sexta-feira, dezembro 08, 2006

João Camilo

O MENSAGEIRO DO AMOR

No andar de cima, do outro lado das escadas,
havia uma festa. Eu ouvia a música e os risos,
as vozes que se excitavam e enchiam o silêncio da noite
de desejos, de paixões. Depois a porta bateu, passos
nas escadas. Uma rapariga desceu, as palavras
saíam-lhe da boca com uma facilidade
tão cheia do amor da vida. À tarde,
no centro da cidade, uma outra rapariga esperava,
sentada à mesa do café, com a mala ao lado,
o mensageiro do amor. Estava
tão segura de si, tão convencida de que ele
acabaria por chegar. Eu olhei o seu rosto jovem,
os seus cabelos que o vento parecia ter desalinhado.
A sua espera comoveu-me. Depois continuei
o meu caminho. A chuva caía
sobre as ruas da cidade. Límpidas, nítidas,
as fachadas das casas enchiam o fim da tarde
com a sua presença silenciosa. A eternidade
não existe, mas enquanto é tempo de durar, as pedras
e a madeira das portas e janelas duram.
Pouco a pouco o ruído cessou, a casa adormeceu.
Os convidados da festa falaram alto na rua,
depois o ruído dos automóveis levou-os para longe.
Contemplei a parede branca, a capa de um livro,
a caneta em cima da mesa, ao lado do jornal.
E o sono desceu sobre os meus olhos.

João Camilo
A Mala dos Marx Brothers
Caminho
Da Poesia
1988

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Estampa 2006 - Madrid




Letra B - Boaventura de Sousa

MINIATURA


Parto da vida íntima,
do último século não distingo um beijo

Convivo com as ocasiões
de mãos erguidas ao céu da fala,
as luzes superiores apagam-se
como um sermão de festa
ao alto dos pinheiros
entre cheiro de churrasco
e louro nos telheiros do verdasco

Contradigo-me
e tenho mãe,
confirmação de quase tudo

Junto ao espelho
a inocência impassível das feridas
desperdiça os filhos -
ao longe
um presépio calmo
cercado de artesanato fiel
laborioso e duplo como a alma.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989



CARTA DE UM VELHO QUANDO JOVEM

Depois do que te disse
descansei

escrevo-te sem endereço
no reverso do que fiz

não escolho as ruas onde moras

paro no verso
nunca atravesso

fecho-me na caixa do correio
à espera que me escrevas

melhor é acampar
no dedo direito deste magro braço d'água
cingido à complicação elementar
de estar vivo.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989


PAISAGEM SÚBITA


Abriu-se o retrato,
entram e saem músculos à farta

as presenças agradáveis do vocabulário,
outrora entregues
ao cuidado camponês,
campeiam no renovo
como cabras

com o zelo azedo da obra inacabada
as quatro patas do tempo
trazem-me ao cimo da taça
para transbordar

um gato fácil sobe ao caixilho
e contempla a mobília depois da agitação.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989



AUTO-RETRATO


Este retrato tem barulho de escada rolante
que se cala em movimento

o chão dos achados
rodeia o mapa de flores pesadas
e os degraus germinam nos pés
à cata de gente média
passageira imóvel dos factos

cresce com o excesso latino
a morte vitalícia de um céu mecânico

a espera é d'aço menino
como um século corporal
vestido de santos e arcanjos
entre os pardais da cama

os troféus escondem os donos
e pensam grosso à sobremesa

sou um homem casado
com dois ou três princípios
que não têm fim.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989



TEXTO PERDIDO ENTRE O ESCRITÓRIO E O CAFÉ


Não eram preciosas
eram exactas

tinham chegado em procissão
e estavam a entrar no corpo do encontro

não quis cercá-Ias de linhas
era tão cedo quanto tarde,
utilizava o espelho de memória
com a minúscula atenção de última hora

a história de uma perda
de que não me lembro.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Horácio

Horácio
Arte Poética

Roma
(c. 65-8 a. C.)

ARTE POÉTICA
(1-13)


Harmonia e proporção entre as partes da obra poética


Se um pintor à cabeça humana unisse
pescoço de cavalo e de diversas
penas vestisse o corpo organizado
de membros de animais de toda a espécie,
de sorte que mulher de belo aspecto
em torpe e negro peixe rematasse
vós, chamados a ver esta pintura,
o riso sofreríeis? Pois convosco
assentai, ó Pisões, que a um quadro destes
será mui semelhante aquele livro
no qual ideias vãs se representam
(quais os sonhos do enfermo), de tal modo,
que nem pés, nem cabeça a uma só forma
convenha. De fingir ampla licença
ao poeta e pintor sempre foi dada.
Assim é; e entre nós tal liberdade
pedimos mutuamente, e concedemos;
mas não há-de ser tanta, que se ajunte
agreste çom suave, e queira unir-se
ave a serpente, cordeirinho a tigre.



TRAD.: CÂNDIDO LUSITANO
Rosa do Mundo
2001 Poemas Para o Futuro

Estampa 2006 - Madrid



Isabel Pyrrait



Paco Mora