terça-feira, outubro 10, 2006

Letra A - Al Berto

envolver-me na mais obscura solidão das searas e gemer
amassar com os dentes uma morte íntima
durante a sonolência balbuciante das papoulas prolongar
a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer

colher em teu sexo o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos... as bocas
do gado triturando o restolho... as correrias inesperadas
das aves rasteiras

e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca
subirei com a fala ao cimo de teu corpo ausente
transmitir-lhe-ei o opiáceo
amor das estações quentes


Al Berto
Vigílias
selecção e prólogo de
José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim
2004



o silêncio tem a espessura das papoulas murchas
e os objectos de barro parecem aproximar-se do sono
inclinam-se para o lado onde se situam os moinhos as ermidas os bos-
ques diluídos
o nítido ladrar dos cães
que horas serão para lá desta fotografia?
com uma grande angular circundo o mosteiro ao morrer do dia
perto dos jardins cheira a laranjas orvalhadas em tua respiração
tenho uma iluminação de astros rebentando do arco-íris da noite
quando abro o diafragma todo para as linhas oblíquas do rosto em
telha quase rubra
o dia desaguou ao fundo das ruas desertas
apresso o passo debaixo do voo das aves
recolho o olhar
onde um fauno vem beber a nocturna nudez das uvas


Al Berto
Vigílias
selecção e prólogo de
José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim
2004



MAPA


abres o mapa da europa e
assinalas o lugar perdido junto ao mar - o sol
fulmina a narceja e o leite sábio das mães
coalhou num sabor a plâncton e húmus

na floreira da janela virada ao mars
ecaram os goivos dos navegantes e um cardo amarelo
irrompeu hirsuto e firme - o tempo chuvoso
alastra pelas ruelas insinuando-se na alma
uma babugem grossa de maresia - a europa afasta-se
com seus falhanços ao som dos tambores de água

recordas assim a noite varada à porta dos grandes frios
o corpo carbonizado que perdeu a nacionalidade
as cidades sem nome o acidente a auto-estrada
o recado deixado no café a cerveja entornada
o alarme da noite em fuga
a terra dos gelos eternos a viagem sem fim a faca
rente ao pescoço e os comboios ligando
a treva à treva
um país a outro país - onde dissemos coisas que matam
e largam rastros de aço nas pálpebras

mas
no cansaço da torna-viagem no desalento de tudo
o mapa da europa ficou aberto no sítio
onde desapareceste

ouço o atlântico uivando de abandono
enquanto os dedos se cansam a pouco e pouco
na lenta escrita de um diário - e depois
fecho o mapa e vou
pela crueldade desta década sem paixão


Al Berto (1948-1997)
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim



5


vem comigo
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a ruiva doçura das cerejas

iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforma e morre
e já não nos pertence

vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu


Al Berto
O Medo
Assírio & Alvim



o junco entrançado das cadeiras conhece a memória do corpo
este demorado tempo de ausência... sobre a cama de areia
onde o amor se desenvolve o cheiro a poejo dos lençóis

a noite vem do esquecimento da voz
persigo-te com os dedos pelo vácuo
encontro o rosto amarelecido nas fotografias... despojos
do atormentado sono... perscruto o lugar
onde nunca mais voltaremos a cal insiste em revelar-me
outro rosto... lateja-me na boca um coração de papel
dissolve-se um desastre no escuro interior dos objectos

eis a última visão do deserto... um mar triste
uma canção de abandono sobre a boca

o sonho
invadindo a vida que me enche de sede
mas vai chegar o inverno
o corpo afrouxar-se-á como o fazem algumas flores
ao cair da noite dobram-se para o fulcro morno da seiva
e cismam um sonho de ave que só a elas pertence

são horas de ter medo meu amor
cansadas horas quebradas nas mãos.
horas de alucinação
estes dias abertos à corrosão do ciúme... estas janelas
derramando sémen à

velocidade do surdo grito... são horas
horas de fingir que nos amámos

lentamente os dedos aperfeiçoaram a arte de pararem
sussurrantes sobre o corpo... não a deslizarem
não a percorrerem o espaço da veloz insónia
as mãos redescobriram o silêncio inesgotável da escrita
praticam esse ofício muito antigo
de na imobilidade da fala tudo desejarem


Al Berto
Vigílias
selecção e prólogo de
José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim



ÚLTIMA CARTA DE VAN GOGH A THÉO


nunca me preocupei em reproduzir exactamentea
quilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilando sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar
o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arde continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe contra mim mesmo
théocortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada
por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol


Al Berto
O Medo
Assírio & Alvim



2


maravilhar-te as insónias
com o paciente crepúsculo da idade
acordar fora do corpo esquecer o olhar
sobre o pêlo ruivo dos animais beber
o fulgor das estrelas no esplendor da alba
nomear-te
para recomeçarmos juntos a vida toda

ensinar-te o segredo dos alquímicos minerais
acender-te um pouco de culpa
na imatura paisagem do coração

eis a travessia que te proponho
amanhecer sem querermos possuir o mundo
e no orvalho da noite saciar o desejo adiado
respirar a música inaudível das galáxias
sentir o tremeluzir da água no medo da boca

o amor
deve ser esta perseguição de sombras
esta cabeça de mármore decepada
ou este deserto
onde o receio de te perder permanece oculto
na sujidade antiga dos dias


Al Berto
O Medo
Assírio & Alvim



dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice
conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo
dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos


Al Berto
Vigílias
selecção e prólogo de
José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim
2004

1 comentário:

Frisco disse...

Al Berto (1948-1997)
Sines foi um dos lares de Al Berto, um dos autores mais influentes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

"O Anjo do CrepĂşsculo"
por JoĂŁo Maria do Ă“ Pacheco

"A noite está próxima. O que vejo já não se pode cantar/ caminho com os braços levantados, e com a ponta dos dedos acendendo o firmamento da alma./ espero que o vento passe... escuro, lento. Então, entrarei nele, cintilante, leve... e desapareço."
(Morte de Rimbaud – Al Berto – Coliseu de Lisboa 1996)

"A MEMĂ“RIA Ă© hoje uma ferida", que Ă© a agressĂŁo dos acossados, como disse Al Berto no "Mar-de-Leva", nos sete textos dedicados Ă  vila de Sines.

A vila de Sines viria a ser o seu lar e o seu grande desencanto na sua volta a casa de Bruxelas.

Alberto Raposo Pidwell Tavares nasce em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948. No ano seguinte já está em Sines, onde passa parte da infância e adolescência.

Poucos conhecem o seu lado escultórico, mas os amigos de infância ainda recordam os "bonecos" em argila que esculpia em casa, muito antes da António Arroio.

Teve sempre um ar extremamente irreverente para o seu tempo. Filho de família da alta burguesia de origem britânica extraordinariamente conservadora, na sua adolescência, traja de modo displicente de calças de ganga e ténis rotos, para escândalo geral. Terá sido a primeira afirmação da sua diferença intelectual.

Devido ao seu extraordinário dom natural para a pintura, a família decide enviá-lo para a Escola António Arroio, em Lisboa.

Frequenta o Curso de Formação Artística do SNBA.

A 14 de Abril de 1967 sai de Portugal para residir em Bruxelas, onde entra para a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre) / Peinture Monumentale.

Em 1969, com alguns amigos artistas plásticos, fotógrafos e escritores funda a associação internacional Monfaucon Research Center.

Foi a partir desta viragem da sua vida que Al Berto decidiu abandonar a pintura e assumir-se definitivamente como "autor de textos literários". No entanto, durante os anos do Montfaucon Research Center as suas produções literárias aparecem-nos pejadas de ilustrações quase simbióticas do texto, emergindo e abandonando-o de uma forma peculiar.

A exposição de pintura de final de curso em La Cambre fala-se que terá sido um escândalo. A sala foi forrada a papel de prata na sua totalidade e as únicas representações foram uma série de fotos em polaroid que não eram do todo susceptíveis de serem observadas por espíritos moralistas.

No entanto os quadros mais característicos de Al Berto eram enormes telas que podiam ocupar toda uma parede com representações tipo Andy Wharol em cores berrantes, tipo banda desenhada, com técnicas tão diversificadas como a pintura sobre jornal ou transparências inusitadas.

Em 1970, expõe na Galeria Fitzroy, em Bruxelas e começa a primeira redacção de "Kalou on Ice". Publica um livro de desenhos "Project 69", Archives nº 2, ligado às produções do Montfaucon. Elabora também cartazes contra a expulsão de estudantes e trabalhadores estrangeiros e cartazes para a Feira do Livro de Frankfurt.

Em 1971, em Barcelona, apĂłs ter perdido o manuscrito de "Kalou on Ice" decide abandonar definitivamente a pintura e escreve "Noctiluque".

Como disse Inês Pedrosa, "nos romances ainda se pode mentir e sair ileso. Faz-se de conta. Mas a poesia contém a essência do soro da verdade. (...) É de todas as formas de cultura a única que olimpicamente dispensa a cultura.(...) Os poemas são casos de pele. Quando são bons sentem-se logo. Quando são muito bons, sentem-se sempre. (...) Nenhum verdadeiro poeta escreve para se compreender (...) os verdadeiros poetas escrevem só para que as lágrimas não se gastem. Para que o amor, a solidão e a saudade nunca se resolvam. (...) foi contra estes espartilhos que nasceu a poesia, terrorismo supremo e subtil."

Alguns críticos pretendem que a escrita faça justiça à realidade, que reflicta fielmente a vida, que seja natural, real ou intensamente viva. Outros querem limpá-la de impurezas, de elementos não artísticos, da proximidade demasiada do humano. Assim, por um lado pede-se vivacidade dramática, convicção, sinceridade, fidelidade, um ar de realidade, realização completa do tema, intensidade de ilusão. Por outro lado, pretende-se ausência de paixão, impessoalidade, pureza poética, pura forma. De um lado diz-se "a realidade tem que ser experimentada", do outro quer-se "forma que seja complementada"

A nada disto Al Berto correspondeu na sua escrita.

A existência de uma ordem implícita era, de certo modo, desculpável na antiga forma de escrita; escrita num mundo ordenado em que nem o autor nem leitor estão em perigo. Pelo contrário... Al Berto põe tudo em perigo! O fenómeno onde não há nada a temer e que o acontecimento faz parte do passado, catalogado e entendido, ou seja, a ordem, constituiu-se como o pecado do orgulho e, desse modo, deveria ser abatido.

Em 1972, estagia como Animador Socio-Cultural no Centre Culturel de Hainaut e dirige a Secção de Artes Plásticas em Vaux, perto de Tournai.

Parte depois para Málaga, onde iniciará "Pages de l’astronaute halluciné" e "L’engoulevent".

Quando volta a Bruxelas destrói "L’engoulevent" e escreve "Esquisse pour un portrait d’Alain Petit-Pieds et Henriette Rock".

Em 1974 redige "Epopeia antes da queda", que também destrói.

Regressa a Portugal a 17 de Novembro e cria uma comunidade na antiga mansão senhorial da família que mais tarde será chamada de "Palácio".

Destrói a segunda versão de "Kalou on Ice" e escreve o seu primeiro livro inteiramente escrito em português, "À procura do vento num jardim d’agosto".

A construção do Complexo Industrial de Sines está no seu auge. Abre as portas da mansão, muda a Comunidade para o último piso, o quarto das criadas, e oferece a título gratuito todo o primeiro andar como dormitório aos trabalhadores colocados nas obras do complexo.

Constitui-se como editor e publica obras de alguns de seus amigos: "Demasiadamente Belos Para Quem Só Não Queria Estar Só", de Sérgio da Costa e Silva, na Colecção Os Olhos da Cidade, e "Esboços da Morte (cartas de amor) E Cartas de Longe", de António Madeira, na Colecção Subúrbios. Em colaboração com Luíza Neto Jorge (tradutora), publica, de Tony Duvert, "Retrato de Homem Faca" na Colecção Nas Margens do Corpo. Adquire os direitos de tradução de "L’Abbé C." de Georges Bataille, com tradução de Luíza Neto Jorge, que acabará por ser publicado pela Contexto, Editora.

Em 1976 abre uma livraria/editora em Sines, o que se tornará numa catástrofe económica devido à selecção dos livros para venda demasiado criteriosa que ninguém conhece e ninguém compra. A maioria dos livros são oferecidos a amigos.

Em 1977 fecha a livraria e regressa a Lisboa. Publica "À Procura do Vento num Jardim d’Agosto", Collecção Subúrbios nº 2, A. Pidwell, Editor, Lisboa e "Salive, Hôtel de la Gare / Le Plus Grand Calligraphe", in Luna-Park nº 3, Novembro em Bruxelles.

Em 1979, DoDo, um dos componentes do curso de pintura de La Cambre e parceiro do Montfaucon Research Center expõe na Galeria Opinião em Lisboa "Lápis de Amor e Outros" e Al Berto cria a folha volante / exposição "Outros Corpos (quando o DoDo desenha)". Em 1980 cria também a folha volante para "Mitos", de DoDo, "O Mito da Sereia Em Plástico Português", Galeria Opinião em Lisboa. DoDo viria a suicidar-se logo após a exposição na Sociedade de Belas Artes de Lisboa após a exposição "O Corpo, O Lixo e A Obra", em Arronches.

Ainda em 1979, Al Berto publica "Portrait d’un Corps au Matin" (texto + fotografia), exposição colectiva em Bordéus com o texto "Le Regard de la Main".

Em Outubro publica "Le Navigateur du Soleilincandescent", in Luna-Park nÂş 5, Bruxelas e em Dezembro publica em Lisboa "Doze Moradas do SilĂŞncio", in Sema (poemas incluĂ­dos no livro "Salsugem".

Em Fevereiro de 1980, publica como editor próprio "Meu Fruto de Morder Todas as Horas". Em Julho, com realização de Ricardo Pais e a Sociedade Nacional de Belas Artes insere em "In-Acção – Cómico’s Concerto" excertos dos livros "À Procura do Vento Num Jardim d’Agosto" e "Meu Fruto de Morder Todas as Horas".

Em Dezembro do mesmo ano publica "Mar-de-Leva / Sete Textos Dedicados à Vila de Sines", também em edição de autor, em que analisa penosamente a diferença entre a terra da sua juventude e a alteração feita pelas obras do complexo industrial, que vieram alterar abruptamente o tecido social de Sines.

Em 1981, ainda pelo Montfaucon Research Center publica "Dix Adresses Avant de Disparaitre", Montréal.

Entra para a Câmara Municipal de Sines como animador cultural.

No Inverno de 1982, publica na Sema NÂş 4, Lisboa, "Cinco Fotografias para Alexandre da MacedĂłnia". E em Fevereiro na "Fenda" nÂş 3-4, "4 AusĂŞncias" (Coimbra).

Na Primavera de 1982, em edição de autor ainda, publica "Trabalhos do Olhar" que virá em Novembro a ser editada pela Contexto, Editora, Lisboa.

Em 1983, tem duas colaborações, uma na exposição de Carlos Nogueira, SNBA, Lisboa, "Paisagen(s) de (Man)dar", com o poema "Persiana de �gua" e uma edição privada com Paulo Nozolino e Paulo da Costa Domingos, na Frenesi, Lisboa, sob o título "O Último Habitante".

No inverno de 1984, in "Correspondência Literária" da Contexto Editora, publica "Rumor dos Fogos". In "Palavras" das Edições Mirto do Porto publica "Impressão Digital".

É incluído na Antologia "Poetas Alentejanos do Século XX", num trabalho de pesquisa de Francisco Dias da Costa, com os poemas "O Silêncio Tem a Espessura das Papoulas", "Ofício da Fala", "Ofício de Amar" e "Ofício de Ladrão", do livro "Trabalhos do Olhar".

A 4 de Abril, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Ricardo Pais e o Ballet Gulbenkian apresentam "Só Longe Daqui", espectáculo sobre excertos do livro "Três Cartas da Memória das Índias".

No mesmo mês publica "Salsugem", na Contexto Editora, e logo a seguir, em Agosto, "A Seguir o Deserto" em colaboração com Paulo Nozolino e Paulo da Costa Domingos, na Frenesi.

Na Revista de Livros do Diário de Notícias (13 de Janeiro de 1985), com coordenação de Helder Moura Pereira, escreve "Cinco Cartas Inúteis Para Lowry".

Em Fevereiro, nas Comemorações do 60º Aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores, Colecção Teatro/Repertório nº 32, publica "Apresentação da Noite", montagem de textos feita a partir de excertos gravados entre 81 e 83 dos livros "À Procura do Vento Num Jardim d’Agosto", "Meu Fruto de Morder Todas as Horas", "Trabalhos do Olhar" e alguns textos inéditos àquela data. Os trabalhos saem profundamente alterados após sucessivas gravações.

Em Abril é traduzido em Itália por Carlo Vittorio Cattaneo, "Lavori dello Sguardo", Edizioni Florida, Roma.

Em Espanha é traduzido por Angel Campos Pámpano poemas incluídos "Rumor dos Fogos" do livro "Salsugem" sob o título "Los Nombres del Mar/Poesia Portuguesa 1974-1984".

No mesmo ano, com desenhos de Luis Silva, edita "Três Cartas da Memória das Índias", escrito propositadamente para um espectáculo de Ricardo Pais, que nunca se chegará a realizar por desacordo sobre a interpretação do texto entre o autor e o encenador.

Do grupo de poemas "Sete Poemas de Regresso de Lázaro" publica na "Logos" nº 4, "Lázaro" e "Encomenda Postal" e na Gota de �gua editora do Porto, na colecção Pedra de Canto/4, "Uma Existência de Papel".

Em Maio de 1986 na "Colóquio/Letras" nº 91, Fundação Calouste Gulbenkian, edita "Três Pinturas a Óleo Sobre Tela".

"Miracle de la Rose", in "O Bosque Sagrado/O Cinema na Poesia", com realização de Jorge de Sousa Braga, António Ferreira, �lvaro Magalhães, na Gota de �gua do Porto. E a 17 de Abril no Diário de Lisboa "Jean, o Pescador de Suquet".

De 1 a 4 de Agosto do mesmo ano participa nas III Jornadas Poéticas de Cuenca, em Espanha.

Em Novembro demite-se do cargo de Animador Cultural da Câmara Municipal de Sines e regressa a Lisboa.

Traduz La Fontaine, "Fábulas" (livros I a VI) e a série de poemas de Tahar Ben Jelloun, "Arzila: Estação de Espuma".

Em Março de 1987, na Frenesi, edita com co-organização de Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, "Sião". Em Julho colabora na exposição bibliográfica "Alguma Poesia dos Anos Oitenta" organizado pelo Centro Cultural Emmerico Nunes, em Sines.

Pela Contexto editora em 1988 publica "Lunário".

Pela Frenesi publica em 1989 "O Livro dos Regressos". Na Contexto em 1991 "O Canto do Amigo Morto".

O Círculo dos Leitores e a Editora Contexto publica em 1991 a colectânea poética "O Medo" em que colige as suas obras poéticas entre 1974-1990. A primeira edição de "O Medo" em 1987 valeu-lhe o prémio Pen-Clube de Poesia.

Em 1993, 1995 e 1997 pela AssĂ­rio e Alvin, publica pela mesma ordem "O Anjo Mudo", "Luminoso Afogado" e "Horto de IncĂŞncio".

"A eternidade é uma permanência da força que está dentro de nós"

"Todos os meus livros tiveram um carácter de urgência", disse Al Berto ao jornal "Expresso" um mês antes de falecer. "Aterrador foi ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório (Horto de Incêndio). A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque. A eternidade é uma permanência da força que está dentro de nós."

"Sinto-me como se tivesse cegado por excesso de olhar o mundo", "O Medo", pag. 261.

A escrita de Al Berto primava pelo excesso e por si mesmo pela necessidade de se sentir única. Como diria Wayne Booth, "as lágrimas e o riso são fraudes estéticas". A ficção não é simplesmente artificial e retórica, é corrupta. O que para uns é pureza, para outros é corrupção. Se para Ortega a verdadeira arte tem que excluir não só a retórica como também a realidade, na medida em que a realidade se compõe de conteúdo humano. Edward Bullough formulou o problema a que chamou "distanciamento psíquico" como o de garantir que a obra não é "hiperdistanciada" nem "hipodistanciada". Se for distanciada demais, disse ele, a obra parece improvável, artificial, vazia ou absurda e não lhe responderemos. Mas, se for "hipodistanciada", a obra torna-se demasiado pessoal e não pode ser apreciada como arte.

Transversal à distinção entre observadores e agentes narradores de todos os tipos é a distinção entre narradores conscientes de si próprios, conscientes de si próprios como escritores, e narradores ou observadores que raras vezes, se é que alguma vez, discutem as suas tarefas de escrita, ou parecem não estar conscientes de que estão a escrever, falar, pensar ou reflectir....

Nesta perspectiva, aonde incluirĂ­amos a obra de Al Berto?

Se a arte existisse "a bem da arte", no sentido restrito de existir apenas para dar prazer através de formas e padrões abstractos, seria de esperar que todas as buscas da verdade fossem igualmente boas e que o modo em que forma essa busca constituísse a única distinção importante entre o bom e mau.

Como disse Henry James em "The Awkward Age", "Uma obra de arte que tem que ser explicada falha, no que toca, suponho Ă  sua missĂŁo".

Talvez Al Berto gostasse que a leitura da sua obra tivesse uma das citações maiores da sua amiga pessoal, Sophie Podolsky: "os cabelos do sol também são as minhas mãos"... Talvez tivesse sido isso aquilo que Al Berto construiu na sua vida. Como disse Eduardo Lourenço "Al Berto pertenceu a este mundo e esta linguagem de poetas de um crepúsculo tão dourado por formas tão difíceis de habitar por dentro".

Al Berto morre de linfoma em Lisboa a 13 de Junho de 1997.
(site da C.M.Sines)
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Vejamos o caso da escrita homossexual masculina e nesta vertente escolhemos a escrita paradigmática do poeta Al berto.

Ao contrário da escrita lésbica, a escrita gay é uma escrita que se apresenta sem branqueamentos e com sinais evidenciadores de uma orientação sexual que não se pretende esconder. A literatura do século XX encontra sobretudo no universo da poesia um vasto manancial de referências a esse mundo indizível e ainda escondido.

Em Al berto trilham-se os caminhos de uma homossexualidade referenciada, sem problemas de uma visibilidade acusadora. Veja-se o exemplo:

“Tangerina apalpa o corpo suado do adolescente, navegam sexos em minhas mãos, têm o aroma enjoativo das tâmaras, eis de novo o deserto onde esperaremos novos crepúsculos, a androginia, novas chuvas de luz e de treva” ( O Medo, p. 25).

O mundo da sexualidade abre-se em todo o seu esplendor, sem pruridos , nem medos de referenciação. É um universo aberto, quase espasmódico, e que se fixa em sinais identificadores da vertente gay: os corpos adolescentes, o vigor físico, a beleza, “ invento-te no desassossego da viagem/ se preciso for dormirei mesmo durante o dia/ nos braços dum pastor adolescente que me ensinará/ a rápida vertigem da noite... a sodomia terna das cabras/ o remoto hábito de fazer promessas à beira dos corpos/ cometas-a-rodopiar”(p. 265, O Medo).

Esplendor e caos eis o que caracteriza este universo de Al berto, face à contenção extrema e ao etéreo de Isabel de Sá. Poderemos partir da premissa de um mundo eufórico para um mundo disfórico, de uma relação com a vida mais carnal e terrena para um sonho mais endógeno e claustrofóbico? Só estamos a partir das obras de Al berto e Isabel de Sá, não tendo em conta outras obras desse universo algo imperceptível que é a escrita de orientação sexual.
(CecĂ­lia Barreira)