O MENSAGEIRO DO AMOR
No andar de cima, do outro lado das escadas,
havia uma festa. Eu ouvia a música e os risos,
as vozes que se excitavam e enchiam o silêncio da noite
de desejos, de paixões. Depois a porta bateu, passos
nas escadas. Uma rapariga desceu, as palavras
saíam-lhe da boca com uma facilidade
tão cheia do amor da vida. À tarde,
no centro da cidade, uma outra rapariga esperava,
sentada à mesa do café, com a mala ao lado,
o mensageiro do amor. Estava
tão segura de si, tão convencida de que ele
acabaria por chegar. Eu olhei o seu rosto jovem,
os seus cabelos que o vento parecia ter desalinhado.
A sua espera comoveu-me. Depois continuei
o meu caminho. A chuva caía
sobre as ruas da cidade. Límpidas, nítidas,
as fachadas das casas enchiam o fim da tarde
com a sua presença silenciosa. A eternidade
não existe, mas enquanto é tempo de durar, as pedras
e a madeira das portas e janelas duram.
Pouco a pouco o ruído cessou, a casa adormeceu.
Os convidados da festa falaram alto na rua,
depois o ruído dos automóveis levou-os para longe.
Contemplei a parede branca, a capa de um livro,
a caneta em cima da mesa, ao lado do jornal.
E o sono desceu sobre os meus olhos.
João Camilo
A Mala dos Marx Brothers
Caminho
Da Poesia
1988
sexta-feira, dezembro 08, 2006
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Letra B - Boaventura de Sousa
MINIATURA
Parto da vida íntima,
do último século não distingo um beijo
Convivo com as ocasiões
de mãos erguidas ao céu da fala,
as luzes superiores apagam-se
como um sermão de festa
ao alto dos pinheiros
entre cheiro de churrasco
e louro nos telheiros do verdasco
Contradigo-me
e tenho mãe,
confirmação de quase tudo
Junto ao espelho
a inocência impassível das feridas
desperdiça os filhos -
ao longe
um presépio calmo
cercado de artesanato fiel
laborioso e duplo como a alma.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
CARTA DE UM VELHO QUANDO JOVEM
Depois do que te disse
descansei
escrevo-te sem endereço
no reverso do que fiz
não escolho as ruas onde moras
paro no verso
nunca atravesso
fecho-me na caixa do correio
à espera que me escrevas
melhor é acampar
no dedo direito deste magro braço d'água
cingido à complicação elementar
de estar vivo.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
PAISAGEM SÚBITA
Abriu-se o retrato,
entram e saem músculos à farta
as presenças agradáveis do vocabulário,
outrora entregues
ao cuidado camponês,
campeiam no renovo
como cabras
com o zelo azedo da obra inacabada
as quatro patas do tempo
trazem-me ao cimo da taça
para transbordar
um gato fácil sobe ao caixilho
e contempla a mobília depois da agitação.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
AUTO-RETRATO
Este retrato tem barulho de escada rolante
que se cala em movimento
o chão dos achados
rodeia o mapa de flores pesadas
e os degraus germinam nos pés
à cata de gente média
passageira imóvel dos factos
cresce com o excesso latino
a morte vitalícia de um céu mecânico
a espera é d'aço menino
como um século corporal
vestido de santos e arcanjos
entre os pardais da cama
os troféus escondem os donos
e pensam grosso à sobremesa
sou um homem casado
com dois ou três princípios
que não têm fim.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
TEXTO PERDIDO ENTRE O ESCRITÓRIO E O CAFÉ
Não eram preciosas
eram exactas
tinham chegado em procissão
e estavam a entrar no corpo do encontro
não quis cercá-Ias de linhas
era tão cedo quanto tarde,
utilizava o espelho de memória
com a minúscula atenção de última hora
a história de uma perda
de que não me lembro.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
Parto da vida íntima,
do último século não distingo um beijo
Convivo com as ocasiões
de mãos erguidas ao céu da fala,
as luzes superiores apagam-se
como um sermão de festa
ao alto dos pinheiros
entre cheiro de churrasco
e louro nos telheiros do verdasco
Contradigo-me
e tenho mãe,
confirmação de quase tudo
Junto ao espelho
a inocência impassível das feridas
desperdiça os filhos -
ao longe
um presépio calmo
cercado de artesanato fiel
laborioso e duplo como a alma.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
CARTA DE UM VELHO QUANDO JOVEM
Depois do que te disse
descansei
escrevo-te sem endereço
no reverso do que fiz
não escolho as ruas onde moras
paro no verso
nunca atravesso
fecho-me na caixa do correio
à espera que me escrevas
melhor é acampar
no dedo direito deste magro braço d'água
cingido à complicação elementar
de estar vivo.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
PAISAGEM SÚBITA
Abriu-se o retrato,
entram e saem músculos à farta
as presenças agradáveis do vocabulário,
outrora entregues
ao cuidado camponês,
campeiam no renovo
como cabras
com o zelo azedo da obra inacabada
as quatro patas do tempo
trazem-me ao cimo da taça
para transbordar
um gato fácil sobe ao caixilho
e contempla a mobília depois da agitação.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
AUTO-RETRATO
Este retrato tem barulho de escada rolante
que se cala em movimento
o chão dos achados
rodeia o mapa de flores pesadas
e os degraus germinam nos pés
à cata de gente média
passageira imóvel dos factos
cresce com o excesso latino
a morte vitalícia de um céu mecânico
a espera é d'aço menino
como um século corporal
vestido de santos e arcanjos
entre os pardais da cama
os troféus escondem os donos
e pensam grosso à sobremesa
sou um homem casado
com dois ou três princípios
que não têm fim.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
TEXTO PERDIDO ENTRE O ESCRITÓRIO E O CAFÉ
Não eram preciosas
eram exactas
tinham chegado em procissão
e estavam a entrar no corpo do encontro
não quis cercá-Ias de linhas
era tão cedo quanto tarde,
utilizava o espelho de memória
com a minúscula atenção de última hora
a história de uma perda
de que não me lembro.
Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Horácio
Horácio
Arte Poética
Roma
(c. 65-8 a. C.)
ARTE POÉTICA
(1-13)
Harmonia e proporção entre as partes da obra poética
Se um pintor à cabeça humana unisse
pescoço de cavalo e de diversas
penas vestisse o corpo organizado
de membros de animais de toda a espécie,
de sorte que mulher de belo aspecto
em torpe e negro peixe rematasse
vós, chamados a ver esta pintura,
o riso sofreríeis? Pois convosco
assentai, ó Pisões, que a um quadro destes
será mui semelhante aquele livro
no qual ideias vãs se representam
(quais os sonhos do enfermo), de tal modo,
que nem pés, nem cabeça a uma só forma
convenha. De fingir ampla licença
ao poeta e pintor sempre foi dada.
Assim é; e entre nós tal liberdade
pedimos mutuamente, e concedemos;
mas não há-de ser tanta, que se ajunte
agreste çom suave, e queira unir-se
ave a serpente, cordeirinho a tigre.
TRAD.: CÂNDIDO LUSITANO
Rosa do Mundo
2001 Poemas Para o Futuro
Arte Poética
Roma
(c. 65-8 a. C.)
ARTE POÉTICA
(1-13)
Harmonia e proporção entre as partes da obra poética
Se um pintor à cabeça humana unisse
pescoço de cavalo e de diversas
penas vestisse o corpo organizado
de membros de animais de toda a espécie,
de sorte que mulher de belo aspecto
em torpe e negro peixe rematasse
vós, chamados a ver esta pintura,
o riso sofreríeis? Pois convosco
assentai, ó Pisões, que a um quadro destes
será mui semelhante aquele livro
no qual ideias vãs se representam
(quais os sonhos do enfermo), de tal modo,
que nem pés, nem cabeça a uma só forma
convenha. De fingir ampla licença
ao poeta e pintor sempre foi dada.
Assim é; e entre nós tal liberdade
pedimos mutuamente, e concedemos;
mas não há-de ser tanta, que se ajunte
agreste çom suave, e queira unir-se
ave a serpente, cordeirinho a tigre.
TRAD.: CÂNDIDO LUSITANO
Rosa do Mundo
2001 Poemas Para o Futuro
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