Naqueles dias
Lembras-te?
A camisa velha, a sua cor incendiada, os pés
enfiados nas sandálias cambadas,
o cabelo palhoso e áspero
do sabão azul e branco;
assim eras,
a cavalo do sol,
o coração aos gritos.
Quem sabia de ti?
Que angústia ou riso surpreendia a pedra
dessas águas, que deserto?
Estavas preso à imagem, o rio grande
da luz.
Às colunas desses dias
claros, aos seus enlevos,
folhas secas do mundo.
O gesto, brando, expectante;
num momento podias levantar voo
da alegria ou do canto
dum pássaro.
As tuas mãos murmuravam como o orvalho,
acariciavam as ervas no branco
do júbilo;
deslumbrado escutavas a chuva,
as bananeiras molhadas.
Nesse tempo de glória e ranho,
não conhecias ainda o peso do silêncio
ardendo em palavras feridas,
os olhos gastos pela luz
da ausência.
EDUARDO BETTENCOURT PINTO
A deusa da chuva
segunda-feira, abril 05, 2010
Alexandre O'Neill
Há Palavras Que Nos Beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes.
Alexandre O'Neill
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes.
Alexandre O'Neill
sábado, fevereiro 14, 2009
Adolfo Casais Monteiro
Debruço-me e escuto...
Tanto ouço que me estoiram os ouvidos...
Mar tão alto
como geme chora ri
e canta!
Vida!
Nesta desordem de andar
que ir e vir que inquieta!
caminhos sempre cortados
marés vivas marés baixas
elipses...
Adolfo Casais Monteiro
VERSOS
INQUÉRITO
1944
Tanto ouço que me estoiram os ouvidos...
Mar tão alto
como geme chora ri
e canta!
Vida!
Nesta desordem de andar
que ir e vir que inquieta!
caminhos sempre cortados
marés vivas marés baixas
elipses...
Adolfo Casais Monteiro
VERSOS
INQUÉRITO
1944
sexta-feira, novembro 28, 2008
Jacques Prévert
Premier jour
Des draps blancs dans une armoire
Des draps rouges dans un lit
Un enfant dans sa mère
Sa mère dans les douleurs
Le père dans le couloir
Le couloir dans la maison
La maison dans la ville
La ville dans la nuit
La mort dans un cri
Et l'enfant dans la vie.
Jacques Prévert
Des draps blancs dans une armoire
Des draps rouges dans un lit
Un enfant dans sa mère
Sa mère dans les douleurs
Le père dans le couloir
Le couloir dans la maison
La maison dans la ville
La ville dans la nuit
La mort dans un cri
Et l'enfant dans la vie.
Jacques Prévert
sábado, outubro 11, 2008
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