sexta-feira, setembro 22, 2006

Augusto Abelaira

Comecei a fumar por snobismo e ainda hoje não gosto de
fumar. Perdão. Gosto de fumar por snobismo.
- Atirou fora o cigarro.
- O meu pai fumava. Não fumei porque o meu pai fumava.
Não fumei para contrariar o meu pai.
Um barco a remos com letras verdes à proa (letras verdes que
diziam "Maria Brenda") aproximava-se da traineira. Dois homens
dentro, um de cachimbo. De cachimbo e de camisola azul. De camisola
azul e de barba. De barba e já velho.
Ana Isa segurava os cabelos.
- Não sei porque estou com as mãos na cabeça. Sempre gostei
de me ver com os cabelos ao vento. Tem qualquer coisa de aventuroso,
de desafio à natureza... Será? Não só à chuva, ao vento também.
- Sempre gostei de ver uma mulher com os cabelos ao vento,
com o rosto molhado. Qualquer coisa assim: de súbito ela aparece,
tem o rosto molhado, é absolutamente inesperada... Abrigo-a com
a minha gabardina, beijo-lhe os lábios.
- Com um vestido branco?
- Não sei. O vento existe para as mulheres segurarem os cabelos
com as mãos. Porque não com umas calças brancas?
Ela cruzou os braços, de costas para o mar.
- E também para que usemos lenços de seda. - Desenrolou um
lenço da cintura, levou-o à cabeça.- Gosta?
- Sim, o vento faz as mulhers bonitas.
Observaram-se em silêncio, ela muito morena e de olhos claros,
ele mais baixo, encostando-se à balaustrada. Ao vento, aos fósforos,
dois novos temas a acrescentar: o oceano, a mulher de branco
inesperada.
- Cachimbo, como a mulher do Brecht, não... Mas já usei boqui-
lha, uma longa boquilha. Talvez falta de confiança, porque não? Por-
que os cigarros dão-me por vezes a sensação de que visto um vestido
que não é meu, mas de minha mãe. A boquilha era como se usasse
um casaco de homem muito comprido, um casaco que me chegava
aos joelhos, a que eu tinha de arregaçar as mangas.. Nos primeiros
dias apenas. Depois era alguma coisa que se acrescentava a mim
própria, qualquer coisa que me defendia, que me dava confiança,
qualquer coisa em que me podia apoiar.
- Desistiu?
- Por isso mesmo. Quero ser eu sem artifícios, sem coletes de
salvação.
- Ah, porque não arranca os vestidos, porque não arranca tudo
quanto lhe ensinaram?
- Nada ficaria de mim...
Artur não insistiu e começou a limpar com um lenço os óculos
de sol. Um novo tema surgira, o tema do eu. E algumas variações
sobre os temas antigos:
- Porque não usa isqueiro? Acende-se melhor, não se apaga.
Afinal o barco a remos não se dirigia para a traineira, avançava
sempre para o largo.
- Que idade tem? -disse Artur.
- Vinte e oito.-Chama-se?...
- Ana Isa.
- Artur.
-Reparou? O velho nunca levanta as mãos dos remos. Terás
empre mantido o cachimbo aceso?
-Vi-a ontem ao sair da estação. Já a tinha visto antes d'ontem.
- Cheguei a ter um isqueiro, cheguei. Mas perdi-o.
-Sim, antes d'ontem... Pensei: amanhã meto conversa com ela.
- Fui eu a primeira a falar.
- Você?
- Tentou recordar-se, fingiu que tentou recordar-se.
-Sim, é isso, pediu-me fósforos... - Sorriu. - Já não sei onde li que
devíamos todos fumar. Que os cigarros são um meio de entrarmos
em comunicação com as outras pessoas. Que os cigarros destróem
todas as fronteiras que nos separam uns dos outros.
- O tema da incomunicabilidade entre os homens? - Irónico.
-Uma coisa que se pede, uma coisa que se oferece...
- Que horror? Haverá homens que precisam de fumar para con-
viver? - Sério.
- Não digo isso.. Mas facilita... Claro: de que serve os cigarros
a quem é incapaz de se interessar pelos outros? .

(Continua)


Augusto Abelaira
eva-natal
1962

2 comentários:

Frisco disse...

Rendeu-se ao computador depois de anos a escrever os seus livros em sebentas, muitas vezes nas mesas dos cafés onde passava horas a enrolar vagarosamente os seus cigarros e a observar as pessoas, fonte de inspiração de muitos dos personagens dos seus livros.

Foi, até ao fim, um anotador infatigável, um repórter da vida - e isso mesmo está patente no último livro que escreveu e agora chega às livrarias, um ano depois da sua morte física. Augusto Abelaira nasceu em 1926 em Ançã, Cantanhede, e faleceu a 4 de Julho de 2003, em Lisboa.

Assinalando o primeiro aniversário do seu passamento, a Editorial Presença acaba de lançar Nem Só, Mas Também, o seu último título, que não viu publicado em vida mas pôde ainda rever na totalidade. "O meu pai tinha este livro concluído em 2000, faltando-lhe somente a revisão e os acertos finais" - recorda a única filha do escritor, Sílvia Abelaira, de 44 anos, psicóloga no Serviço de Adopção da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

"Em Janeiro desse ano diagnosticaram-lhe um cancro, e, tal como a um dos personagens do livro, também a ele o médico disse que tinha dez anos de vida. Foi no dia em que soube da doença que o meu pai verdadeiramente ficou doente". Não viveu, afinal, por mais dez anos: restaram-lhe apenas três anos e meio, ao longo dos quais Augusto Abelaira se recusou a aceitar a ideia da morte, lutando contra a doença da melhor forma que sabia - escrevendo.

Foi durante este período que concluiu as alterações e a revisão final de Nem Só, Mas Também. "Dizia-nos sempre que ia melhorar, fazia planos para viajar quando ficasse melhor, e pouco antes de morrer marcou umas férias nas termas da Curia, embora me confessasse que não gostava nada de termas, que eram coisas de velhos, mas enfim..."

Nos últimos três meses da sua existência, em que, por força dos tratamentos a que era sujeito, foi perdendo gradualmente força e capacidades, Abelaira continuou ainda assim a trabalhar na revisão de Nem Só, Mas Também. "Quinze dias antes da sua morte ainda fazia tentativas para rever o livro nas páginas impressas, pois a perda gradual da visão impedia-o de utilizar o computador" - revela a filha do escritor.

Sílvia Abelaira recorda-o como um pai "diferente, mas muito excitante". Que não lhe contava histórias de bruxas e de fadas, mas que lhe lia �lvaro de Campos e Fernando Pessoa. Que a levava à ópera e lhe incutiu o gosto pela poesia, pela literatura e pela música clássica. Sílvia, recorda que, quando os pais viajavam, Augusto lhe enviava longas cartas em que arranjava sempre uma história engraçada a propósito de qualquer coisa, como uma família de gatos, por quem tinha verdadeira paixão, que havia encontrado e como os iria apresentar à filha na primeira oportunidade.

Lembra com saudade a sua primeira viagem a Itália com o pai, e as explicações pormenorizadas sobre a arquitectura dos monumentos, tentando sempre encontrar elementos engraçados que prendessem a sua atenção. Nem Só, Mas Também, trabalho de cunho autobiográfico e introspectivo, de leitura fácil e com um sedutor toque irónico, é fruto da prodigiosa imaginação de Augusto Abelaira, que habilmente nos faz acompanhar o dia-a-dia de um "eu" que carrega consigo um pequeno caderno onde anota as suas observações e diálogos interiores.

Ícone da cultura e da Comunicação Social portuguesas dos últimos 40 anos, Abelaira estreou-se em 1959 com A Cidade das Flores. Entre os seus títulos mais apreciados figuram Enseada Amena, Bolor, Sem Tecto entre Ruínas e Outrora Agora. Escreveu n' O Século e n' O Jornal, dirigiu a Vida Mundial e a Seara Nova e foi director de Programas da RTP.

(Presença)

Frisco disse...

Rendeu-se ao computador depois de anos a escrever os seus livros em sebentas, muitas vezes nas mesas dos cafés onde passava horas a enrolar vagarosamente os seus cigarros e a observar as pessoas, fonte de inspiração de muitos dos personagens dos seus livros.

Foi, até ao fim, um anotador infatigável, um repórter da vida - e isso mesmo está patente no último livro que escreveu e agora chega às livrarias, um ano depois da sua morte física. Augusto Abelaira nasceu em 1926 em Ançã, Cantanhede, e faleceu a 4 de Julho de 2003, em Lisboa.

Assinalando o primeiro aniversário do seu passamento, a Editorial Presença acaba de lançar Nem Só, Mas Também, o seu último título, que não viu publicado em vida mas pôde ainda rever na totalidade. "O meu pai tinha este livro concluído em 2000, faltando-lhe somente a revisão e os acertos finais" - recorda a única filha do escritor, Sílvia Abelaira, de 44 anos, psicóloga no Serviço de Adopção da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

"Em Janeiro desse ano diagnosticaram-lhe um cancro, e, tal como a um dos personagens do livro, também a ele o médico disse que tinha dez anos de vida. Foi no dia em que soube da doença que o meu pai verdadeiramente ficou doente". Não viveu, afinal, por mais dez anos: restaram-lhe apenas três anos e meio, ao longo dos quais Augusto Abelaira se recusou a aceitar a ideia da morte, lutando contra a doença da melhor forma que sabia - escrevendo.

Foi durante este período que concluiu as alterações e a revisão final de Nem Só, Mas Também. "Dizia-nos sempre que ia melhorar, fazia planos para viajar quando ficasse melhor, e pouco antes de morrer marcou umas férias nas termas da Curia, embora me confessasse que não gostava nada de termas, que eram coisas de velhos, mas enfim..."

Nos últimos três meses da sua existência, em que, por força dos tratamentos a que era sujeito, foi perdendo gradualmente força e capacidades, Abelaira continuou ainda assim a trabalhar na revisão de Nem Só, Mas Também. "Quinze dias antes da sua morte ainda fazia tentativas para rever o livro nas páginas impressas, pois a perda gradual da visão impedia-o de utilizar o computador" - revela a filha do escritor.

Sílvia Abelaira recorda-o como um pai "diferente, mas muito excitante". Que não lhe contava histórias de bruxas e de fadas, mas que lhe lia �lvaro de Campos e Fernando Pessoa. Que a levava à ópera e lhe incutiu o gosto pela poesia, pela literatura e pela música clássica. Sílvia, recorda que, quando os pais viajavam, Augusto lhe enviava longas cartas em que arranjava sempre uma história engraçada a propósito de qualquer coisa, como uma família de gatos, por quem tinha verdadeira paixão, que havia encontrado e como os iria apresentar à filha na primeira oportunidade.

Lembra com saudade a sua primeira viagem a Itália com o pai, e as explicações pormenorizadas sobre a arquitectura dos monumentos, tentando sempre encontrar elementos engraçados que prendessem a sua atenção. Nem Só, Mas Também, trabalho de cunho autobiográfico e introspectivo, de leitura fácil e com um sedutor toque irónico, é fruto da prodigiosa imaginação de Augusto Abelaira, que habilmente nos faz acompanhar o dia-a-dia de um "eu" que carrega consigo um pequeno caderno onde anota as suas observações e diálogos interiores.

Ícone da cultura e da Comunicação Social portuguesas dos últimos 40 anos, Abelaira estreou-se em 1959 com A Cidade das Flores. Entre os seus títulos mais apreciados figuram Enseada Amena, Bolor, Sem Tecto entre Ruínas e Outrora Agora. Escreveu n' O Século e n' O Jornal, dirigiu a Vida Mundial e a Seara Nova e foi director de Programas da RTP.

(Presença)