domingo, novembro 12, 2006

Carlos Botelho



Carlos Botelho
Lisboa

1 comentário:

Frisco disse...

Para ser mais preciso, seu nome completo era Carlos António Teixeira Bastos Nunes Botelho, um nome comprido e complicado para um homem simples, objetivo e directo, versátil no seu trabalho e um dos esteios do modernismo português.
(pitoresco.com.br/portugal)
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Natural de Lisboa, onde nasce em 1899 (m. Lisboa, 1982), �lho de músicos, Carlos Botelho quase se pro�ssionaliza como violinista, antes de enveredar pelas artes plásticas. Após breve passagem pela ESBAL, onde é aluno do pintor Ernesto Condeixa, em 1919, opta pelo autodidactismo, abandonando a escola.

Iniciando cedo a carreira pro�ssional, trabalhou em cerâmica industrial, artes grá�cas (cartazes e ilustração), banda desenhada, caricatura, decoração, tapeçaria, cenogra�a de teatro e de ballet e pintura, recebendo, no âmbito das exposições de Arte Moderna organizadas pelo SPN/SNI, o “Prémio Souza-Cardoso”, em 1938, e o “Prémio Columbano”, em 1940 (ano em que passa a expor com regularidade).

Como quase todos os artistas da segunda geração dos modernistas, é nos campos da caricatura e da ilustração, mais permeáveis à experimentação, à inovação e ao desejo moderno de cosmopolitismo, que desenvolve obra inicial e encontra mercado. Os seus primeiros anos evidenciarão, por isso, uma vasta produção para a imprensa, nomeadamente para a revista infantil ABCzinho, onde, desde 1923, publica bandas desenhadas, e para o Sempre Fixe, para o qual cria a página semanal “Ecos da Semana”, a partir de 1929. Publicada ao longo de 22 anos, esta constitui-se como um espaço de reflexão sobre a identidade humana, e de ensaio do seu pensamento plástico.

Mais liberto do que a pintura, o seu desenho de ilustração e caricatura expressa-se através de um traço limpo, de inspiração inicial na herança satírica de Rafael Bordalo Pinheiro, mas actualizado pela integração de experiências com que se confronta no quotidiano nacional e nas suas múltiplas viagens, e que jamais escusa a grande expressividade e ironia com que de�ne os tipos e as personagens cenográ�cas da perseguida elegância urbana. Na pintura, pelo contrário, o registo humorístico não tem eco e, após uma incidência no retrato, entre 1930 e 1941, o seu tema preferencial será sempre a cidade. O artista dedica-se a inventar múltiplas faces de Lisboa, numa herança que cita um vedutismo (pintura de vistas urbanas italianas do século XVIII), trabalhado, algo caprichoso e fantasista. Veja-se o modo como alguns edifícios são deliberadamente recriados ou como o rio traça percursos de acordo com as necessidades compositivas. Botelho faz também de Lisboa laboratório de impressões e experiências que traz de outras cidades, de outros pintores. E que cruza com as suas próprias viagens por Lisboa, na escolha dos motivos e dos modos de os registar.

Será como decorador de pavilhões o�ciais ou representante de Portugal na Bienal de Veneza (1950) que Botelho mais viajará, não perdendo oportunidades de ver pintura. As suas viagens são, assim, ocasiões de estudo, para além de exercício pro�ssional. Irá a Paris, pela primeira vez, em 1929. Voltará em 1931, como um dos reponsáveis pela decoração do Pavilhão Português da Exposição Colonial Internacional de Vincennes, e, em 1937, a pretexto da Exposição Internacional, cuja equipa de decoradores também integra. Esta última estada permite-lhe um mais directo contacto com a obra de Van Gogh e ocasiona uma ida a Bruxelas que lhe terá permitido ver Ensor. Entretanto, em 1935, passara já algum tempo em Itália. A viagem a Nova Iorque em 1939, por ocasião da Exposição Internacional, permite-lhe registar a inauguração do MOMA. Destes dias �ca também o registo da cidade, tomada já como tema central, na sua impressiva verticalidade, cujas linhas servirão de mote para futuras composições assim estruturadas.

Durante os anos 30, para além da crónica “Ecos da Semana”, o seu território plástico mais explorado será o do retrato, pretexto de sistemática aprendizagem pessoal e da adopção do desenho como estudo prévio para a pintura, alicerce bem expresso no seu auto-retrato de 1930, em que uma pintura desenhada, de contornos claros e precisos, é servida por uma pincelada fluida que não se impõe à estrutura.

Porém, a partir dos anos 40, o seu assunto preferencial é já Lisboa, cidade de cuja paisagem Botelho torna progressivamente ausente a �gura humana. Construídas sobre uma teia geométrica orientadora, as primeiras incursões nestes registos denotam uma qualidade táctil, texturada, da mancha, obtida através de uma pincelada que, volumosa, voluptuosa, orienta o olhar para o desenho e cria nuances lumínicas na composição. No �nal da década, uma Lisboa de demolições faz já assomar linhas abstractizantes – a par de outras mais oníricas –, que se concretizam em experiências assumidas, já nos anos 50. Porém, logo na década seguinte, quando na sua obra se a�rma já uma evidente complementaridade entre desenho e pintura, a cidade despe-se dessa malha, que chega a ser labiríntica, e edi�ca-se como um registo progressivamente liberto de texturas, no desejo da maior limpidez possível. A sua paleta expressiva, onde pulsa uma luz intensa, dominantemente quente, resulta numa cenogra�a de forte pendor lírico, sempre sustentada pelo desenho. Lugar de uma multiplicidade de experiências plásticas, sínteses onde se cruzou também um expressionismo de raiz alemã, vertente ao tempo modernizadora dessas paisagens, Lisboa a�rma-se como motivo poético e dinâmico por excelência, espaço pictórico que, assim, se torna revelação íntima do olhar do pintor.

EMĂŤLIA FERREIRA