domingo, dezembro 10, 2006
Dorothy Parker
EU HEI-DE VOLTAR
(I shall come back)
Não é fanfarronice eu voltar cá um dia
da paz do cemitério e do vento ululando:
trémula, a deslizar da Eternidade fria,
humilde sombrazinha atónita, passando.
Não pela meia-noite em sepulcral passeio;
hei-de vir suavemente aonde mais queria,
dum poente de Abril, na surda melodia;
e, dos dois, serei eu quem há-de ter receio.
Como é estranho deixar os sonhos bons da morte
para buscar quem me tratou tão duramente!
Não sentirás a minha mão na tua fronte,
que eu serei um fantasma novo e inexperiente.
Talvez nem dês por mim: mas terás, a teu lado,
um ténue coração de espectro, esfacelado.
DOROTHY PARKER
1893-1967
Oiro de Vário Tempo e Lugar
Versões de
A. HERCULANO DE CARVALHO
Edições ASA
UMA ROSA PERFEITA
( A perfect rose)
Só me deu uma flor desde que me encontrou.
assim pura e tão fiel, orvalhada e cheirosa,
que mensageira terna e feliz ele achou:
uma perfeita rosa.
Da linguagem da flor descobri o segredo:
"trago o seu coração na corola mimosa"!
De há muito o amor tomou para seu amuleto
uma perfeita rosa.
Nunca ainda ninguém pensou em me oferecer
um perfeito automóvel... pois, teimosa,
foi sempre sina minha apenas receber
uma perfeita rosa.
DOROTHY PARKER
1893-1967
Oiro de Vário Tempo e Lugar
Versões de
A. HERCULANO DE CARVALHO
Edições ASA
(I shall come back)
Não é fanfarronice eu voltar cá um dia
da paz do cemitério e do vento ululando:
trémula, a deslizar da Eternidade fria,
humilde sombrazinha atónita, passando.
Não pela meia-noite em sepulcral passeio;
hei-de vir suavemente aonde mais queria,
dum poente de Abril, na surda melodia;
e, dos dois, serei eu quem há-de ter receio.
Como é estranho deixar os sonhos bons da morte
para buscar quem me tratou tão duramente!
Não sentirás a minha mão na tua fronte,
que eu serei um fantasma novo e inexperiente.
Talvez nem dês por mim: mas terás, a teu lado,
um ténue coração de espectro, esfacelado.
DOROTHY PARKER
1893-1967
Oiro de Vário Tempo e Lugar
Versões de
A. HERCULANO DE CARVALHO
Edições ASA
UMA ROSA PERFEITA
( A perfect rose)
Só me deu uma flor desde que me encontrou.
assim pura e tão fiel, orvalhada e cheirosa,
que mensageira terna e feliz ele achou:
uma perfeita rosa.
Da linguagem da flor descobri o segredo:
"trago o seu coração na corola mimosa"!
De há muito o amor tomou para seu amuleto
uma perfeita rosa.
Nunca ainda ninguém pensou em me oferecer
um perfeito automóvel... pois, teimosa,
foi sempre sina minha apenas receber
uma perfeita rosa.
DOROTHY PARKER
1893-1967
Oiro de Vário Tempo e Lugar
Versões de
A. HERCULANO DE CARVALHO
Edições ASA
sábado, dezembro 09, 2006
Letra B - Bruno Wheinhals
ALGUÉM CORRE. UMA PESSOA QUALQUER
corre, foge, tropeça cai
fica no chão. Lábios e língua
movem a última imagem,
alguém, o seu próprio nome.
(Na nuca a mão na mão um revólver na cabeça uma bala.)
Que dia era aquele?
Cheiro a pó?
Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva
UM NOME PARA TI
um som que te faz ser quando precisares de ti
Para ti uma grafia uma sílaba mais forte
como rosto cabelo andar as pequenas manias
Com o teu nome existes Foste já
inventado para o macio aconchego
da pele ainda não presente
Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva
UMA VOZ COMEÇA E EXPANDE-SE
pelas tuas páginas A sombra que ignoras
vai avançando lenta O que refresca a pele
gostaria também de as folhear (pões a mão no livro)
A sombra alcança-te agora Não te incomoda
Mesmo sem solo teu sabor agrada Ă s palavras
bela e fresca e tão curiosa
Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva
TALVEZ SEM MEDO
estás deitada de costas com as mãos para trás
rendida ao poder do sono
É o teu sonho mas como
tantas coisas ele une entre si
o que também não conheces
nem tu nem as coisas
Uma sombra que só eu vejo
atravessa a janela tomba
e continua a voar
Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva
PAÍS DO MEIO-DIA
Atravessado pelo zumbido de um único ruído de carros
e pela música infinda de uma estação de rádio
o vazio do meio-dia
A cidade uma configuração constituída
por rede de aço e estruturas de betão
Atrás das gruas brilha
a água da bacia portuária
indolente em todas as cores de óleo usado
As ruas varridas
pelo sol recozidas
O apressado asfalto da cidade
um caminho de fuga
para a paisagem pedregosa
Uma língua quente rasga o corpo em suor
As cores são pó
não pó
são pedras
Bruno Wheinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
e outros poemas
Tradução colectiva
DÁDIVA MATINAL
Um beijo
e estas palavras
ao teu ouvido
na tua boca
possa este peso imposto
ser-te leve
Bruno Wheinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
e outros poemas
Tradução colectiva
corre, foge, tropeça cai
fica no chão. Lábios e língua
movem a última imagem,
alguém, o seu próprio nome.
(Na nuca a mão na mão um revólver na cabeça uma bala.)
Que dia era aquele?
Cheiro a pó?
Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva
UM NOME PARA TI
um som que te faz ser quando precisares de ti
Para ti uma grafia uma sílaba mais forte
como rosto cabelo andar as pequenas manias
Com o teu nome existes Foste já
inventado para o macio aconchego
da pele ainda não presente
Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva
UMA VOZ COMEÇA E EXPANDE-SE
pelas tuas páginas A sombra que ignoras
vai avançando lenta O que refresca a pele
gostaria também de as folhear (pões a mão no livro)
A sombra alcança-te agora Não te incomoda
Mesmo sem solo teu sabor agrada Ă s palavras
bela e fresca e tão curiosa
Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva
TALVEZ SEM MEDO
estás deitada de costas com as mãos para trás
rendida ao poder do sono
É o teu sonho mas como
tantas coisas ele une entre si
o que também não conheces
nem tu nem as coisas
Uma sombra que só eu vejo
atravessa a janela tomba
e continua a voar
Bruno Weinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
tradução colectiva
PAÍS DO MEIO-DIA
Atravessado pelo zumbido de um único ruído de carros
e pela música infinda de uma estação de rádio
o vazio do meio-dia
A cidade uma configuração constituída
por rede de aço e estruturas de betão
Atrás das gruas brilha
a água da bacia portuária
indolente em todas as cores de óleo usado
As ruas varridas
pelo sol recozidas
O apressado asfalto da cidade
um caminho de fuga
para a paisagem pedregosa
Uma língua quente rasga o corpo em suor
As cores são pó
não pó
são pedras
Bruno Wheinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
e outros poemas
Tradução colectiva
DÁDIVA MATINAL
Um beijo
e estas palavras
ao teu ouvido
na tua boca
possa este peso imposto
ser-te leve
Bruno Wheinhals
Uma Conversa Passa Pelo Papel
e outros poemas
Tradução colectiva
Guilhem de Peitieu

Fiz um poema sobre nada:
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.
Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.
Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.
Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.
Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.
Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.
Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.
Guilhem de Peitieu
Canção, séc. XII
sexta-feira, dezembro 08, 2006
João Miguel Fernandes Jorge
SOBRE A PEDRA DOS DIAS
As formigas não saíram
das suas ruas subterrâneas. Um setembro
muito longe do fulgor do outono. Eu
despovoei-me dos sonhos: as mãos apertavam-
-se ao redor de nenhuma esperança. Traziam
o peso de outras mãos, repetidas, de um passado
tão longínquo.
Um tempo de demasiado torpor,
sem regresso. Havia uma voz branca sobre a
terra sêca, os olhos fatigados suspendiam o
desenho dos objectos o peso sobre as coisas.
“Não o conheço.”
“Aqui é tudo tão triste.”
“Dá-me um cigarro?”
A planície guardava a secreta memĂłria do verde,
dos campos verdes. Agora
os vários caminhos abriam para o iluminado
amarelo.
Os ombros cruzavam-se sob a remota
distância do ar quente, do verão sem fim. Os
corpos quase se tocavam, como todas as coisas sobre a
terra, sobre os campos da terra a arder.
“Lembro-me de ti.”
“Desculpe, mas nunca o conheci.”
“Eu trago ainda o teu retrato no bolso sobre
o meu coração. É uma velha fotografia.
Guardei-a desde esse ano, como quem suspende
entre duas folhas de caderno
ervas e flores.”
“Não me lembro.”
“É natural. Morreste há tantos anos.”
Repete-se o calor sobre as paredes.
O eco de uma casa desabitada: os
cães estão longe, o seu latir rompe o ar quieto.
Estava naquela aldeia de mar. Nos muros
que levam à rua principal. O largo tem uma
igreja, uma praga de orações.
Os passos os ombros os olhos que movem à
minha frente eu hei-de vê-los. As portas batem
sob o vento quente. Ninguém vive na terra
nesta casa que se prende e desprende daqueles que
vivem.
Escureceu. Clareou. “Boa-noite.”
“Bom-dia.” Escureceu de novo. “Bom-dia.” As
mãos vinham repletas de ruídos, silêncio, vozes
perto de ti.
Os passos juntaram-se aos que estavam à
espera. Eram passos presos a outros passos e
cravavam um sulco na terra negra do chão. Canto
entoado, baixo, muito baixinho
leva à viagem que retém o outro corpo. Caíam as
as horas do muito calor; a luz desaparecia pelo
amanhecer, ardia através da noite e dos campos.
Pareciam estar muito longe
os passos.
E faz com que desperte o prometido sonho; a
porta entre-aberta “faz o que quiseres”
ouvi, ouviu.
A esmaecida luz desaparecia nas paredes da casa
entre as sombras do corpo da casa. A terra é
uma vereda de fogo. Os ramos amanhecem sem
o brilho da voz da manhã.
Está sentado numa velha cadeira sob
a lassidão de setembro. Mexe os lábios,
incoerentes palavras.
Seguia pelo mais estreito corredor da vida.
Sombrio. Húmido. De novo sombrio na imensidade
da casa. Seguiu à baleia de deus, triste
quatro ou cinco moedas no bolso.
João Miguel Fernandes Jorge
o barco vazio
colecção forma
Editorial Presença
1ª edição
1994
As formigas não saíram
das suas ruas subterrâneas. Um setembro
muito longe do fulgor do outono. Eu
despovoei-me dos sonhos: as mãos apertavam-
-se ao redor de nenhuma esperança. Traziam
o peso de outras mãos, repetidas, de um passado
tão longínquo.
Um tempo de demasiado torpor,
sem regresso. Havia uma voz branca sobre a
terra sêca, os olhos fatigados suspendiam o
desenho dos objectos o peso sobre as coisas.
“Não o conheço.”
“Aqui é tudo tão triste.”
“Dá-me um cigarro?”
A planície guardava a secreta memĂłria do verde,
dos campos verdes. Agora
os vários caminhos abriam para o iluminado
amarelo.
Os ombros cruzavam-se sob a remota
distância do ar quente, do verão sem fim. Os
corpos quase se tocavam, como todas as coisas sobre a
terra, sobre os campos da terra a arder.
“Lembro-me de ti.”
“Desculpe, mas nunca o conheci.”
“Eu trago ainda o teu retrato no bolso sobre
o meu coração. É uma velha fotografia.
Guardei-a desde esse ano, como quem suspende
entre duas folhas de caderno
ervas e flores.”
“Não me lembro.”
“É natural. Morreste há tantos anos.”
Repete-se o calor sobre as paredes.
O eco de uma casa desabitada: os
cães estão longe, o seu latir rompe o ar quieto.
Estava naquela aldeia de mar. Nos muros
que levam à rua principal. O largo tem uma
igreja, uma praga de orações.
Os passos os ombros os olhos que movem à
minha frente eu hei-de vê-los. As portas batem
sob o vento quente. Ninguém vive na terra
nesta casa que se prende e desprende daqueles que
vivem.
Escureceu. Clareou. “Boa-noite.”
“Bom-dia.” Escureceu de novo. “Bom-dia.” As
mãos vinham repletas de ruídos, silêncio, vozes
perto de ti.
Os passos juntaram-se aos que estavam à
espera. Eram passos presos a outros passos e
cravavam um sulco na terra negra do chão. Canto
entoado, baixo, muito baixinho
leva à viagem que retém o outro corpo. Caíam as
as horas do muito calor; a luz desaparecia pelo
amanhecer, ardia através da noite e dos campos.
Pareciam estar muito longe
os passos.
E faz com que desperte o prometido sonho; a
porta entre-aberta “faz o que quiseres”
ouvi, ouviu.
A esmaecida luz desaparecia nas paredes da casa
entre as sombras do corpo da casa. A terra é
uma vereda de fogo. Os ramos amanhecem sem
o brilho da voz da manhã.
Está sentado numa velha cadeira sob
a lassidão de setembro. Mexe os lábios,
incoerentes palavras.
Seguia pelo mais estreito corredor da vida.
Sombrio. Húmido. De novo sombrio na imensidade
da casa. Seguiu à baleia de deus, triste
quatro ou cinco moedas no bolso.
João Miguel Fernandes Jorge
o barco vazio
colecção forma
Editorial Presença
1ª edição
1994
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