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sábado, julho 12, 2008
sexta-feira, julho 11, 2008
segunda-feira, março 31, 2008
Interview
terça-feira, setembro 11, 2007
Mark Twain
CAPITULO XICerca do meio-dia, toda a aldeia ficou subitamente electrizada com a horrível notícia. Não foi preciso para nada o ainda nem sonhado telégrafo: a história voou de
homem em homem, de grupo em grupo, de casa em casa, com uma velocidade que não ficou a dever nada àtelegráfica. Claro que o professor não deu aula de tarde; a aldeia ficaria a fazer uma triste ideia dele se assim não procedesse. Tinha sido encontrada uma faca ensanguentada junto do homem assassinado e alguém a identificara como pertencendo a Muff Potter - era isso pelo menos, o que se dizia. E dizia-se também que um cidadão noctívago encontrara Potter a lavar-se no regato, cerca da uma ou duas horas da manhã, e que Potter batera imediatamente em retirada - circunstâncias suspeitas, sobretudo a lavagem, que não estava nada nos hábitos de Potter. Dizia-se também que a aldeia fora passada a pente fino, à procura do referido «assassino»(o público não é lento quando se trata de joeirar indícios e pronunciar um veredicto), mas que não fora encontrado. Tinham partido homens a cavalo por todas as estradas e em todas as direcções e o xerife estava convencido de que ele seria apanhado antes de anoitecer.
Toda a aldeia ia a caminho do cemitério. O sofrimento de Tom deu-lhe momentâneas tréguas e ele juntou-se ao cortejo, não porque não preferisse mil vezes ir a qualquer outro lado, mas sim porque o atraía uma terrível e inexplicável fascinação. Chegado ao pavoroso local, foi insinuando o corpo miúdo através da
multidão, até ver o horrível espectáculo. Pareceu-lhe que decorrera um século desde a última vez que ali estivera. Sentiu um beliscão no braço, virou-se e os seus
olhos encontraram os de Huckleberry. Depois olharam ambos para outro lado ao mesmo tempo, perguntando a si mesmos se alguém notara alguma coisa no seu olhar
mútuo. Mas estava toda a gente a falar e atenta ao sinistro espectáculo que tinha à frente.
«Pobre tipo!» «Pobre rapaz!» «Que isto sirva de
lição aos ladrões de sepulturas!» «Isto valerá a forca ao
Muff Potter, se o apanharem!» Era este o tom geral das
observações. Só o pastor se pronunciou de modo um
pouco diferente: «Foi um julgamento. A mão d'Ele está
aqui.»
Tom estremeceu dos pés à cabeça, pois os seus olhos
acabavam de se deter no rosto impassível do índio
Joe. No mesmo instante, a multidão começou a
novimentar-se e a empurrar-se, enquanto vozes
gritavam:
- É ele! É ele! Veio cá ele próprio!
E vinte outras vozes perguntaram:
- Quem? Quem?
- Muff Potter!
- Olhem, parou! Cuidado, vai arrepiar caminho!
Não o deixem fugir!
Umas pessoas que estavam empoleiradas nos ramos
das árvores, por cima da cabeça de Tom, disseram que
ele não pretendia fugir; estava apenas hesitante e
perplexo.
- Que grande atrevimento! - exclamou um especta-
dor. - Decidiu vir ver pessoalmente a sua obra e não
esperava encontrar ninguém.
A multidão abriu caminho e o xerife passou, apara-
tosamente, conduzindo Potter pelo braço. O rosto do
pobre diabo estava desfigurado e os seus olhos denun-
ciavam o medo que o possuía. Quando se viu diante do
homem assassinado, desatou a tremer como se estivesse
com um ataque, ocultou o rosto nas mãos e rompeu em
pranto.
-Não fui eu, amigos-soluçou.-Dou a minha pa-
lavra de honra que não fui eu.
- Quem te acusou? - gritou uma voz.
As Aventuras de Tom Sawyer
Mark Twain
194lb livros de bolso europa américa
terça-feira, agosto 28, 2007
quarta-feira, maio 16, 2007
Arqueologias

Sopa a antiga portugueza.
Cozam-se conjunctamente com a carne, feijões
brancos e olhos de couves, e, emquanto que isto
se faz, tostem-se com o maior cuidado algumas fa-
tias de pão da vespera, que, acamadas n'uma ter-
rina, receberão depois o caldo, o qual deverá pas-
sar por uma peneira. Tanto os feijões, como os
olhos das couves são depois juntos ao caldo e pão.
Sirva-se em seguida.
Sopa de frade
Cortem-se algumas fatias de pão da vespera,
envolvam-se em manteiga de vacca, frijam-se com
cuidado, colloquem-se na terrina, deite-se-lhes em
cima caldo de carne com quaesquer legumes, po-
nha-se de novo ao lume até levantar fervura, e
sirva-se depois.
Sopa suissa
Tomem-se algumas fatias de bom queijo, es-
tendam-se n'uma cassarola, deite-se por cima das
fatias uma pequena porção de manteiga de vacca,
colloque-se por cima do queijo uma outra série de
fatias de pão tostado, torne a collocar-se, sobre es-
tas, novas fatias de queijo e outra tanta manteiga
de vacca, bem como, por cima d'estas, outra por-
ção de fatias de pão torrado, e assim successiva-
mente, até que a ultima camada seja composta de
fatias de queijo, com uma nova porção de man-
teiga: e depois de tudo isto disposto pela fórma
indicada, deite-se em seguida, dentro da cassarola
e molhe-se com caldo de carne, deixando-se es-
tar ao lume, até tostar a sopa, e o caldo evapo-
rar-se.
No acto de servir-se, deverá deitar-se uma nova
porção de caldo, e uma pitada de pimenta.
Manual de Cosinha
Imprensa de Lucas Evangelista Torres
Lisboa
1892
domingo, fevereiro 25, 2007
Continuação
Vou tentar reactivar este blogue, com o espírito que sempre teve de uma certa diversidade.
Voltarei às minhas arqueologias, pois creio que ainda tenho bastantes livros, mais ou menos antigos e outros documentos.
Também tenho muita poesia e arte para divulgar.
Mas não vou mexer no que já está publicado, apesar dos erros verificados
Desejem-me boa sorte e desculpem-me
Voltarei às minhas arqueologias, pois creio que ainda tenho bastantes livros, mais ou menos antigos e outros documentos.
Também tenho muita poesia e arte para divulgar.
Mas não vou mexer no que já está publicado, apesar dos erros verificados
Desejem-me boa sorte e desculpem-me
sexta-feira, novembro 03, 2006
Arqueologias
Entre as minhas "arqueologias" conta-se este livro escolar de 1909,
com textos interessantes, cheio de gatafunhos e alguns bonecos, como aqui se mostra.
ABSTRACTION
The celebrated English philosopher, Newton, being
one day deeply engaged in the study of some difficult
problem, would not leave it to go and breakfast with
the family.
His housekeeper, however, fearing that the long fasting
might make him ill, sent one of the servants into the
closet, with an egg and a saucepan of water. The servant
was told to boil the egg and stay while her master ate
it, but, Newton, wishing to be alone, sent her away,
saying he would cook it himself. The servant, after
placing it by the side of his watch on the table, and
telling him to let it boil three minutes, went out; but
fearing he mignt forget, she returned soon after, and
found him standing by the fire-side, with the egg in his
hand, his watch boiling in the saucepan, and he quite
unconscious of the mistake he had committed.
ENGLISH READING BOOK
Approvado officialmente para a 2.ÂŞ e 3.ÂŞ classe dos Lyceus
Arthur Ivens Ferraz
Livraria Chardron
de Lello & IrmĂŁos, editores
Porto
1909
com textos interessantes, cheio de gatafunhos e alguns bonecos, como aqui se mostra.
ABSTRACTION
The celebrated English philosopher, Newton, being
one day deeply engaged in the study of some difficult
problem, would not leave it to go and breakfast with
the family.
His housekeeper, however, fearing that the long fasting
might make him ill, sent one of the servants into the
closet, with an egg and a saucepan of water. The servant
was told to boil the egg and stay while her master ate
it, but, Newton, wishing to be alone, sent her away,
saying he would cook it himself. The servant, after
placing it by the side of his watch on the table, and
telling him to let it boil three minutes, went out; but
fearing he mignt forget, she returned soon after, and
found him standing by the fire-side, with the egg in his
hand, his watch boiling in the saucepan, and he quite
unconscious of the mistake he had committed.
ENGLISH READING BOOK
Approvado officialmente para a 2.ÂŞ e 3.ÂŞ classe dos Lyceus
Arthur Ivens Ferraz
Livraria Chardron
de Lello & IrmĂŁos, editores
Porto
1909
quarta-feira, novembro 01, 2006
Arqueologias

Le coloris.
Les orientales ont un soin particulier de
leur chevelure car elles la portent tombante
et cette parure est pour elles d'autant plus
importante qu'il ne leur est pas possible
comme aux autres femmes, d'en dissimuler
la pauvreté sous une avalanche de frisures
et de "chichis".
Elles sont généralement brunes, mais quel-
ques unes pourtant arborent des cheveux dont
les reflets rappellent ceux des beaux ors
anciens.
Toutes, même dans l'âge le plus avancé,
cĂłnservent leurs cheveux abondants et soyeux.
Leur secret? Le cataplasme de henné em-
ployé judicieusement.
Le henné est une plante dont les feuilles
pulvérisées se font bouillir à la façon d'un
cataplasme de farine de lin.
Lorsque le mélange est à point, on se sert
d'un large pinceau et mieux encore d'un
blaireau aux soies très longues, pour l'appli-
quer en couches épaisses sur toute la che-
velure.
On garde cet emplâtre pluss ou moins long-
temps suivant la nuance que l'on désire
obtenir.
Mais il faut noter ceci; Ă l'encontre de
toutes les teintures, le henné est un fortifiant
et un régénérateur de la chevelure. Lorsqu'on
ne le garde pas plus d'une demi-heure, il n'a
que peu d'action sur la coloration définitive
et c'est en même temps un remède souverain
contre les pellicules, partant de lĂ contre la
chute des cheveux.
Apres l'application, on lave soigneusement
la chevelure et on la brosse Ă diverses reprises
lorsqu'elle est sèche, car la poudre de henné
se dissimule facilement dans la masse che-
velue.
Vn auue avant~ge de cette plante, c'est de
favoriser l'ondulation naturelle et d'aider au
maintient de la frisure artificielle.
Les Secrets de Beauté
Par Mme. de Vandille
Éditions Nilsson
Paris
"Aubergines"

aubergines au four
Nettoyez d'abord les aubergines sans en enlever la peau,
mais en Ă´tant le trognon et la queue. Puis, coupez-les en
deux, dans le sens de la longueur, creusez un peu la partie
interne pour retirer les graines et incisez la chair au
couteau, en croisillons, pour faciliter la cuisson.
Salez,poivrez et saupoudrez chaque demi-aubergine d'un peu
d'ail haché menu. Disposez enfin les aubergines dans un
plat huilé, en les serrant bien, la partie recouverte de peau
tournée vers le fond. Arrosez-les d'un peu d'huile et faites
cuire au four, à chaleur modérée.
aubergines panées
Coupez les aubergines en tranches d'1/2 cm d'épaisseur
au maximum et dans le sens de la longueur. Mettez-les
dans un grand plat et saupoudrez-les de sel, puis recou-
vrez-les d'un deuxième plat sur lequel yous poserez un
objet lourd. Le but est de maintenir les aubergines pressées
avec le sel pour qu'el1es “chassent” (comme on dit à
Naples) un peu de leur goût amer. Laissez-les ainsi 2 ou
3 heures; ensuite lavez-les et essuyez-les. Vous passerez
alors chaque tranche dans un jaune d'oeuf battu, puis dans
la farine avant de les faire frire. Cest absolument exquis.
La Cuisine à l´italienne
Sophia Loren
Laffont
1972
quarta-feira, outubro 04, 2006
Arqueologias
Poetas sem amor
uma crónica de João Gaspar Simões
.
Pascoais, tal como Pessoa, nĂŁo sĂł se isolou da mulher, mas quase se
converteu em criatura ostensivamente estranha aos aliciamentos do amor.
Por mais humanas que sejam as obras destes dois grandes poetas -uma
coisa lhes falta: o sentimento da fatalidade, irmão gémeo do amor. É em
Afonso Duarte, afinal, que o vamos encontrar, e já depois de velho. Assim
o proclamam as estrofes do Canto de Morte e Amor, o poema que lhe
inspirou a mulher a quem amou pode dizer-se mais na morte que na vida.
Conquanto, em verdade o cantor de Ossadas, malogrado muito cedo
na sua vida fĂsica, tenha perdido, por assim dizer, a virilidade que transpĂ´s
Ăntegra para a poesia, o certo Ă© que nunca se deixou vencer e o seu com-
portamento de homem manteve-se o activo destino de quem sabe ter vindo
a este mundo para amar. Amar a quem? Pouco importa: o imperativo estava
na sua alma. Se um amor ancilar lhe trouxe ao caminho uma pobre rapariga
a quem ele concedia um afecto parecido com o que dedicava Ă s rolas e Ă s
rosas de toucar, a morte dessa mulher inspirou-lhe das mais pungentes rimas
de toda a sua poesia. Intocado na sua alma jazia o sentimento que ele
julgava contentar-se com as alegrias de uma devoção quase pagã a tudo
quanto no mundo é vivo e pleno. Um dia, porém, a morte bateu à porta
dessa criatura simples e dedicada. E um amor por assim dizer pĂłstumo, um
amor que a prĂłpria morte converteria em canto alto e profundo se lhe
revelou de sĂşbito. E foi assim que este poeta tĂŁo predestinadamente sĂł
como os seus émulos Pascoais e Pessoa pôde dar à poesia portuguesa, quando
já soara há muito a hora da paixão, um dos seus mais belos poemas de morte e amor.
Como abre e fecha uma flor/No seu diálogo mudo,/Era tudo a nossador/E o nosso amor por tudo./Dois corpos numa só vida/E nem por mortepartida/No seu diálogo mudo.
.
João Gaspar Simões
eva
Natal
1961
segunda-feira, setembro 25, 2006
Arqueologias
POETAS SEM AMOR
uma crónica de João Gaspar Simões
uma crónica de João Gaspar Simões
.
São deste teor morno as missivas amorosas que Fernando Pessoa
escreveu a Ofélia. E o facto de Álvaro de Campos ter confidenciado,
anos depois, o que o próprio Fernando Pessoa calou - “que todas as
cartas de amor são ridículas” - permite-nos compreender quanto foi
epidérmico o sentimento que o atraiu para essa criatura sem história e
quão alheia se manteve a esse episódio sentimental de feição burguesa
a trama profunda da sua obra. Seguramente o Fernando Pessoa que amou
Ofélia não é o Pernando Pessoa perpetuado nos seus versos. De facto,
o amor não foi nem necessidade emocional do autor da Mensagem nem
ingrediente fundamental da sua poesia. Toda a tua experiência de poeta
decorreu alhures. Ali onde ele se entrega à alquimia dos seus versos
não tem lugar o sentimento que porventura o atraiu momentâneamente
para o sexo oposto.
Não há sequer notícia biográfica de qualquer interregno passional
na vida de Pascoais. E embora haja quem considere a Elegia do Amor
prova da paixão que certa misteriosa mulher lhe teria inspirado, nenhum
dado concreto veio a lume acerca dessa ou de outra qualquer aventura
amorosa do cantor da Vida Etérea. Também Pascoais viveu só e morreu
só. Ao contrário do poeta da Mensagem, todavia, os seus versos não se
cansam de falar em alguma coisa que pelo menos no nome pode confundir-se
com o amor. Que espécie de amor? O “Amor” que em Diálogo, uma das
composições da Vida Etérea se entretém a conversar com a “Alma”: Quem
bate à minha porta? exclama o Amor. E a Alma responde: Uma velha men-
diga quase morta./Venho da escuridão da Natureza./No meu saco de pobre,
eu trago só tristeza.
Há séculos e séculos errante./Trémula sombra, ao vento murmurante./
/Ando de corpo em corpo.../O mármore beijei;
O mármore glacial e lívido animei.../ E em mística ternura,/ Fundiu-s,
como, ao sol, a neve pura;/E ei-lo sagrada flor./Turíbulo que exala aroma,
vida e cor.
Assim se exprime a Alma, e o Amor, de exortá-la a que se lhe confie:
Ó alma vagabunda e dolorida./Vem a mim. Sou o amor que te dá vida.
Que Amor é este? Que Alma é esta? O único amor que Teixeira de
Pascoais admitia: o amor sem raizes na vida, o amor mais amor que o
amor da carne. A identidade da alma do poeta com as coisas da natureza
num plano panteísta a que só ascendem as consciências primitivas dester-
ravam-no do mundo, isolavam-no da terra,É na nebulosa da sua própria
subjectividade que se desenrolam os dramas do mais filosófico dos nossos
poetas do século XX. A Teixeira de Pascoais pouco ou nada pesou não ter
conhecido o amor. Na paixão verdadeira existe uma parte de sensualidade que
nem o misticismo é capaz de subliamar. Se o poeta dos páramos abstractos
porventura encontrou uma mulher capaz de o amor como mulher, não como
símbolo das suas poesias mais reconhecidamente inspiradas num amor
humano, nem por isso a Elegia do Amor é menos imaterial e incorpórea
que qualquer das suas composições manifestamente abstractas:
Lembras-te, meu amor,/Das tardes outonais,/Em que íamos os dois,/
/Sózinhos passear./Para fora do povo/Alegre e dos casais./Onde só Deus
pudesse/Ouvir-nos conversar? /Tu levavas na mão/Um lírio enamorado,/
/E davas-me o teu braço:/E eu, triste meditava/Na vida, em Deus. em ti...
Efectivamente o amor não era a atmosfera ideal de uma natureza como
a de Teixeira de Pascoais. Os poetas sabem melhor do que ninguém cercar
de altas muralhas o espaço interior onde se formam as suas emoções.
Pascoais ter-se-ia desmentido como poeta se porventura houvesse consentido
que um amor tangível, um amor humano, perturbasse a paz desse mar interior
desconhecido que era a sua alma de poeta. Há “amor” na sua poesia, é
certo, mas um amor” que nada sabe das tristezas e alegrias que só o ver-
dadeiro amor consente. Na melindrosa atitude do poeta, sempre pronto
a preservar a sua poesia de tudo que possa corrompê-la. há, por vezes,
como que uma hostilidade pusilânime para com aquela que desde os tempos
mitológicos foi capaz de comprometer o destino solitário do homem.
(Continua)
João Gaspar Simões
eva
Natal
1961
escreveu a Ofélia. E o facto de Álvaro de Campos ter confidenciado,
anos depois, o que o próprio Fernando Pessoa calou - “que todas as
cartas de amor são ridículas” - permite-nos compreender quanto foi
epidérmico o sentimento que o atraiu para essa criatura sem história e
quão alheia se manteve a esse episódio sentimental de feição burguesa
a trama profunda da sua obra. Seguramente o Fernando Pessoa que amou
Ofélia não é o Pernando Pessoa perpetuado nos seus versos. De facto,
o amor não foi nem necessidade emocional do autor da Mensagem nem
ingrediente fundamental da sua poesia. Toda a tua experiência de poeta
decorreu alhures. Ali onde ele se entrega à alquimia dos seus versos
não tem lugar o sentimento que porventura o atraiu momentâneamente
para o sexo oposto.
Não há sequer notícia biográfica de qualquer interregno passional
na vida de Pascoais. E embora haja quem considere a Elegia do Amor
prova da paixão que certa misteriosa mulher lhe teria inspirado, nenhum
dado concreto veio a lume acerca dessa ou de outra qualquer aventura
amorosa do cantor da Vida Etérea. Também Pascoais viveu só e morreu
só. Ao contrário do poeta da Mensagem, todavia, os seus versos não se
cansam de falar em alguma coisa que pelo menos no nome pode confundir-se
com o amor. Que espécie de amor? O “Amor” que em Diálogo, uma das
composições da Vida Etérea se entretém a conversar com a “Alma”: Quem
bate à minha porta? exclama o Amor. E a Alma responde: Uma velha men-
diga quase morta./Venho da escuridão da Natureza./No meu saco de pobre,
eu trago só tristeza.
Há séculos e séculos errante./Trémula sombra, ao vento murmurante./
/Ando de corpo em corpo.../O mármore beijei;
O mármore glacial e lívido animei.../ E em mística ternura,/ Fundiu-s,
como, ao sol, a neve pura;/E ei-lo sagrada flor./Turíbulo que exala aroma,
vida e cor.
Assim se exprime a Alma, e o Amor, de exortá-la a que se lhe confie:
Ó alma vagabunda e dolorida./Vem a mim. Sou o amor que te dá vida.
Que Amor é este? Que Alma é esta? O único amor que Teixeira de
Pascoais admitia: o amor sem raizes na vida, o amor mais amor que o
amor da carne. A identidade da alma do poeta com as coisas da natureza
num plano panteísta a que só ascendem as consciências primitivas dester-
ravam-no do mundo, isolavam-no da terra,É na nebulosa da sua própria
subjectividade que se desenrolam os dramas do mais filosófico dos nossos
poetas do século XX. A Teixeira de Pascoais pouco ou nada pesou não ter
conhecido o amor. Na paixão verdadeira existe uma parte de sensualidade que
nem o misticismo é capaz de subliamar. Se o poeta dos páramos abstractos
porventura encontrou uma mulher capaz de o amor como mulher, não como
símbolo das suas poesias mais reconhecidamente inspiradas num amor
humano, nem por isso a Elegia do Amor é menos imaterial e incorpórea
que qualquer das suas composições manifestamente abstractas:
Lembras-te, meu amor,/Das tardes outonais,/Em que íamos os dois,/
/Sózinhos passear./Para fora do povo/Alegre e dos casais./Onde só Deus
pudesse/Ouvir-nos conversar? /Tu levavas na mão/Um lírio enamorado,/
/E davas-me o teu braço:/E eu, triste meditava/Na vida, em Deus. em ti...
Efectivamente o amor não era a atmosfera ideal de uma natureza como
a de Teixeira de Pascoais. Os poetas sabem melhor do que ninguém cercar
de altas muralhas o espaço interior onde se formam as suas emoções.
Pascoais ter-se-ia desmentido como poeta se porventura houvesse consentido
que um amor tangível, um amor humano, perturbasse a paz desse mar interior
desconhecido que era a sua alma de poeta. Há “amor” na sua poesia, é
certo, mas um amor” que nada sabe das tristezas e alegrias que só o ver-
dadeiro amor consente. Na melindrosa atitude do poeta, sempre pronto
a preservar a sua poesia de tudo que possa corrompê-la. há, por vezes,
como que uma hostilidade pusilânime para com aquela que desde os tempos
mitológicos foi capaz de comprometer o destino solitário do homem.
(Continua)
João Gaspar Simões
eva
Natal
1961
domingo, setembro 24, 2006
Arqueologias
POETAS SEM AMOR
uma crónica de João Gaspar Simões
Teixeira de Pascoais
uma crónica de João Gaspar Simões
Teixeira de Pascoais
Sendo a poesia portuguesa das poesias amorosas mais originais do
mundo, acontece que alguns dos poetas de maior nomeda do
nosso tempo não só parece não terem amado mas, se porventura
o fizeram, dos seus amores quase não deixaram notícias nos versos que
escreveram.
Aàtemos, por exemplo, Teixeira de Pascoais, cuja biografia é árida
mais que nenhuma outra no capítulo sentimental, ou Fernando Pessoa,
que nos legou, em algumas cartas quase ridículas, um simulacro de na-
moro lisboeta, esvaziado de paixão, ou Afonso Duarte, dos três o único
que pagou portagem à entrada da ilha dos Amores, mas que nem por
isso viveu mais passionalmente que qualquer dos seus pares.
A propósito de Mário de Sá-Carneiro, cuja poesia também des-
denhou a tradição amorosa das letras portuguesas, disse eu um dia que
os poetas nacionais a quem não é dado esquecerem-se de si próprios,
mercê do amor que votam a outrem, se convertem, pela sua maior parte,
em casos monstruosos de subjectivismo lírico. O amor na poesia portu-
guesa, sustentei então, é a maneira mais corrente de o poeta sublimar
o seu ensimesmamento psicológico. “Transforma-se o amador na coisa
amada”, proclamou Camões, e nesta metamorfose se consubstancia, em
verdade, o fenómeno graças ao qual o lírico de língua pátria se mostra
capaz de continuar a cantar-se a si próprio na ilusão de que canta a
mulher a quem julga amar. Talvez que o mistério passional do nosso
Camões não esconda mais que um destino mítico: o próprio destino dos
poetas que em Portugal, julgando amar e morrer de amor por alguém,
apenas se amam e morrem de amor por si próprios. Ainda um dia há-de
descobrir-se, para vergonha e confusão dos seus biógrafos, que afinal o
apaixonado da Infanta Dona Maria nunca amou mulher nenhuma, andou
sempre perdidamente enamorado da sua própria pessoa.
Teria o século XX malogrado para sempre a lenda do erotismo fun-
damental da poesia portuguesa?
Assim parece, em verdade, respigando na obra destes três altos re-
presentantes da lírica nacional o que porventura nela subsiste da tradição
secular. De facto, nem Teixeira de Pascoais, nem Fernando Pessoa, nem
Afonso Duarte cumprem os mandamentos da religião tradicionalmente
venerada nas hostes da poesia portuguesa. Nenhum deles é um típico
poeta do amor. Se em Pascoais e em Afonso Duarte ainda há vislumbres
de uma passionalidade malograda, em Fernando Pessoa pode dizer-se que
nada transpira desse sentimento. E no entanto... Sim, e no entanto, de
todos eles é Fernando Pessoa o menos subjectivo, o menos ensimesmado.
Nem Fernando Pessoa nem Afonso Duarte mergulharam nesse pélago
íntimo onde Mário de Sá-Carneiro, por exemplo, se perdeu. Pelo con-
trário: nos dois a poesia nacional depura-se de muita ganga personalista
em suspensão na maior parte dos versos seus contemporâneos. E se
Teixeira de Pascoais, de entre todos, é o que mais fundo desce na espe-
leologia do ensimesmamento, apesar de tudo não se pode dizer que na
obra do autor do Regresso ao Paraíso a nota dominante seja o subjec-
tivismo. Subjectivista, é certo, ensimesmado, naturalmente, por vezes
animista e primitivo na sua visão do mundo, Pascoais iliba-se do pecado
mortal da poesia portuguesa consagrando a uma concepção filosófica
as disponibilidades subjectivas da sua personalidade. Repartindo-se pelos
heterónimos, outras pessoas em quem se desdobra, logrou o quase
misógino Fernando Pessoa vencer o enquistamento subjectivo que se
manifesta na personalidade dos nossos poetas que não amaram nem
foram amados; congeminando uma concepção do mundo à escala da
saudade portuguesa, na aridez do seu destino de isolado, alargou Teixeira
de Pascoais ao cosmos a complexidade de uma alma, destinada a, devo-
rar-se a si própria; e Afonso Duarte, esse, pĂ´de evadir-se de qualquer
menos nobre estagnação dos seus ideais de poeta amando, amando
deveras, pedras, rios, árvores, nuvens, tudo quanto na natureza e na
vida passivamente se deixa amar. Dos três foi Afonso Duarte o único
que amou - mas não uma mulher, não as mulheres, sim tudo que no
mundo é digno de amor.
As coisas estão a mudar, mas nem por isso a nossa poesia con-
temporânea deu sinal dessa mudança: sem peso na vida social, a mulher
portuguesa amada pelos poetas através dos séculos não foi, na maior
parte dos casos, mais que uma abstracção ou uma quimera. Na nossa
poesia amou-se muito o próprio amor, como diria Afonso Lopes Vieira.
Nem o próprio amor nela se ama todavia desde que o poeta encontra
no seu caminho, muito antes da mulher, qualquer coisa que o absorva
tão completamente que quando aquela porventura aparece já é tarde
para lhe dar a importância que merecia. Fernando Pessoa malbaratou
a sua juventude pelos cafés de Lisboa. As mulheres não acamaradavam
com os poetas no tempo em que os moços do Orpheu congeminavam
as suas truculentas aventuras literárias. E aàestá como Fernando Pessoa
só tarde vem a conhecer a única mulher da sua vida: Ofélia, sua com-
panheira de escritório, a qual não tinha estofo para ser amada por uma
natureza tão rica. E foi assim que os amores do poeta da Mensagem
o deixaram incólume de sofrimento ou de exaltação. Não há vestígios
desse amor na obra do poeta. Restam-nos as cartas que Carlos Queirós
publicou poucos anos depois da morte do autor d'a Ode Marítima,
o menos poético dos documentos humanos. “Reconheço que tudo isto
é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu. Eu próprio
acharia graça, se a não amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar
em outra coisa, que não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me
sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido; e creio bem que
amá-la não é razão bastante para o merecer.”
(Continua)
João Gaspar Simões
eva
mundo, acontece que alguns dos poetas de maior nomeda do
nosso tempo não só parece não terem amado mas, se porventura
o fizeram, dos seus amores quase não deixaram notícias nos versos que
escreveram.
Aàtemos, por exemplo, Teixeira de Pascoais, cuja biografia é árida
mais que nenhuma outra no capítulo sentimental, ou Fernando Pessoa,
que nos legou, em algumas cartas quase ridículas, um simulacro de na-
moro lisboeta, esvaziado de paixão, ou Afonso Duarte, dos três o único
que pagou portagem à entrada da ilha dos Amores, mas que nem por
isso viveu mais passionalmente que qualquer dos seus pares.
A propósito de Mário de Sá-Carneiro, cuja poesia também des-
denhou a tradição amorosa das letras portuguesas, disse eu um dia que
os poetas nacionais a quem não é dado esquecerem-se de si próprios,
mercê do amor que votam a outrem, se convertem, pela sua maior parte,
em casos monstruosos de subjectivismo lírico. O amor na poesia portu-
guesa, sustentei então, é a maneira mais corrente de o poeta sublimar
o seu ensimesmamento psicológico. “Transforma-se o amador na coisa
amada”, proclamou Camões, e nesta metamorfose se consubstancia, em
verdade, o fenómeno graças ao qual o lírico de língua pátria se mostra
capaz de continuar a cantar-se a si próprio na ilusão de que canta a
mulher a quem julga amar. Talvez que o mistério passional do nosso
Camões não esconda mais que um destino mítico: o próprio destino dos
poetas que em Portugal, julgando amar e morrer de amor por alguém,
apenas se amam e morrem de amor por si próprios. Ainda um dia há-de
descobrir-se, para vergonha e confusão dos seus biógrafos, que afinal o
apaixonado da Infanta Dona Maria nunca amou mulher nenhuma, andou
sempre perdidamente enamorado da sua própria pessoa.
Teria o século XX malogrado para sempre a lenda do erotismo fun-
damental da poesia portuguesa?
Assim parece, em verdade, respigando na obra destes três altos re-
presentantes da lírica nacional o que porventura nela subsiste da tradição
secular. De facto, nem Teixeira de Pascoais, nem Fernando Pessoa, nem
Afonso Duarte cumprem os mandamentos da religião tradicionalmente
venerada nas hostes da poesia portuguesa. Nenhum deles é um típico
poeta do amor. Se em Pascoais e em Afonso Duarte ainda há vislumbres
de uma passionalidade malograda, em Fernando Pessoa pode dizer-se que
nada transpira desse sentimento. E no entanto... Sim, e no entanto, de
todos eles é Fernando Pessoa o menos subjectivo, o menos ensimesmado.
Nem Fernando Pessoa nem Afonso Duarte mergulharam nesse pélago
íntimo onde Mário de Sá-Carneiro, por exemplo, se perdeu. Pelo con-
trário: nos dois a poesia nacional depura-se de muita ganga personalista
em suspensão na maior parte dos versos seus contemporâneos. E se
Teixeira de Pascoais, de entre todos, é o que mais fundo desce na espe-
leologia do ensimesmamento, apesar de tudo não se pode dizer que na
obra do autor do Regresso ao Paraíso a nota dominante seja o subjec-
tivismo. Subjectivista, é certo, ensimesmado, naturalmente, por vezes
animista e primitivo na sua visão do mundo, Pascoais iliba-se do pecado
mortal da poesia portuguesa consagrando a uma concepção filosófica
as disponibilidades subjectivas da sua personalidade. Repartindo-se pelos
heterónimos, outras pessoas em quem se desdobra, logrou o quase
misógino Fernando Pessoa vencer o enquistamento subjectivo que se
manifesta na personalidade dos nossos poetas que não amaram nem
foram amados; congeminando uma concepção do mundo à escala da
saudade portuguesa, na aridez do seu destino de isolado, alargou Teixeira
de Pascoais ao cosmos a complexidade de uma alma, destinada a, devo-
rar-se a si própria; e Afonso Duarte, esse, pĂ´de evadir-se de qualquer
menos nobre estagnação dos seus ideais de poeta amando, amando
deveras, pedras, rios, árvores, nuvens, tudo quanto na natureza e na
vida passivamente se deixa amar. Dos três foi Afonso Duarte o único
que amou - mas não uma mulher, não as mulheres, sim tudo que no
mundo é digno de amor.
As coisas estão a mudar, mas nem por isso a nossa poesia con-
temporânea deu sinal dessa mudança: sem peso na vida social, a mulher
portuguesa amada pelos poetas através dos séculos não foi, na maior
parte dos casos, mais que uma abstracção ou uma quimera. Na nossa
poesia amou-se muito o próprio amor, como diria Afonso Lopes Vieira.
Nem o próprio amor nela se ama todavia desde que o poeta encontra
no seu caminho, muito antes da mulher, qualquer coisa que o absorva
tão completamente que quando aquela porventura aparece já é tarde
para lhe dar a importância que merecia. Fernando Pessoa malbaratou
a sua juventude pelos cafés de Lisboa. As mulheres não acamaradavam
com os poetas no tempo em que os moços do Orpheu congeminavam
as suas truculentas aventuras literárias. E aàestá como Fernando Pessoa
só tarde vem a conhecer a única mulher da sua vida: Ofélia, sua com-
panheira de escritório, a qual não tinha estofo para ser amada por uma
natureza tão rica. E foi assim que os amores do poeta da Mensagem
o deixaram incólume de sofrimento ou de exaltação. Não há vestígios
desse amor na obra do poeta. Restam-nos as cartas que Carlos Queirós
publicou poucos anos depois da morte do autor d'a Ode Marítima,
o menos poético dos documentos humanos. “Reconheço que tudo isto
é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu. Eu próprio
acharia graça, se a não amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar
em outra coisa, que não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me
sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido; e creio bem que
amá-la não é razão bastante para o merecer.”
(Continua)
João Gaspar Simões
eva
quinta-feira, setembro 07, 2006
quarta-feira, setembro 06, 2006
Arqueologias

Os dez mandamentos
da mãe de familia
I - Amamente seu proprio filho. Nenhum alimento
substitue o leite materno.
II - Dê cinco refeições diarias ao bébé. De noite
descans e deixe-o descançar. Ensine-o desde cêdo que a
noite foi feita para se dormir.
III - Só adopte alimentação artificial quando re-
commendada pelo medico da familla. Havendo disturbio
intestinal, suspenda logo o leite e o assucar.
IV - Depois de seis meses addicione ao leite ma-
temo: legumes, sopinhas, fructas e mingáos.
V - Não desmame seu filho por iniciativa propria.
Procure ouvir sempre, para isso, a opinião do medico da
creança.
VI - Exponha o garoto ao ar livre e ao sol. Aba-
fado elle não progredirá; sem apanhar sol; não se des-
envolverá nunca.
VII - Deixe a creança sózinha, durante o dia para
descanço de seus nervos. Excitação e distracção em de-
masia irritam.
VIII - Conserve o bébé bem limpo. O tratamento
da epiderme é meio caminho andado para a defesa do
organismo. Traga-o sempre de roupas limpas.
IX - Evite que elle tenha contacto com pessôas
enfermas, desde as que têem simples resfriados até...
Defenda a saude de seu filho como o seu maior e mais
precioso bem!
X - Consulte o medico, quando elle apresentar qual-
quer coisa de anormal. Não siga os conselhos das visi-
nhas velhas, ou ellas lhe levarão o filhinho ao cemiterio.
Annuario das Senhoras
1939
Brasil
domingo, agosto 13, 2006
Remédio
Remédio contra a dor de cólica. - Tenho ouvido preco-
nizar diferentes remédios para a dor de cólica, sendo um
deles o chá da casca de pepino e outro o beber bastante
água morna com um fio de azeite, até promover o vómito.
O remédio porém de que tenho presenciado maravilhas,
que é mais simples que qualquer daqueles e que está ao
alcance de qualquer pessoa, consiste em pisar uma cabeça
de alhos e em aplicar esta massa sobre o umbigo do paciente.
Este remédio tão simples, e que se encontra em toda a parte,
produz muitas vezes uma melhora instantânea.
(D. Eufémia Rosa Martins)
ALMANAQUE
fantástico
cómico
científico
realizado por Manuel João Gomes
Lisboa MCMLXXVII
colecção meia-noite
arcádia
nizar diferentes remédios para a dor de cólica, sendo um
deles o chá da casca de pepino e outro o beber bastante
água morna com um fio de azeite, até promover o vómito.
O remédio porém de que tenho presenciado maravilhas,
que é mais simples que qualquer daqueles e que está ao
alcance de qualquer pessoa, consiste em pisar uma cabeça
de alhos e em aplicar esta massa sobre o umbigo do paciente.
Este remédio tão simples, e que se encontra em toda a parte,
produz muitas vezes uma melhora instantânea.
(D. Eufémia Rosa Martins)
ALMANAQUE
fantástico
cómico
científico
realizado por Manuel João Gomes
Lisboa MCMLXXVII
colecção meia-noite
arcádia
sexta-feira, agosto 11, 2006
domingo, agosto 06, 2006
Esther
Esther
par
Jean Racine (1639-1699)
(La scène est à Suse, résidence d'hiver des anciens rois de Perse.
Le roi Assuérus, apres avoir cherché une épouse parmi ses
captives, a couronné une belle Juive, Esther. Malgré la splendeur de la cour, la reine, tout en cachant son origine au roin na jamais oublié sa patrie, Sion, et sachant qu'un ministre
sanguinaire veut arracher au souverain l'ordre d'exterminer
les Juifs, elle fait devant la cour leur éloge et celui de leur dieu.)
Ces Juifs, dont vous voulez délivrer la nature,
Que vous croyez; seigneur; le rebut des humains,
D'une riche contrée autrefois souverains,
Pendant qu'ils n'adoroient que le Dieu de leurs pères,
Ont vu bénir le cours de leurs destins prospères.
Ce Dieu, maître absolu de la terre et des cieux,
N'est point tel que l'erreur le figure à vos yeux:
L 'Eternel est son nom; le monde est son ouvrage;
Il entend les soupirs de l'humble qu'on outrage,
Juge tous les mortels avec d'égales lois,
Et du haut de son trône interroge les rois.
Des plus fermes États la chute épouvantable,
Quand il veut, n'est qu'un jeu de sa main redoutable.
Les Juifs à d'autres dieux osèrent s'adresser:
Roi, peuples, en un jour tout se vit disperser.
Sous les Assyriens, leur triste servitude
Devint le juste prix de leur ingratitude.
Mais, pour punir enfin nos maîtres à leur tour,
Dieu fit choix de Cyrus, avant qu 'il vit le jour,
L'appela par sou nom, le promit à la terre,
Le fit naître, et soudain l'arma de son tonnerre,
Brisa les fiers remparts et les portes d'airain,
Mit des superbes rois la dépouille en sa main,
De son temple détruit vengea sur eux l'injure:
Babylone paya nos pleurs avec usure.
Cyrus, par lui vainqueur, publia ses bienfaits,
Regarda notre peuple avec des yeux de paix,
Nous rendit et nos lois et nos fêtes divines;
Et le temple déjà sortoit de ses ruines.
Mais, de ce roi si sage héritier insensé,
Son fils interrompit l'ouvrage commencé,
Fut sourd à nos douleurs. Dieu rejeta sa race,
Le retrancha 1ui-même, et vous mit en sa place.
Esther, acte IIIe, scène 4me
Lectures Scientifiques et Littéraires Classes de IVe et Ve
J.J. Teixeira Botelho
Livraria Chardronde
Lelo & Irmão Editores
Porto – 1912
par
Jean Racine (1639-1699)
(La scène est à Suse, résidence d'hiver des anciens rois de Perse.
Le roi Assuérus, apres avoir cherché une épouse parmi ses
captives, a couronné une belle Juive, Esther. Malgré la splendeur de la cour, la reine, tout en cachant son origine au roin na jamais oublié sa patrie, Sion, et sachant qu'un ministre
sanguinaire veut arracher au souverain l'ordre d'exterminer
les Juifs, elle fait devant la cour leur éloge et celui de leur dieu.)
Ces Juifs, dont vous voulez délivrer la nature,
Que vous croyez; seigneur; le rebut des humains,
D'une riche contrée autrefois souverains,
Pendant qu'ils n'adoroient que le Dieu de leurs pères,
Ont vu bénir le cours de leurs destins prospères.
Ce Dieu, maître absolu de la terre et des cieux,
N'est point tel que l'erreur le figure à vos yeux:
L 'Eternel est son nom; le monde est son ouvrage;
Il entend les soupirs de l'humble qu'on outrage,
Juge tous les mortels avec d'égales lois,
Et du haut de son trône interroge les rois.
Des plus fermes États la chute épouvantable,
Quand il veut, n'est qu'un jeu de sa main redoutable.
Les Juifs à d'autres dieux osèrent s'adresser:
Roi, peuples, en un jour tout se vit disperser.
Sous les Assyriens, leur triste servitude
Devint le juste prix de leur ingratitude.
Mais, pour punir enfin nos maîtres à leur tour,
Dieu fit choix de Cyrus, avant qu 'il vit le jour,
L'appela par sou nom, le promit à la terre,
Le fit naître, et soudain l'arma de son tonnerre,
Brisa les fiers remparts et les portes d'airain,
Mit des superbes rois la dépouille en sa main,
De son temple détruit vengea sur eux l'injure:
Babylone paya nos pleurs avec usure.
Cyrus, par lui vainqueur, publia ses bienfaits,
Regarda notre peuple avec des yeux de paix,
Nous rendit et nos lois et nos fêtes divines;
Et le temple déjà sortoit de ses ruines.
Mais, de ce roi si sage héritier insensé,
Son fils interrompit l'ouvrage commencé,
Fut sourd à nos douleurs. Dieu rejeta sa race,
Le retrancha 1ui-même, et vous mit en sa place.
Esther, acte IIIe, scène 4me
Lectures Scientifiques et Littéraires Classes de IVe et Ve
J.J. Teixeira Botelho
Livraria Chardronde
Lelo & Irmão Editores
Porto – 1912
segunda-feira, maio 22, 2006
Le Premier Livre des Petites Filles

NE DÉNICHEZ PAS LES OISEAUX
Henri a trouvé un nid sur un arbuste du jar-
din; il est heureux des cris de joie.
Dans ce nid se trouvent quatre jolis petits
chardonnerets, qui levent la tête et font :
cui! cui! cui!
Henri allonge le bras pour s'emparer du
nid; mais sa grande soeur, qui est près
de lui, l'arrête et lui dit doucement :
- Je t'en prie; mon Riri, laisse ces petits
oiseaux: ils sont si heureux, là, dans leur
doux nid pourquoi venir troubler leur
bonheur? Comprends-tu le chagrin de leur mère,
si, tout à l'heure, en leur apportant de la nourriture,
elle ne les retrouvait plus!
Et eux, ces pauvres petits, que devien-
draient-ils, loin de leurs parents? Ils mour-
raient sans doute.
Je sais que nous en prendrions soin;
mais ce ne serait plus la même chose.
Nulle part les ênfants ne sont aussi heu-
reux qu'auprès de leur mère. Nul ne peut
les aimer autant qu'elle. Il en est de même
des petits oiseaux.
Console-toi, mon cher petit frère, nous
viendrons voir souvent ces oiseaux,
et quand ils seront devenus grands, ils
nous récompenseront de notre bon coeur.
Ils nous égayeront en voltigeant sous nos
yeux; ils charmeront nos oreilles par leur
chant, et, en dévorant chaque jour des
milliers d'insectes, de vers, de chenilles,
ils préserveront nos récoltes.
Si l'on détruisait tous les petits oiseaux,
bientôt nos arbres fruitiers seraint mangés
en fleur et nos blés seraient mangés en
herbe.
Devinez ce qu'a fait Henri...? - Il a pris
le nid... Non, il a remercié sa soeur de son
bon conseil et il l'a embrassée de tout son
coeur.
Ce petit garçon est tout à fait raisonnable.
Le Premier Livre des Petites Filles
Clarisse Juranville
Livrairie Larousse

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