sermão de festa
ao alto dos pinheiros
entre cheiro de churrasco
e louro nos telheiros do verdasco

Contradigo-me
e tenho mãe,
confirmação de quase tudo

Junto ao espelho
a inocência impassível das feridas
desperdiça os filhos -
ao longe
um presépio calmo
cercado de artesanato fiel
laborioso e duplo como a alma.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989



CARTA DE UM VELHO QUANDO JOVEM

Depois do que te disse
descansei

escrevo-te sem endereço
no reverso do que fiz

não escolho as ruas onde moras

paro no verso
nunca atravesso

fecho-me na caixa do correio
à espera que me escrevas

melhor é acampar
no dedo direito deste magro braço d'água
cingido à complicação elementar
de estar vivo.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989


PAISAGEM SÚBITA


Abriu-se o retrato,
entram e saem músculos à farta

as presenças agradáveis do vocabulário,
outrora entregues
ao cuidado camponês,
campeiam no renovo
como cabras

com o zelo azedo da obra inacabada
as quatro patas do tempo
trazem-me ao cimo da taça
para transbordar

um gato fácil sobe ao caixilho
e contempla a mobília depois da agitação.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989



AUTO-RETRATO


Este retrato tem barulho de escada rolante
que se cala em movimento

o chão dos achados
rodeia o mapa de flores pesadas
e os degraus germinam nos pés
à cata de gente média
passageira imóvel dos factos

cresce com o excesso latino
a morte vitalícia de um céu mecânico

a espera é d'aço menino
como um século corporal
vestido de santos e arcanjos
entre os pardais da cama

os troféus escondem os donos
e pensam grosso à sobremesa

sou um homem casado
com dois ou três princípios
que não têm fim.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989



TEXTO PERDIDO ENTRE O ESCRITÓRIO E O CAFÉ


Não eram preciosas
eram exactas

tinham chegado em procissão
e estavam a entrar no corpo do encontro

não quis cercá-Ias de linhas
era tão cedo quanto tarde,
utilizava o espelho de memória
com a minúscula atenção de última hora

a história de uma perda
de que não me lembro.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Horácio

Horácio
Arte Poética

Roma
(c. 65-8 a. C.)

ARTE POÉTICA
(1-13)


Harmonia e proporção entre as partes da obra poética


Se um pintor à cabeça humana unisse
pescoço de cavalo e de diversas
penas vestisse o corpo organizado
de membros de animais de toda a espécie,
de sorte que mulher de belo aspecto
em torpe e negro peixe rematasse
vós, chamados a ver esta pintura,
o riso sofreríeis? Pois convosco
assentai, ó Pisões, que a um quadro destes
será mui semelhante aquele livro
no qual ideias vãs se representam
(quais os sonhos do enfermo), de tal modo,
que nem pés, nem cabeça a uma só forma
convenha. De fingir ampla licença
ao poeta e pintor sempre foi dada.
Assim é; e entre nós tal liberdade
pedimos mutuamente, e concedemos;
mas não há-de ser tanta, que se ajunte
agreste çom suave, e queira unir-se
ave a serpente, cordeirinho a tigre.



TRAD.: CÂNDIDO LUSITANO
Rosa do Mundo
2001 Poemas Para o Futuro

Estampa 2006 - Madrid



Isabel Pyrrait



Paco Mora

quinta-feira, novembro 30, 2006

Picasso na O.N.U. - N. Y.

José Agostinho Baptista

NÃO SEI

Não sei quanto tempo ficarei aqui, junto a
esta janela.
Imagino os fogos-de-santelmo,
a aurora boreal,
o mistério das três-marias,
e de vez em quando há uma sirene que me
lembra como é breve a viagem entre tudo e
quase nada.

Agora, que parti,
deita-se sobre as terras da noite a minha
vida magoada.
Diz-me:
que farei ao piano das casas desoladas?
Que estranhos seres dançam silenciosamente
em plena madrugada?
Quem ordena o princípio das tempestades?

Os náufragos apareciam depois, com a cor
que traziam dos lilases.
Nunca mais as noivas do mar regressaram à
capela onde rezavam à Senhora dos
navegantes e dos solitários.
Nunca mais te vi.

Junto a esta janela,
penso nos recifes, nos cabos do medo.
Ao anoitecer,
os faróis iluminam os promontórios.

Subitamente, é demasiado tarde.

Está sempre frio aqui,
no peitoril onde uma vela arde, desde cedo
como se ardesse nos insondáveis templos
muito além.


José Agostinho Baptista
Esta voz é quase o vento
Assírio & Alvim

terça-feira, novembro 28, 2006

domingo, novembro 26, 2006

Mário Cesariny

Mário Cesariny deixou-nos... mas não totalmente

O POETA CHORAVA...

O poeta chorava
o poeta buscava-se todo
o poeta andava de pensão em pensão
comia mal tinha diarreias extenuantes
mas buscava uma estrela talvez a salvação?
O poeta era sinceríssinlo
honesto
total
raras vezes tomava o eléctrico
em podendo
voltava
não podendo
ver-se-ia
tudo mais ou menos
a cair de vergonha
mais ou menos
como os ladrões

E agora o poeta começou por rir
rir de vós ó manutensores
da afanosa ordem capitalista
comprou jornais foi para casa leu tudo
quando chegou Ă página dos anúncios
o poeta teve um vómito que lhe estragou
as únicas que ainda tinha
e pôs-se a rir do logro é um tanto sinistro
mas é inevitável é um bem é uma dádiva

Tirai-lhe agora os poemas que ele próprio despreza
negai-lhe o amor que ele mesmo abandona
caçai-o entre a multidão
crucificai-o de novo mas com mais requinte.
Subsistirá. É pior do que isso.
Prendei-o. Viverá de tal forma
que as próprias grades farão causa com ele.
E matá-lo não é solução.
O poeta
O Poeta
O POETA DESTROI-VOS

Mário Cesariny
nobilíssima visão
Colecção Poesia e Verdade
Guimarães & C.ª Editores
1976



BARRICADA

Quando já não pudermos mais chorar e as palavras forem peque-
ninos suplícios e olhando para trás virmos apenas homens desmaia-
dos, então alguém saltará para o passeio, com o rosto já belo, já
espontâneo e livre, e uma canção nascida de nós ambos, do mais
fundo de nós, a exaltar-nos!
Tu sabes se te quero e se fomos os dois abandonados, abandona-
dos para uma bandeira, para um riso que sangre, para um salto no
escuro, abandonados pelos lúgubres deuses, pelo filme que corre e
desaparece, pela nota de vinte e um pedais, pela mobília de duas
cadeiras e uma cama feita para morrer de nojo. Minha criança a
quem já só falta cuspir e enviar corpo e bens para a barricada, meu
igual, tu segues-me; tu sabes que o caminho é insuportavelmente
puro e nosso, é um duende gritando no telhado as ervas misteriosas,
é um rapaz crescendo ao longo dos teus braços, é um lugar para sem-
pre solene, para sempre temido! E o Rossio é uma praça para fazer
chorar. Salvé, ó arquitectos! Mas choremos tanto que será um dilú-
vio. Automóveis-dilúvio. Sobretudos-dilúvio. Soldadinhos-dilúvio. E
quando essa água morna inundar tudo, então, ó arquitectos, traba-
lhai de novo, mas com igual requinte e igual vontade: vinde trazer-
nos rosas e arame, homens e arame, rosas e arame.


MÁRIO CESARINY
A ÚNICA REAL TRADIÇÃO VIVA
Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
Perfecto E. Quadrado
Assírio & Alvim

Singapura







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sexta-feira, novembro 24, 2006

Letra B - Boris Vian

DELIGNY*

É preciso que se diga, com pesar
As mulheres belas nuas não coincidem jamais
Com as beldades vestidas
Existem naturalmente excepções
A minha mulher, para começar. A sua também
Se tiver escrito estas linhas
Mas eu cá não acredito, mente como eu respiro.

Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução e Nota Introdutória de
Margarida Vale de Gato
Relógio d´Água

........................................................................................................
* Piscina pública flutuante no cais Anatole-France, extinta em 1993.



ESPATIFAM O MUNDO


Espatifam o mundo
Aos bocados
Espatifam o mundo
À martelada
Mas estou-me nas tintas
Estou-me bem nas tintas
Sobra bastante para mim
Sobra bastante
Basta que eu ame
Uma pena azul
Um caminho de areia
Uma ave medrosa
Basta que eu ame
Um pé de erva ralo
Uma gota de orvalho
Um grilo do bosque
Podem dar cabo do mundo
Aos bocados
Sobra bastante para mim
Sobra bastante
Terei sempre um pouco de ar
Um pequeno fio de vida
Alguma luz no olhar
E o vento nas urtigas
E mesmo se, mesmo se
Me meterem na prisão
Sobra bastante para mim
Sobra bastante
Basta que eu ame
Essa pedra corroída
Esses ganchos de ferro
Onde o sangue se demora
Amo, eu amo
A tábua gasta da cama
A enxerga na madeira
A poeira soalheira
Amo o ralo que se abre
Os homens agora entrados
Que avançam, que me levam
Ao reencontro do mundo
Ao reencontro da cor
Amo esses longos montantes
O cutelo triangular
Os senhores que estão de luto
Orgulho-me da minha festa
Amo, eu amo
O cesto cheio de farelo
Para pousar a cabeça
Oh, amo-o a valer
Basta que eu ame
Um pezinho de erva ralo
Uma gotinha de orvalho
Um amor tímido de ave
Espatifam o mundo
Com seus pesados martelos
Sobra bastante para mim
Sobra bastante, meu amor.

Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução e Nota Introdutória de
Margarida Vale de Gato
Relógio d´Água



DE TANTO SE VEREM


De tanto se verem
Há palavras que vos poriam doentes
Palavras conhecidas mas muito perigosas de manejar
A não ser que sejam rodeadas de música
Também há quem meta açúcar nas amêndoas amargas
Palavras como areia, erva
Como sol, como deitados lado a lado
Como pele dourada, como cabelos louros
Como dentes brilhantes e lábios salgados
E depois outras palavras, ainda mais perigosas
“Ninguém à vista, podemos seguir”
E as mais perigosas de todas:
“É ainda melhor à quinta vez.”
Felizmente, que há carradas de aeronaves
A fabricarem fenomenologia a granel
E a meterem-vos bombas atómicas de atravesso pela
goela...
Peço desculpa... o sopro da inspiração...
Não é todos os dias que a musa nos visita.

Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução e Nota Introdutória de
Margarida Vale de Gato
Relógio d´Água



ESTIVERA ELA AQUI TÁO PESADA


Estivera ela aqui tão pesada
Com o seu ventre de ferro
E as suas abas de latão
Os seus tubos de água e de febre
Correria sobre os carris
Como a morte na guerra
Como a sombra nos olhos
Nela há tanto trabalho
Tantas e tantas horas de lima
Tanta pena e tantas dores
Tanta cólera e tanto ardor
E há tantos tantos anos
Tantas visões amontoadas
De vontade concentrada
De feridas e de orgulhos
Metal arrancado ao chão
Martirizado pela chama
Dobrado atormentado rebentado
Torcido em forma de sonho
Está o suor das eras
Fechado nesta gaiola
Dez e cem mil anos de espera
E de rudeza vencida
Se sobrasse
Um pássaro
E uma locomotiva
E eu sozinho no deserto
Com o pássaro e a coisa
E me dissessem escolhe
Que faria eu que faria
Ele teria um bico miúdo
Como convém aos conirrostros
Botões brilhantes nos olhos
E pequeno ventre redondo
Eu tê-lo-ia na mão
O coração bater-lhe-ia tão depressa.
A toda a volta o fim do mundo
Em duzentos e doze episódios
Ele teria penas cinzentas
Um pouco de ferrugem na quilha
E suas finas patas secas
Agulhas forradas de pele
Então que é que há-de guardar
Pois tudo tem de perecer
Mas pelos seus leais serviços
Deixamo-lo conservar
Uma única amostra
Pouca-terra ou passaroco
Recomeçar tudo do princípio
Todos os espessos segredos perdidos
Toda a ciência desmoronada
Se eu deixar a máquina
Mas as suas penas são tão finas
E o seu coração bateria tão depressa
Que eu guardaria o pássaro

Boris Vian
canções e poemas



DE BARBATANAS


A Sereia é um animal, regra geral louro,
Que se instala a um canto de um mar movimentado
E se estende sobre um enorme calhau
À espreita dos intrépidos navegantes
Por motivos extra-náuticos
A Sereia grita como um desalmado
Em primeiro lugar, para atrair os homens
Mas na realidade, também para demonstrar
Que não é um peixe verdadeiro.

Apesar desse complexo de inferioridade
Nunca hesita em fazer olhinhos aos grandes capitães
peludos
Mas a Sereia não tem sorte nenhuma
Porque na esteira de Monsieur Dufrenne*
Sabemos que os marinheiros têm (às vezes) maus
costumes.


Boris Vian

* Personalidade parisiense dos anos 30. director do Casino de Paris e do
ace, conselheiro municipal e general. que foi assassinado. provavel-
ente por um jovem prostituto e antigo marinheiro, que conservava o uni-
mie para as suas actividades lucrativas.


La vie, c'est comme une dent
D'abord on y a pas pensé
On s'est contenté de mâcher
Et puis ça se gâte soudain
Ça vous fait mal, et on y tient
Et on la soigne et les soucis
Et pour qu'on soit vraiment guéri
Il faut vous l'arracher, la vie

Boris Vian



Chérie viens près de moi
Ce soir je veux chanter
Une chanson pour toi.

Une chanson sans larmes
Une chanson légère
Une chanson de charme.

Le charme des matins
Emmitouflé de brume
Où valsent les lapins.

Le charme des étangs
Où de gais enfants blonds
Pêchent des caïmans.

Le charme des prairies
Que l'on fauche en été
Pour pouvoir si rouler.

Le charme des cuillères
Qui raclent les assiettes
Et la soupe aux yeux clairs.

Le charme de l'œuf dur
Qui permis à Colomb
Sa plus belle invention.

Le charme des vertus
Qui donnent au péché
Goût de fruit défendu.

J'aurais pu te chanter
Une chanson de chêne
D'orme ou de peuplier.

Une chanson d'érable
Une chanson de teck
Aux rimes plus durables.

Mais sans bruit ni vacarme
J'ai préféré tenter
Cette chanson de charme.

Charme du vieux notaire
Qui dans l'étude austère
Tire l'affaire au clair.

Le charme de la pluie
Roulant ses gouttes d'or
Sur le cuivre du lit.

Le charme de ton cœur
Que je vois près du mien
Quand je pense au bonheur.

Le charme des soleils
Qui tournent tout autour
Des horizons vermeils.

Et le charme des jours
Effacés de nos vies
Par la gomme des nuits.

Boris Vian

Gonçalo Byrne no CCB


Nuno Cera no CCB


quinta-feira, novembro 23, 2006

Henrique Dinis da Gama



Foto de Henrique Dinis da Gama

O NEVOEIRO


A névoa é a poeira da civilização que veste as coisas de
conhecimento, de cultura, de significações, impedindo
que elas apareçam nuas, tais como são. E como são,
quando aparecem nuas, como no primeiro dia?

José Gil, Diferença e Negação na Poesia de Fernando Pessoa

A partida tinha sido igual à de todos os dias.
De repente uma nuvem sobre a tempestade.
Poderia passar por fumo mas aparece como um
pó reluzente, iluminando a atmosfera do barco
de modo a não criar sombras. Todos se vêem,
todos se sentem. Cessou o balanço que os con-
sumia. Instalou-se uma calma luminosa.

A nuvem vai passando, de dentro para fora, dos
salva-vidas para as vigias. É morna e confortá-
vel, somatório do calor dos corpos. E não mais
se vêem as margens. Ter-se-á perdido o rumo?

Cai o certificado de navegabilidade, caem os
quadros. Na casa das máquinas a atmosfera é
limpa. O barco repousa; cede à deriva. Passa
à escuta do que o rodeia, cego de nevoeiro.
Cheiros e fumos penetram nas cabinas, en-
ganando distâncias, criando um cenário de
afastamento e contacto. Ninguém se move.
Guiados pela deriva, os passageiros fundem-se
numa só mente, numa só memória. Em silên-
cio e na imobilidade entregam-se ao acaso.
Não temem acidentes. E que eles aconteçam.

Caiu a pálpebra cinzenta do nevoeiro; desfez-
-se a fronteira entre a terra e o mar. Os raios
de sol já não assombram. Filtram-se por uma
cintilação domesticada e íntima, transformam-
-se no relevo sonoro, no ouvido de chumbo
ou prata que se dissolve com o vento. As cores
misturam-se por um pontilhismo difuso. Como
uma pérola que nasce, o nevoeiro rodeia-se de
superfícies concêntricas, apela para as exten-
sões fumadas. Quando se adensa, elimina vec-
tores e referenciais.
 

Henrique Dinis da Gama
Entre Mar e Margem
Caminho

quarta-feira, novembro 22, 2006

Lisboa

Kerry Hardy

O que Resta

Antes eu esperava pelas flores
o meu prazer repousava nelas.
Agora gosto das plantas antes de florir.
das folhosas - esporas-bravas, consoldas, dedaleiras -
camadas carnudas de folhas vigorosas erguendo-se
para o ar que cresce cada dia em luz, cintilante
de pó que fulge como a sombra dos olhos
que usa aquela rapariga alta da livraria,
as migalhas de brilho trémulo nas pálpebras brancas.

A roupa lavada dança na corda, os pardais arrastam
os montes de ervas que deixei espalhados a secar.
Talvez seja a meia-idade. Desarrumada, inacabada,
sabendo que agora não haverá tempo para acabar,
gostando das plantas - das vidas vigorosas -
sem cuidar das flores, sentada nas ervas
para anotar coisas, olhar as coisas,
observar a dança das camisas na corda
o pano filtrando a luz.

Sei mais ou menos
como viver a minha vida.
Mas quero saber como viver o que resta
com os olhos abertos e as mãos abertas;
quero estar de pé à porta, à chuva,
à escuta, a farejar, pasmada.
Temerosa e feliz,
como uma idiota perante Deus.


Kerry Hardy
Poesia do Mundo
Tradução de
ADRIANA BEBIANO

segunda-feira, novembro 20, 2006

ESTAMPA 2006 MADRID





30 Nov. a 4 Dez.
PabellĂłn de Gristal - Recinto Ferial Casa de Campo

domingo, novembro 19, 2006

Singapura



"NotĂ­cias" de Singapura em imagens.
Ver no photoblog da Joana http://www.joanagarrido.com/photoblog/

sexta-feira, novembro 17, 2006

Ví­tor Oliveira Jorge

O autor, Vitor Oliveira Jorge, e a Papiro Editora (Porto)
têm o prazer de convidar V. Exa a estar presente na sessão de lancamento do
livro de poesia
TOTAL AFLORACAO
que terá lugar no dia 7 de Dezembro de 2006, pelas 18,15 h., na FNAC do
Norteshopping, Matosinhos.

A apresentação da obra estará a cargo da Dra Edite Estrela,
Deputada ao Parlamento Europeu.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Minês Castanheira




Ontem pairaste ao meu lado toda a tarde.
E toda a tarde bateste portas, arranhaste paredes, acendeste a apagaste luzes.
Mas não disseste o meu nome.
Se dissesses, sabias que eu olhava.

Não foi a primeira vez que cá estiveste.
Da última, esqueço-me sempre, como foi?
Uma frase fugidia. Não sei
se não a ouvi ou se simplesmente não a quis aqui comigo.

É sempre assim quando passas por aqui
- as letras entendem-se melhor quando não gostam umas das outras.
E depois, como sempre, deixas ficar algo de ti.
Para ti.

Estive a pensar nos trincos
será que se pode por trincos em trincos?
e em como teria sido fácil gastar-te agora aqui
se quando acordei não tivesses ido embora.

Estive a pensar em torcer-te com as minhas próprias mãos
até nada mais de semântico de ti restar.
Mas depois de pouco servias.
Perder-se-iam as pausas, os silêncios que acotovelam palavras, as vogais das coisas.


Minês Castanheira
plasticidades
Prefácio de
Manuel António Pina
Editorial Magnólia



UM PLURAL


Hoje estive quase a dizer-te
um plural.
O todo de um mundo.

Hoje estive quase a lançar-nos no escuro,
Atirar-nos com força
De encontro ao tacto.
E reter dessa colisão o instante em que a película é escrita.

Guardar-te na foto. Reter-te a palavra na memória.

E mostrar-te que a imagem que retorna, às vezes
do corpo,
outras no porto
é a palavra vertida que fica de nós.
Noctuma.

Hoje desisti a tempo de te dizer o que já sabias...
De te falar sobre todas as horas fundas
que as tuas mãos tocaram
e eu deixei fora da fotografia.

De te contar sobre o todo de um mundo
Engolido por dentro
Devorado pela própria lágrima.

A do poema.

Hoje quis dizer-te
porque escrevo.


Minês Castanheira
plasticidades
Prefácio de
Manuel António Pina
Editorial Magnólia

Dulce Maria Cardoso





APRESENTAÇÃO DOS LIVROS

CAMPO DE SANGUE e OS MEUS SENTIMENTOS

pela autora e o crítico literário PEDRO SENA-LINO


QUINTA-FEIRA 23 de NOVEMBRO às 18h30

no

INSTITUTO FRANCO-PORTUGUÊS

ENTRADA LIVRE


“Uma narrativa intensa até dolorosa”Francisco José Viegas


Campo de sangue / Os meus sentimentos

de Dulce Maria Cardoso

“Dulce Maria Cardoso tem-se destacado, em apenas dois anos e dois romances, como uma das vozes mais originais e singulares da nova geração de escritores portugueses. Os seus livros Campo de Sangue (Coeurs arrachés) e Os meus sentimentos (Les anges, Violeta), ambos traduzidos em francês, têm recebido estrondosos elogios por parte da crítica. A escrita de Dulce Maria Cardoso é marcada por invenções narrativas e subversões formais dos mecanismos habituais do romance. Repetições, elipses, ou ainda o “tour de force”central de Os meus sentimentos (a obra é constituída por uma única frase, sem início nem ponto final, que corre durante 400 paginas) permitem uma captação labiríntica, sombria e multifacetada da realidade. Algures entre as historias de loucos de Gogol e o thriller metafísico.”


Instituto Franco Português

tel.: 213.111.400

Avenida Luís Bívar, 91, 1050-143 Lisboa

www.ifp-lisboa.com

Nouvelle Librairie Française

Tél. / Fax: 213.143.755 . nlfdel@mail.telepac.pt

Ouvrages en vente à la N.L.F.

Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964, na mesma cama onde haviam nascido a mãe e a avó. Tem pena de não se lembrar da viagem no Vera Cruz para Angola. Da infância guarda a sombra generosa de uma mangueira que existia no quintal, o mar e o espaço que lhe moldou a alma. Regressou a Portugal na ponte aérea de 1975. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu argumentos para cinema, gastou tempo em inutilidades. Também escreveu contos. Tem fé, uma família, um punhado de amigos, o Blui e o Clude. Continua a escrever e a prezar inutilidades. Vive em Lisboa.
O seu romance de estreia, Campo de Sangue, publicado em 2002 e escrito com o apoio de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, foi distinguido com o Grande Prémio Acontece de Romance e encontra-se traduzido em França. Os respectivos direitos foram também adquiridos para a América Latina e Espanha, e para o Brasil —Companhia das Letras.


“Loin du folklore, d’une grande originalité narrative, ce deuxií¨me roman époustouflant de Dulce Maria Cardoso invite d’abord à un dépaysement littéraire à l’avant-garde des lettres portugaises.”, Delphine Peras, Lire.

Violeta, comment vous la décrire? Une ballerine obèse qui titube à travers l’existence en levant le coude aussi souvent que la jambe ou peut-être un ange en exil, nostalgique du temps où “le ciel avait la couleur du ciel”.

Victime d'un accident de la route, elle apparaît au début du livre 'la tête en bas, suspendue par la ceinture de sécurité, la pluie claque sur le métal de la voiture, le liquide chaud qui coule de ma bouche c’est du sang, je reconnais le goût...” En ces ultimes instants s’emballe le carrousel d’une pauvre vie : sa carrière de représentante en cire dépilatoire, ses amours de restoroute, sa meilleure ennemie de fille, quelques lourds secrets de famille.

Derrière cette petite musique de la déglingue ordinaire, interprétée par une virtuose, on entend cependant jouer en sourdine une autre partition - la bande-son d’une période de bouleversements pour le Portugal, depuis le rêve du 25 avril 1974 jusqu’au désenchantement post-révolutionnaire en passant par le déclin de l’empire colonial. Subtile articulation entre un destin individuel et une aventure collective à laquelle répond un tour de force stylistique: ce deuxième roman de Dulce Maria Cardoso se compose d’une unique phrase qui court sur 392 pages sans que jamais le lecteur n’en perde le fil.


“Les Anges, Violeta”

“ Le peuple, uni, jamais ne sera vaincu”...Ce slogan de a Révolution des Œillets, (un nom de fleur qui est aussi une odeur”), Dulce Maria Cardoso le retourne :” Le peuple, vaincu, ne sera jamais uni”... Le 25 avril n’a évidemment pas tenu toutes ses promesses. Aucune Révolution, même fleurie, n’est jamais à la hauteur des rêves qu’elle éveille, des espérances qu’elle suscite... Illusions collectives et individuelles : Le ciel n’a pas toujours la couleur du ciel...Et toute vie mène à la mort, même et surtout “ sans crier gare “.

Etrange, original et fascinant ce roman de Dulce Maria Cardoso, traduit avec talent par Cécile Lombart, et publié chez Eric Nalleau qui sait découvrir religieusement, donc servir, des textes qui échappent à la facilité des modes et sont dignes de ce qualificatif “ littéraire “ si souvent violé et défiguré.

Un roman? Une phrase qui s’étend (sans nous noyer) sur quelque 390 pages...Sans une seule capitale, pas même au début. Sans point, pas même à la fin. Un exploit stylistique (y compris chez la traductrice). Résultats : techniquement, une réhabilitation totale de la virgule qui prend un relief rare et une importance exceptionnelle au service d’une prose souvent poétique, chargée d’images, de métaphores et de métonymies fortes et ponctuée de sentences philosophiques (puisque semées dans “ le jardin de la mort “) : “ la vie est une hypothèse sans thèse... rien ne résiste au silence... les morts sont tous oublieux... le pire c’est quand on se met en tête “...

Mais où est-elle allée “ chercher tout cela “, Dulce Maria Cardoso? Son personnage central, d’abord : Violeta. Une “monstresse “? Un ange déguisé? Une pauvre “bougresse “ qui “roule sous les ténèbres “? Imaginez-vous une “ballerine obèse “ qui lève plus le coude que la jambe? “C’était une femme si grosse, si grosse, que quand elle tombait du lit, elle tombait des deux cotés... C’était une femme si grosse, si grosse, qu’elle arrivait à être à deux endroits à la fois “. Et quel non-destin, pour destinée ! “On ne change pas le passé, point final “. Mais “je vais vous dire un secret “ : ce livre tient “éveillé jusqu’au bout de la nuit “. En vous faisant deux rappels essentiels : “La vérité est toujours entre nous et les autres : elle n’appartient à personne (...) La vie est une chose maligne “

Daniel RIOT


Margarida Antunes da Silva
Attachée de Presse/Relations Publiques
Institut Franco-Portugais
Av. Luís Bívar, 91
1050-143 LISBOA
Tel: 21 311 14 27 / Fax; 21 311 14 63

terça-feira, novembro 14, 2006

Ondjaki

TU QUE VISTE TANTAS ESTRELAS

para ti, b.

cegueira é um ganho.
em ti
labirinto é rebanho.
teu chão é o mundo.
para nós, deixas sempre:
sorriso deformado com amor,
poesia em forma líquida:
deve ser bebida ou respirada
em momentos com vagar.
para palavrear prosas, imitas oxigénios:
entras aderindo nos corações.
a bengala quiseste para afastar teus tigres.
o mundo é que foi teu chão.
em vida chegou-te uma cegueira.
teu segredo eu sei:
em cegueira chegou-te uma tanta vida.


Ondjaki
Há Prendisajens
com o Xão
(O Segredo Húmido da Lesma & Outras Descoisas)
Caminho - outras margens

Daniel Faria

Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro

Entrei com a sombra pela cintura como algo conquistado
Com sangue a escorrer-me para os pés. Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.

Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre

Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha


Daniel Faria
(1971-1999)
Homens Que São Como Lugares Mal Situados

Feira de Arte Contemporânea - Lisboa