quarta-feira, abril 11, 2007
terça-feira, abril 03, 2007
Inês Lourenço
ROTEIRO PARA UM PARAÍSO PRIVADO
Deitar-se algumas vezes nos sulcos
do sono da noite anterior,
reconhecendo como um felino doméstico
o cheiro das nossas mantas. Não
lavar os dentes e sobretudo esquecer
de baixar as persianas. Coleccionar
pontas sucessivas de cigarros, jornais
de muitos ontens e rimas
de livros lidos só três páginas. Não
endireitar a curva daquele candeeiro,
deixar as gavetas abertas
com colírios, comprimidos e roupas
à vista. Amontoar em cima da cómoda
brincos ímpares, perfumes sem tampa, pequenos espelhos
quebrados, alfnetes, cartas, rascunhos
e chávenas de chá servido há dias, deixar
calar-se o CD com os lieder de Schumann
afastando os sapatos de muitos caminhos
e a roupa de todas as horas.
(in OS SOLISTAS, Um Quarto com Cidades ao Fundo)
Inês Gonçalves
Os Outros
Antologia de Poesia Portuguesa
Anos 80 e depois
Coordenação, prefácio e notas de
Leopoldino Serrão
editora ausência
Deitar-se algumas vezes nos sulcos
do sono da noite anterior,
reconhecendo como um felino doméstico
o cheiro das nossas mantas. Não
lavar os dentes e sobretudo esquecer
de baixar as persianas. Coleccionar
pontas sucessivas de cigarros, jornais
de muitos ontens e rimas
de livros lidos só três páginas. Não
endireitar a curva daquele candeeiro,
deixar as gavetas abertas
com colírios, comprimidos e roupas
à vista. Amontoar em cima da cómoda
brincos ímpares, perfumes sem tampa, pequenos espelhos
quebrados, alfnetes, cartas, rascunhos
e chávenas de chá servido há dias, deixar
calar-se o CD com os lieder de Schumann
afastando os sapatos de muitos caminhos
e a roupa de todas as horas.
(in OS SOLISTAS, Um Quarto com Cidades ao Fundo)
Inês Gonçalves
Os Outros
Antologia de Poesia Portuguesa
Anos 80 e depois
Coordenação, prefácio e notas de
Leopoldino Serrão
editora ausência
segunda-feira, abril 02, 2007
Francis Ponge
O SOL COLOCADO EM ABISMO
O SOL ERGUENDO-SE SOBRE A LITERATURA
QUE O SOL NO HORIZONTE DO TEXTO SE MOSTRE ENFIM
COMO O VEMOS AQUI PELA PRIMEIRA VEZ EM LITERATURA SOB
AS ESPÉCIES DO SEU NOME INCORPORADO NA PRIMEIRA LINHA
DE MANEIRA QUE PARECE ELEVAR-SE POUCO A POUCO EMBORA
SEMPRE NO INTERIOR DA JUSTIFICAÇÃO PARA PARECER BRILHAR
EM BREVE AO ALTO E À ESQUERDA DA PÁGINA DE QUE ELE É O
OBJECTO, EIS O QUE É NORMAL DADO O MODO DE ESCRlTA ADOP-
TADO NAS NOSSAS REGIÕES COMO TAMBÉM DO PONTO DE VISTA
EM QUE UMA VEZ QUE ME ACREDITA SUBSTITUINDO-SE CON-
TINUAMENTE A MIM MESMO SE ACHA ACTUALMENTE O LEITOR.
Com efeito, quando começo a escrever, diante de uma
janela a olhar para o sul, é porque o sol, tendo transposto os
montes sinistros da noite e atravessado a camada informe dos
vapores oníricos que sobre eles pendem, se encontra já
suficientemente alto no céu para que a sua luz tenha adqui-
rido uma certa força.
Ele atinge então, como a um alvo, a minha têmpora
esquerda e comanda assim, uma vez que a estrutura do
homem é em hélice, as articulações da minha mão direita que
traça os presentes sinais negros que não são pois talvez - não
está bem assim? - senão a formulação mais ou menos precisa
da minha sombra intelectual em projecção. Que digo eu? só
a sombra - e não é melhor ainda? - do meu aparo ele pró-
prio.
Sim, é assim que Hórus se eleva no céu, como o gavião
logo vitorioso sobre todas as outras estrelas.
Entretanto a sua força em poucos instantes cresce mais, des-
lumbrando a minha razão, que desde então já só pode defini-
-lo como aquela fonte intensa de luzes e de ideias que funciona
de manhã no lóbulo anterior esquerdo da minha cabeça.
E agora, é o delírio, à volta do meio-dia.
Francis Ponge
O Sol Colocado Em Abismo
Alguns Poemas
Selecção, Introdução e Tradução de
Manuel Gusmão
Edição Bilingue
Cotovia
O FOGO
O fogo classifica: primeiro, todas as chamas se dirigem
num certo sentido.. .
(Não se pode comparar o andar do fogo senão ao dos ani-
mais: é preciso que ele deixe um lugar para vir a ocupar um
outro; anda ao mesmo tempo como uma amiba e como uma
girafa, sacode o pescoço, rasteja de pé)...
Depois, enquanto as massas metodicamente contami-
nadas desabam, os gases que se libertam vão sendo trans-
formados numa única rampa de borboletas.
Francis Ponge
O Partido Tomado Pelas Coisas
Alguns Poemas
Selecção, Introdução e Tradução de
Manuel Gusmão
Edição Bilingue
Cotovia
O SOL ERGUENDO-SE SOBRE A LITERATURA
QUE O SOL NO HORIZONTE DO TEXTO SE MOSTRE ENFIM
COMO O VEMOS AQUI PELA PRIMEIRA VEZ EM LITERATURA SOB
AS ESPÉCIES DO SEU NOME INCORPORADO NA PRIMEIRA LINHA
DE MANEIRA QUE PARECE ELEVAR-SE POUCO A POUCO EMBORA
SEMPRE NO INTERIOR DA JUSTIFICAÇÃO PARA PARECER BRILHAR
EM BREVE AO ALTO E À ESQUERDA DA PÁGINA DE QUE ELE É O
OBJECTO, EIS O QUE É NORMAL DADO O MODO DE ESCRlTA ADOP-
TADO NAS NOSSAS REGIÕES COMO TAMBÉM DO PONTO DE VISTA
EM QUE UMA VEZ QUE ME ACREDITA SUBSTITUINDO-SE CON-
TINUAMENTE A MIM MESMO SE ACHA ACTUALMENTE O LEITOR.
Com efeito, quando começo a escrever, diante de uma
janela a olhar para o sul, é porque o sol, tendo transposto os
montes sinistros da noite e atravessado a camada informe dos
vapores oníricos que sobre eles pendem, se encontra já
suficientemente alto no céu para que a sua luz tenha adqui-
rido uma certa força.
Ele atinge então, como a um alvo, a minha têmpora
esquerda e comanda assim, uma vez que a estrutura do
homem é em hélice, as articulações da minha mão direita que
traça os presentes sinais negros que não são pois talvez - não
está bem assim? - senão a formulação mais ou menos precisa
da minha sombra intelectual em projecção. Que digo eu? só
a sombra - e não é melhor ainda? - do meu aparo ele pró-
prio.
Sim, é assim que Hórus se eleva no céu, como o gavião
logo vitorioso sobre todas as outras estrelas.
Entretanto a sua força em poucos instantes cresce mais, des-
lumbrando a minha razão, que desde então já só pode defini-
-lo como aquela fonte intensa de luzes e de ideias que funciona
de manhã no lóbulo anterior esquerdo da minha cabeça.
E agora, é o delírio, à volta do meio-dia.
Francis Ponge
O Sol Colocado Em Abismo
Alguns Poemas
Selecção, Introdução e Tradução de
Manuel Gusmão
Edição Bilingue
Cotovia
O FOGO
O fogo classifica: primeiro, todas as chamas se dirigem
num certo sentido.. .
(Não se pode comparar o andar do fogo senão ao dos ani-
mais: é preciso que ele deixe um lugar para vir a ocupar um
outro; anda ao mesmo tempo como uma amiba e como uma
girafa, sacode o pescoço, rasteja de pé)...
Depois, enquanto as massas metodicamente contami-
nadas desabam, os gases que se libertam vão sendo trans-
formados numa única rampa de borboletas.
Francis Ponge
O Partido Tomado Pelas Coisas
Alguns Poemas
Selecção, Introdução e Tradução de
Manuel Gusmão
Edição Bilingue
Cotovia
Eugénio Montejo
Nenhum amor cabe num só corpo
Nenhum amor cabe num só corpo
ainda que as veias abarquem o tamanho do mundo;
sempre um desejo fica de fora,
outro soluça e contudo falta.
Sabe-o o mar no seu lamento solitário
e a terra que busca os restos da sua estátua;
não basta um só corpo para albergar as suas noites,
algumas estrelas ficam fora do sangue.
Nenhum amor cabe num só corpo,
ainda que a alma se aparte e ceda espaço
e o tempo nos entregue as horas que retém.
Duas mãos não nos bastam para alcançar a sombra,
dois olhos vêem apenas poucas nuvens
mas não sabem onde vão nem donde vêm,
que país musical as une e as dispersa.
Nenhum amor, nem o mais fugidio, o mais fugaz,
nasce num corpo que está só,
ninguém cabe no tamanho da sua morte.
Eugénio Montejo
Voz Consonante
Traduções de Poesia
António Ramos Rosa
Organização de Ana Paula Coutinho Mendes
quasi
Poeta exposto
Deixaram-me só junto à porta do mundo,
poeta exposto, cantando-me a mim mesmo,
num dia de outono há muito tempo já.
De um golpe seco arrancaram-me ao nada,
truncado de raiz,
com dois olhos abertos e um grito,
o fundo grito de quem sonhou ser pássaro
e não trouxe as asas para o voo.
Fui-me rodeando do mistério terrestre,
onde ainda não sei se vivo ou sonho,
e no fim a morte virá num torvelinho
que me arroje amanhã ante outra porta
Não adivinho a minha origem, o meu futuro,
ainda que pelo sangue seja fiel às palavras
e possa jurar que quanto escrevo
provém como eu próprio de algo muito longe...
Poeta exposto, errando na intempérie,
o meu único pai é o desejo
e a minha mãe a angústia de ser órfão na terra.
Eugénio Montejo
Voz Consonante
Traduções de Poesia
António Ramos Rosa
Organização de Ana Paula Coutinho Mendes
quasi
Nenhum amor cabe num só corpo
ainda que as veias abarquem o tamanho do mundo;
sempre um desejo fica de fora,
outro soluça e contudo falta.
Sabe-o o mar no seu lamento solitário
e a terra que busca os restos da sua estátua;
não basta um só corpo para albergar as suas noites,
algumas estrelas ficam fora do sangue.
Nenhum amor cabe num só corpo,
ainda que a alma se aparte e ceda espaço
e o tempo nos entregue as horas que retém.
Duas mãos não nos bastam para alcançar a sombra,
dois olhos vêem apenas poucas nuvens
mas não sabem onde vão nem donde vêm,
que país musical as une e as dispersa.
Nenhum amor, nem o mais fugidio, o mais fugaz,
nasce num corpo que está só,
ninguém cabe no tamanho da sua morte.
Eugénio Montejo
Voz Consonante
Traduções de Poesia
António Ramos Rosa
Organização de Ana Paula Coutinho Mendes
quasi
Poeta exposto
Deixaram-me só junto à porta do mundo,
poeta exposto, cantando-me a mim mesmo,
num dia de outono há muito tempo já.
De um golpe seco arrancaram-me ao nada,
truncado de raiz,
com dois olhos abertos e um grito,
o fundo grito de quem sonhou ser pássaro
e não trouxe as asas para o voo.
Fui-me rodeando do mistério terrestre,
onde ainda não sei se vivo ou sonho,
e no fim a morte virá num torvelinho
que me arroje amanhã ante outra porta
Não adivinho a minha origem, o meu futuro,
ainda que pelo sangue seja fiel às palavras
e possa jurar que quanto escrevo
provém como eu próprio de algo muito longe...
Poeta exposto, errando na intempérie,
o meu único pai é o desejo
e a minha mãe a angústia de ser órfão na terra.
Eugénio Montejo
Voz Consonante
Traduções de Poesia
António Ramos Rosa
Organização de Ana Paula Coutinho Mendes
quasi
domingo, abril 01, 2007
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