~ Capítulo V ~
Durante o trabalho referido, todas as criaturas
do passado, presente e futuro, bem tomo todas
as obras dessas mesmas criaturas, devem
ocultar-se sob a nuvem do esquecimento.
Mas se chegares a esta nuvem do não-saber, para aí fi-
cares a trabalhar como te digo, que hás-de fazer? Assim
como tal nuvem se encontra em cima, entre ti e o teu Deus,
assim deves colocar em baixo uma nuvem de esquecimen-
to, entre ti e todos os seres criados. Talvez penses que estás
muito longe de Deus, porque a nuvem do desconhecimen-
to se encontra entre ti e o teu Deus; no entanto, bem vistas
as coisas, com certeza te encontras bem mais afastado
d'Ele, quando não há nenhuma nuvem de esquecimento
entre ti e todos os seres criados. Quando digo "todos os
seres criados", refiro-me não só às próprias criaturas, mas
também a todas as suas obras e propriedades. Não excluo
nenhuma criatura, quer seja material ou espiritual, como
também não excluo nenhuma propriedade ou obra das cria-
turas, quer sejam boas ou más. Numa palavra, todas as coi-
sas se devem ocultar sob a nuvem do esquecimento.
De facto, embora às vezes seja muito útil pensar em
determinadas propriedades e certos actos de algumas cria-
turas em especial, todavia isso de pouco ou nada vale para o
trabalho de que falo aqui. Porque trazer na memória ou
no pensamento alguma criatura que Deus tenha feito, ou
ainda qualquer uma das suas acções, constitui uma espécie
de luz espiritual: para ela se abrem os olhos da alma, que
até mesmo a fixam, como fazem os olhos do archeiro em
relação ao alvo para que dispara. E uma coisa te digo: tudo
aquilo em que pensas está por cima de ti, no momento de o
pensares, interpondo-se entre ti e o teu Deus, e assim tu
estás longe d'Ele na mesma proporção em que houver na
tua mente alguma coisa mais para além d'Ele.
Sim!, e se tanto for possível afirmar com reverência,
direi que para o trabalho em questão de pouco ou nada adi-
anta chamar ao pensamento a bondade ou a dignidade de
Deus, Nossa Senhora, os santos, os anjos do Céu, ou ainda
as alegrias celestes; melhor dizendo, não interessa que
prestes especial atenção a tudo isso, como se quisesses nu-
trir e intensificar assim o teu propósito. Creio que, no caso
do nosso trabalho, jamais alcançarias tal efeito. Porque,
embora seja bom pensar na bondade de Deus, e amá-Io e
louuvá-Io por essa mesma bondade, e contudo muito me-
lhor pensar no próprio ser nu de Deus, e amá-Lo e lou-
vá-Lo por Ele mesmo.
A Nuvem do Não-Saber
Anónimo do século XIV
Tradução de Lino Correia Marques de Miranda Moreira
Editora Vozes
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quinta-feira, agosto 16, 2007
segunda-feira, agosto 13, 2007
acreditas?

http://www.identitytheory.com/interviews/birnbaum179.php
RICHARD FORD
CREIO NA REDENÇÃO PELA ARTE
.......................................................
Vendo-o à janela, com o seu olhar desencantado e solene recain-
do sobre a beleza cristalina da América, pareceu-me uma personifica-
ção do próprio país. A energia do sorriso e a vontade de enfrentar daí
a pouco um tema tão inesperado quanto fundamental demonstravam
até que ponto ele era o primeiro a ter consciência disso.
- Então, queres começar? - antecipou-se; depois, sentou-se numa
poltrona de onde podia continuar a ver a janela. - Preparei-me.
Vamos então directamente ao assunto; acreditas em Deus, Richard?
Não.
Nunca acreditaste?
Nada disso: fui educado religiosamente e até aos vinte e um anos
frequentei regularmente a igreja.
Fala-me da tua educação familiar.
Sou metade irlandês e metade índio, mas, no que diz respeito à
religião, a educação foi protestante. Os Ford provêm de uma região
meridional do Ulster, uma zona de conflitos acesos e violentos. Um
dos meus bisavôs era um reverendo e os meus pais eram ambos muito
religiosos. A minha mãe foi educada numa escola de freiras católicas e
manteve toda a vida uma relação muito intensa com essa realidade.
Apesar disso, fui educado segundo os ditames da tradição presbiteria-
na e, quando era criança, no Mississippi, para além da missa de domin-
go, ia a uma outra às quartas-feiras e fazia parte do coro.
Depois, que aconteceu?
Comecei a sentir um desconforto crescente: parecia-me perpetuar
unicamente rituais mecânicos. A religião não me dava nada.
Não te parece que a religião também é dar; e não apenas receber?
Claro, mas acho que receber ou sentir qualquer coisa que muda a
existência representa, de qualquer forma, um aspecto imprescindível.
No que me diz respeito, não senti o salto que a fé me deveria oferecer,
mas apenas um rito vazio e privado de sentido.
Quando se deu a mudança?
Tenho uma recordação precisa: tinha vinte e um anos e estava na
faculdade, no Michigan. Ia a caminho da igreja quando, de repente,
perguntei a mim próprio que sentido fazia aquilo. Senti um misto de
rebelião e desilusão. Esse momento, que até hoje classifico como o fim
de uma frustração, coincidiu com a decisão de me tornar escritor.
Podemos dizer que a tua religião é a escrita?
Sim, absolutamente, e devo sublinhar que as duas escolhas estão
estreitamente ligadas. Lembro-me com clareza da sensação de tentar
por todas as formas, desde pequeno, procurar todas as oportunidades
para acreditar. . .
Isso que descreves testemunha uma aspiração.
E é, e foi apagada pela escrita.
O que representa a morte, para ti?
O fim. Espero não me dar conta, nesse momento, de ter errado em
tudo. Mas, fosse como fosse, seria demasiado tarde.
A religião ensina que nunca é tarde de mais.
Não posso esconder que uma parte de mim diz isso a mim pró-
prio. Mas não é um assunto que me ocupe: a minha religião e a minha
razão de viver estão na arte. Há uma frase de Wallace Stevens que
tenho sempre em mente: -Nos períodos em que a crença desponta, o
desafio do poeta consiste em satisfazer a fé em métrica e estilo».
Mas trata-se de uma ilusão, ou de algo real ou salvífico?
Acredito na redenção pela arte, e gostava de citar também uma
passagem maravilhosa da Carta aos Hebreus: «A fé é garantia das coisas
que se esperam e certeza daquelas que não se vêem.» No meu caso, a
arte, e em particular a escrita, deram um sentido a toda a minha exis-
tência. Enquanto não fiz esta descoberta e, consequentemente, a esco-
lha de ser um artista, sentia que faltava qualquer coisa, tanto no plano
mundano como no plano espiritual.
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acreditas?
conversas sobre Deus e a religião
Antonio Monda
Lucerna
sábado, julho 08, 2006
Evangelho de Judas
Visão de Judas da grande casa
Judas disse: “Mestre,
da maneira como escutaste a todos,
escuta-me, agora, a mim, pois tive
uma grande visão (horoma)”, Jesus,
ao ouvi-lo, riu-se e
disse-lhe: “Por que te esforças (gymnazein)
tanto, tu, espírito décimo terceiro?
Fala, pois, que eu te escuto”,
E disse Judas:”Vi-me a mim próprio na visão
em que os doze discípulos
me apedrejavam....
...”Fui para outra geração grande
e santa”. E disseram-lhe
os seus discípulos:
“Senhor, qual é a geração grande
e santa que nos supera
e que não está neste éon?”. Então,
Jesus quando escutou isto,
riu-se e disse-lhes:”Por que pensais no vosso
coração sobre a geração
poderosa e santa? Em verdade vos digo
que ninguém deste éon
verá aquela [geração]...
Conversa com os discípulos
Eis que um dia na Judeia
se dirigia aos seus discípulos
e encontrou-os sentados
e reunidos praticando (gymnazô)
a piedade. Quando
se encontrou com os seus discípulos
reunidos e sentados celebrando
a eucaristia (eucharistia) sobre o pão, ele riu-se.
Então, os discípulos disseram-lhe:
“Mestre, por que te ris da
eucaristia? O que fazemos
está bem”. Ele respondeu-lhes,
dizendo: “Não me rio de vós.
Mas vós não fazeis isto
por vossa vontade, mas sim porque
nisto o vosso Deus é louvado”.
Evangelho de Judas
Tradução de Luís Filipe Sarmento
Revisão científica e tradução de António de Macedo
Ésquilo
Judas disse: “Mestre,
da maneira como escutaste a todos,
escuta-me, agora, a mim, pois tive
uma grande visão (horoma)”, Jesus,
ao ouvi-lo, riu-se e
disse-lhe: “Por que te esforças (gymnazein)
tanto, tu, espírito décimo terceiro?
Fala, pois, que eu te escuto”,
E disse Judas:”Vi-me a mim próprio na visão
em que os doze discípulos
me apedrejavam....
...”Fui para outra geração grande
e santa”. E disseram-lhe
os seus discípulos:
“Senhor, qual é a geração grande
e santa que nos supera
e que não está neste éon?”. Então,
Jesus quando escutou isto,
riu-se e disse-lhes:”Por que pensais no vosso
coração sobre a geração
poderosa e santa? Em verdade vos digo
que ninguém deste éon
verá aquela [geração]...
Conversa com os discípulos
Eis que um dia na Judeia
se dirigia aos seus discípulos
e encontrou-os sentados
e reunidos praticando (gymnazô)
a piedade. Quando
se encontrou com os seus discípulos
reunidos e sentados celebrando
a eucaristia (eucharistia) sobre o pão, ele riu-se.
Então, os discípulos disseram-lhe:
“Mestre, por que te ris da
eucaristia? O que fazemos
está bem”. Ele respondeu-lhes,
dizendo: “Não me rio de vós.
Mas vós não fazeis isto
por vossa vontade, mas sim porque
nisto o vosso Deus é louvado”.
Evangelho de Judas
Tradução de Luís Filipe Sarmento
Revisão científica e tradução de António de Macedo
Ésquilo
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