sábado, dezembro 23, 2006

W. H. Auden

CANÇÃO

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas
Umas vivem em palácios, outras em mansardas;contudo não há lugar para nós,
minha querida, não há lugar para nós

Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.Olha para o mapa e lá a encontrarás;mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não podere- mos regressar tão cedo.

O cônsul deu um murro na mesa e disse:se não têm passaportes estão oficialmente mortos;mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.

Lá em baixo no adro um velho teixo
todas as primaveras floresce de novo:e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos passaportes não florescem.

Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira

disseram polidamente para voltar no ano seguinte:mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?

Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.

Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?
É Hitler sobre a Europa dizendo: «Eles têm de morrer!»
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no
Seu pensamento.

Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete
vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não ale-
mães.

Desci ao porto e parei no cais
vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés distância.
Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana.
Sonhei que vira um edifício com mil andares
mil janelas e mil portas;nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma.
Corri à estação para apanhar o expresso,
pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as carruagens estavam cheias.

Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair
dez mil soldados marchavam de um lado para o outro
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e
para ti.

W. H. Auden
(1907-1973)Reino Unido
TRAD.:Jorge Emílio
Rosa Do Mundo
2001 POEMAS PARA O FUTURO
Assírio & Alvim

2 comentários:

Frisco disse...

W. H. Auden nasceu em York, a 21 de Fevereiro de 1907. Estudou em Holt e em Oxford, tendo seguidamente vivido um ano num bairro de lata em Berlim. A sua primeira colecção de poemas foi rejeitada por T. S. Eliot, à época editor da Faber & Faber. No entanto, já em 1930, foi no The Criterion, de Eliot, que Auden publicou uma pequena peça em verso intitulada Paid on Both Sides. É nesse mesmo ano que aparece o seu primeiro livro de poemas, simplesmente intitulado Poems. No princípio dos anos trinta deu aulas na Escócia. Em 1935 casou com Erika Mann, actriz e jornalista lésbica, irmã de Thomas Mann, para que esta conseguisse passaporte britânico. Em finais dos anos trinta trabalhou como escritor independente e publicou livros de viagens. Escreveu peças para o Group Theatre e libretos de ópera. Em 1939 deixou Inglaterra e partiu para os Estados Unidos, tendo-se naturalizado cidadão americano em 1946. Foi professor convidado de poesia em Oxford. Morreu em Viena a 29 de Setembro de 1973.

(posted by hmbf)
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E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza.
(de uma crĂłnica de Hilda Hilst)
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Wystan Hugh Auden, known more commonly as W. H. Auden, (February 21, 1907 – September 29, 1973) was an English poet, often cited as one of the most influential of the 20th century. He spent the first part of his life in the United Kingdom, but emigrated to the United States in 1939, becoming a U.S. citizen in 1946.
Auden was a frequent correspondent and longtime friend (although they rarely saw each other) of J.R.R. Tolkien, who died three weeks before Auden. He was among the most prominent early critics to praise The Lord of the Rings. Tolkien wrote in a 1971 letter, "I am... very deeply in Auden's debt in recent years. His support of me and interest in my work has been one of my chief encouragements. He gave me very good reviews, notices and letters from the beginning when it was by no means a popular thing to do. He was, in fact, sneered at for it."

His 1947 poem "The Age of Anxiety" provided the basis of a Symphony by Leonard Bernstein; the symphony includes no vocal music, but the mood and themes of the movements were suggested by the poem.

His poem "Hymn to the United Nations" was commissioned by the United Nations Secretary-General U Thant who also commissioned a setting for the poem by Pablo Casals; Casals conducted the first performance in 1971, but the work was never adopted officially by the United Nations.

With Leif Sjöberg, Auden translated 66 of the Swedish poet Pär Lagerkvist's poems.

His poem "Victor" served as the basis for a song of the same name on Rush guitarist Alex Lifeson's 1996 solo album, also titled Victor.

[edit] Auden Quotations

* "Poetry makes nothing happen." (In Memory of W.B. Yeats, 1939)
* "A poet is, before anything else, a person who is passionately in love with language."
* "A poet is a professional maker of verbal objects."
* "Thoughts of his own death, / like the distant roll / of thunder at a picnic." (a haiku, originally in three lines)
* "I am very puzzled when they ask for student participation, because later in life, when one sins, one has to sit on committees. If they knew what it is like to sit on committees, how very boring it is... Thank God when I was a student nobody ever asked me to be on a committee!" (from seminar at Swarthmore College, 1971)
* "Almost all of our relationships begin and most of them continue as forms of mutual exploitation, a mental or physical barter, to be terminated when one or both parties run out of goods."
* "When I was a student, contemporary literature was something we looked at for ourselves and I think we were reasonably informed. We wouldn't have dreamt of going to a teacher and saying, 'We want to have a course.' " (also from seminar at Swarthmore College, 1971)
* "Before people complain of the obscurity of modern poetry, they should first examine their consciences and ask themselves with how many people and on how many occasions they have genuinely and profoundly shared some experience with another."
* "Geniuses are the luckiest of mortals because what they must do is the same as what they most want to do."
* "God bless the USA, / So large, so friendly, and so rich." (from the poem "On the Circuit")
* "My face looks like a wedding cake left out in the rain."
* "There is no love; / There are only the various envies, all of them sad." (In Praise of Limestone, 1948)
* "I am losing patience / With my personal relations. / They are not deep / And they are not cheap." (Shorts, 1930)
* "In the prison of his days, / Teach the free man how to praise." (In Memory of W.B. Yeats, 1939)
* "About suffering they were never wrong, / The Old Masters ... They never forgot / That even the dreadful martyrdom must run its course / Anyhow in a corner, some untidy spot / Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse / Scratches its innocent behind on a tree." (Musee des Beaux-Arts, 1938)
* "The glacier knocks in the cupboard, / The desert sighs in the bed, / And the crack in the teacup opens / A lane to the land of the dead." (As I Walked out One Evening, 1937)
(da Wikipedia)

Frisco disse...

Outra biografia mais simplificada.
W. H. Auden

AKA Wystan Hugh Auden

Born: 21-Feb-1907
Birthplace: 54 Bootham, York, North Yorkshire, England
Died: 29-Sep-1973
Location of death: Vienna, Austria
Cause of death: Heart Failure
Remains: Buried, Kirchstetten,
Austria
Gender: Male
Religion: Anglican/Episcopalian
Race or Ethnicity: White
Sexual orientation: Gay
Occupation: Poet

Nationality: United States
Executive summary: The Age of Anxiety
Father: George Auden (physician)
Mother: Constance Bicknell (nurse)
Brother: Bernard (b. 1900)
Brother: John (b. 1903)
Wife: Erika Mann (dau. of Thomas Mann, for emigration, m. 1935, d. 27-Aug-1969)
Boyfriend: Chester Kallman (poet, b. 1921, d. 1975, lovers 1946 until Auden's death)

High School: Gresham's School
University: Christ Church, Oxford University (1928, third class degree)
Professor: Poetry, Oxford University (1956-61)

Pulitzer Prize for Poetry 1948 for The Age of Anxiety
Bollingen Prize in Poetry 1954
National Book Award for Poetry 1956 for The Shield of Achilles
American Academy of Arts and Letters
Naturalized U.S. Citizen
Converted to Anglicanism

(da NNDB)