quinta-feira, agosto 31, 2006

Serei

serei um dia a pedra precária na falésia
formada na fúria dos ventos marinhos
nos estremeções da terra inquieta

serei grão de areia nos grãos de areia dos oceanos
gelo no granizo extemporâneo sobre as aldeias do interior
talvez vento cantante em redor das cabeças
das crianças assustadas

serei um fio de cabelo que desenha grafismos
sobre os papeis das secretárias
uma folha acabada de cair em pleno verão

serei o indizível presságio no coração
dos loucos de belos olhos garras nas mãos
facas nos dentes de vampiros


m.f.s.

Heitor Ferraz

ÁGUA BRANCA


Tento acompanhar meus passos
olhar para baixo
de cabeça baixa
a crista baixa
e o silêncio que percorre folhagens
secas
quase sempre secas
Se fosse mais velho
falaria em roubo e peculato
e da vontade de entender o que acontece
Mas acompanho
o desespero dos peixes
que deslizam
e se desmontam
sob meus tênis
Algumas manhãs são assim
arrastando pedras no parque
quando não
atrás do meu filho
que corre atrás de uma bola
até o lago espesso
e sem reflexo
sucessivamente.


HEITOR FERRAZ
Inimigo Rumor 13
2Âş semestre 2002
Revista de poesia Brasil e Portugal

Andi Nachon

36 MOVIMENTOS ATÉ

1

Um movimento, súbito
não resta nada. Ou quatro
quando você abre os olhos e está a meu lado,
trezentas e quarenta e três: entre mão
e jarra, do nariz ao vidro
de sua janela - mais
oitenta? -. E os outros, atravessando luz
consistências do ar, seu peso: apenas
outra série de ações
de nenhuma parte a lugar nenhum
n movimentos ou o único
pacto que você manterá.


5

Alminha, levante-se. Como se pudesse
baixar o volume, sossegasse tumultos
para que não doesse, não se alcançasse esse
umbral onde tudo
faz doer. Alminha: um tempo
para você não ser, perder o pêndulo
firme do jogo, sua cláusula vermelha
“cada um faz
o pouco que pode”. Saiamos daqui
mais claramente, saiamos dessa. Alminha, que coisas
os dias negociam. Digamos querida
não existe clemência
em vozes pequenas, minha vida minha alma
celebremos ameixas
damascos e peras. Dizia, ai minha, um tempo
para você não ser, o minuto em que todos
fazemos
este pouco que resta.


18

Há uma guerra prestes a estourar dizem. Antes
caminhei downtown, sob amoreiras
agora douradas e me detive sobre seu canto
calafrio que conta este
princípio de outono
nos últimos dias de verão. Dizem, lá fora há coisas
por explodir, assuntos
para além das amoreiras e súbitos
declínios do verão, seu estrondo
submerge a copa das árvores e você
em um mesmo final. Vocês dançaram
o segundo andar
dessa cidade de montanhas? Aqui nas outras
montanhas mais ao norte - idênticos picos, a mesma
idade da explosão - dancei hip-hop entre garotos
de quinze anos
que crescem neste povoado
guardado por cães de caça e motorhomes
onde alguém deixa sobre a mesa
um vaso com rosas. Lá fora
há novas explosões, a medida
do canto e sua história - não as amoreiras -
falam de guerras, tão cruentas e eu
penso só o gesto
com que alguém preparou a mesa
o vaso e suas três rosas
- duas amarelas, uma vermelha - tanta delicadeza
em meio a residências transitórias.


26

Beije o futuro, como se beija toda
possibilidade ou a espera
disso que os dias trazem e levam. A cada
trecho percorrido, acaricia esse
amanhã possível para ver a maneira
como a folha de papel cai os sete
andares do edifício sobre o bar king sao. E é s
agora. Traslado
de nada a menos ainda e ao tempo
a consistência firme
dessa folha caindo, seu peso
ante o vazio que qualquer
manhã apresenta. Pouca
coisa além disso, seus olhos
- e os meus -
necessariamente abertos. E só.


ANDI NACHON
Tradução: Paloma Vidal, Rubens Figueirdo e Carlito Azevedo
in Inimigo Rumor 13
2Âş semestre 2002
Revista de poesia Brasil e Portugal