domingo, julho 16, 2006

Profecia


Profecia de um mouro de Granada (1510)

Lá para tempos vindouros
grandes festas se verão,
pasmarão as gentes todas
com grande admiração.

Porém não naquele reino
que por Deus foi escolhido;
será esse vencedor,
vencedor e não vencido.

Não te assustarás de o ver
espezinhado e cativo,
por causa daquele rei
que fazem morto e é vivo.

A Europa amotinada
andará toda inquieta;
oprimida de tal ver,
andará de boca aberta.

As gentes se temerão
da infernal gália gente,
que vive sem lei nem rei
e toda impenitente.

Nesse reino desgraçado
que despreza Deus e lei,
se verá, ou eu me engano,
matarem o próprio rei.

Isto que que eu digo é verdade
e assim há-de acontecer,
o matarem-se uns aos outros,
porque Deus assim o quer.

Depois há-de saquear
da Europa muita parte,
usando do grande engano,
pra tudo tem jeito e arte.

Tempos hão-de vir de lá,
lá para os anos futuros,
em que a gente lusitana
levantará os seus muros.

Há-de logo destruir
toda essa gente infernal,
só ela e mais ninguém
há-de punir todo o mal.

Isto que digo há-de ser,
segundo tenho entendido,
da Lusa, Gália e Leão,
o seu reino prometido.

Ao grande rei lusitano
que por Deus foi escolhido,
o que foi manifestado
há-de ser acontecido.

A ele foi prometida
a quinta coroa imperial,
e a todo o seu descendente
que fosse na fé leal.

Lá além numa ilha
onde Deus o quer guardar,
De lá mesmo ele há-de vir
segunda vez a reinar.

E dentro das cinco quinas,
quem bem souber contar,
quando isto acontecer,
elas o hão-de mostrar.

Quando isto muitos lerem,
disto muitos zombarão,
mas quando virem que é certo
que não minto saberão.

Todo o poder do mundo
com ele combaterá
e toda la redondeza
ao seu fogo arderá.

E se quiserem saber
quando isto há-de acontecer,
repara nas cinco quinas
que a Portugal dão o ser.

Nelas com toda a verdade
saberás o tempo certo,
em que bem fácil dará
todo aquele que for esperto.

Se quiseres saber o tempo
em que isto há-de acontecer:
quando em Portugal reinar,
em lugar de homem, mulher.

A vinda do lusitano
pouco depois tardará:
virá o Rei Encoberto
que ao mundo leis dará.

Na era de sete e dois,
mais cinco, quatro e três,
feliz de ti, Portugal,
que então de certo o vês.

Todos hão-de se alegrar,
sentindo novo conforto,
vendo entrar em Portugal
vivo quem julgavam morto.

Aqui tens, ó Portugal,
toda a gente a ti rendida,
e a coroa imperial
lá na África perdida.


ALMANAQUE
fantástico
cómico
científico
realizado por Manuel João Gomes
Lisboa MCMLXXVII
colecção meia-noite
arcádia

1 comentário:

Anónimo disse...

virá o Rei Encoberto
que ao mundo leis dará.

É sina dos Portugueses, aguardar a vinda de "alguem" que lhes resolva os problemas...