Última vontade
Não sei como começar a contar-lhe, caro leitor, o desaire que me afligiu há uns meses atrás, em pleno Verão lisboeta - quando andava mergulhado, até à medula, na Vida e Obra do Dr. Begónio Turreiro, romancista.
Precisava, mais do que nunca, de concentração e calma. Assim não acontecetu. Começei a ficar com os nervos num molho de brócolos ao aperceber-me de que fora um erro, um grave erro aceitar escrever a biografia do dito Begónio. Ainda por cima, a pouco e pouco, descobrira que a vida e obra do Begónio eram duma nulidade confrangedora.
Arrependi-me mil vezes de o ter feito, claro. Mas, a verdade é que, na altura, as finanças estavam nas lonas, além de poder assinar a obra com um pseudónimo. Ninguém daria por isso, ou não vivêssemos num país de pseudónimos.
Deixemos isto, que não tem especial interesse para o desenrolar dos acontecimentos, e peço-lhe, caro leitor, que regresse comigo àquela noite do defunto mês de Agosto.
Lisboa dormitava debaixo de um calor húmido, peganhento. Eu estivera a trabalhar na biografia até altas horas, sem grandes resultados. Bebera café e mais café para me manter acordado e minimamente lúcido - embora o sono e o cansaço já me fechassem os olhos. O que me apetecia, a sério, era sair e ir ao Frágil beber uma cerveja. Mantive- me firme, apesar de, uma vez mais, ter chegado à conclusão que a biografia não andava nem desandava. Uma coisa sem jeito nem trambelho. E a cerveja continuava a fazer-me crescer a sede. Mas resisti.
Pelas quatro da manhã atirei com a papelada para um canto e fui deitar-me com a cerveja atravessada no pensamento.
Dormi mal, lembro-me, em sobressalto. Transpirei muito. E no dia seguinte levantei-me com a cabeça a latejar - como convém a um honesto escritor de biografias.
Arrastara-me para fora da cama como quem se levanta da tumba. Olhara as folhas escritas, com asco. Doía-me o ombro direito. Uma dor aguda e intermitente.
Estremunhado, fui abrir a janela e tive, nesse preciso instante, um pensamento singular: "Esta dor no ombro... vai crescer-me, aqui, uma asa."
Abanei violentamente a cabeça e sorri. Dirigi-me para a casa de banho. De repente, sussurrei comigo mesmo: "Estás a passar-te. Uma asa?" Meti-me na banheira. Ali permaneci duas horas em estado de entorpecimento total, enfiado na água até ao queixo.
A dor sumiu-se, e com ela a derradeira esperança de alguma vez me crescer uma asa. Saltei do banho depois da água se ter escoado por completo.
Foi quando tocaram à porta.
Primeiro ouvi a campainha retinir dentro de mim, como um estremecimento de sangue. Pensei que estava doente, mas, logo de seguida, mais três campainhadas fizeram-me vestir o roupão e correr para a porta.
Abri a porta com um esticão.
O carteiro, o Sr. Rebite Neves, estendeu-me umas quantas cartas e uma encomenda. Esboçou um esgar que pretendia ser um sorriso amável, tartamudeou qualquer coisa sobre o calor e o lixo que se acumulara com a greve e desapareceu.
Meti as cartas na algibeira do roupão. Fechei a porta devagarinho. Verifiquei que a encomenda era enviada pela minha irmã.
Quando voltei à casa de banho, para acabar de me barbear e vestir, atirei as cartas e a encomenda para cima da mesa.
Comi qualquer coisita. Não tinha fome. Nunca tenho fome quando acabo de me levantar, e ainda por cima com aquele calor... só me apetecia café e cigarros, muitos cigarros.
Depois, sentei-me perto da janela aberta.
Lisboa recortava-se, como um cenário de filme, contra o verde sujo do rio.
Resolvi, então, abrir a correspondência.
Nenhuma surpresa. Dois convites para exposições, uma de pintura e outra de fotografia. Uma carta do Zé Tolas a dizer que estava na Zambujeira - e eu aqui, com este calor! - a passar uns dias e que o ambiente era bué de fixe e pim e blá-blá e etc. prà carola no Clube da Praia e no Fresco, mais umas quecas...
Abri, com vagar, a encomenda da minha irmã. Era uma caixa de tabaco para cachimbo Flying Man, e uma carta. Pus a carta de lado e andei, excitadíssimo, pela casa toda, abrindo e fechando gavetas, à procura do cachimbo.
Encontrei-o, por fim, debaixo de uns bilhetes postais e mais tranquitana sem nome. Enchi-o e fumei, deliciado. O tabaco picou-me a garganta. Não me importei, era a falta de hábito. Há muito que deixara de fumar cachimbo e passara aos três maços de Suave filtro.
Voltei a sentar-me perto da janela, esfumaçando, e abri o último envelope. Uma carta que eu escrevera à Teresa, e vinha devolvida, não sei bem porquê. A Teresa, que eu soubesse, não tinha mudado de casa e o endereço estava correcto.
Ela tinha-me pedido, pelo telefone, que a ajudasse a organizar a casa. Dissera que não percebia nada de tarefas domésticas, nem sentia qualquer vocação para dona de casa. Resolvi enviar-lhe, na altura, o plano que se segue:
Serviço Doméstico / Horário e Funções
Manhã: Pôr a mesa para o pequeno-almoço e servi-lo. Dar de comer e água às galinhas. Pôr a cozer a carne do Conon. Tirar a roupa da máquina de lavar e pô-la a secar, semrpe do avesso. Arrumar os quartos: limpar o pó, fazer a cama, aspirar, despejar cinzeiros. Limpar a casa de banho. Fazer o almoço e servi-lo.
Atenção: As camisas devem ser postas a secar na marquise, em cabides, sempre do avesso.
Tarde: Lavar a loiça e arrumar a cozinha. Passar a ferro. Varrer o terraço, as escadas e a entrada. Arrumar e aspirar: salas de jantar e estar, hall, e corredores. Limpar o pó: mesas, cadeiras, estantes, armários, parapeitos, chaminés, rodapés, maples, sofás.
Engraxar os sapatos.
Periodicamente: Encerar 1 vez por mês (não esquecer de tirar os tapetes, carpetes e passadeiras). Lavar os vidros de 15 em 15 dias. Regar as flores dos vasos e floreiras das janelas 1 vez por semana. Lavar as jarras de flores às sextas-feiras. Limpar as teias de aranha 1 vez por mês, ou de 15 em 15 dias, em toda a casa, incluindo entrada, marquise e terraço. Lavar a marquise e limpar parapeitos de 15 em 15 dias.
Limpeza geral à cozinha 1 vez por mês.
Observações: Verificar se não fica roupa lá fora, ao anoitecer. Fechar portas e janelas. Apagar as luzes. Deixar a lareira acesa nos meses de Inverno. Quando há visitas, deixar a mesa posta para o jantar ou para o pequeno-almoço.
Ainda hoje acho que a Teresa não gostou do meu plano. Se calhar, foi por isso mesmo que o devolveu. Nunca o saberei, não voltámos a falar do assunto. Mas, pelo que sei, continua a viver numa grande desorganização... é lá com ela! Enquanto relia a carta da Teresa continuara a encher o cachimbo e a fumar. O tabaco ainda me picava na garganta, mas agora com menos intensidade. De qualquer maneira, tinha sido uma óptima ideia a minha irmã ter mandado a caixa de Flying Man. É que, por instantes, vieram- me à cabeça os mais disparatados acontecimentos da minha adolescência.
Entre muitos, recordo aquele em que o cachimbo tinha sido uma mania. Tinha dezasseis anos, queria ser escritor. Achava que o cachimbo me dava um ar sério, circunspecto, altivo. Mas veio o dia em que me fartei daquela gergonça sempre pendurada na boca e desatei a fumar cigarros - o que não me impediu de realizar aquele desejo adolescente e de me encontrar na triste situação em que me encontro: biógrafo de gente sem tempero.
Lembrara-me, também, daquela vez que a Tininha Albuquerque quis beijar-me e eu, num desatino, me esquecera de tirar o cachimbo.
Resultado: uma atrapalhação. Brasas, cabelos de Albuquerque chamuscados, guinchos da Tininha... enfim, o namoro acabado. E ainda bem. Nunca gostei muito da Tininha.
Vi a carta, por abrir, da minha irmã. Senti um prazer especial em não a ler, em não saber ainda o que ela me contava. Recostei-me na cadeira, enchi outra vez o cachimbo e fumei o resto da manhã, com Lisboa nos olhos e a memória agitada por longínquas aventuras adolescentes.
Por volta das duas da tarde recomecei a trabalhar na biografia do Begónio.
Interrompi, a dado momento, o que estava a escrever para consultar o caderno de notas. Abri-o e li: "(...) coitado do Begónio, a úlcera não lhe dá descanso, não o larga - como ele também não larga o boné de basebol vermelho que enterra na cabeça, como um tonto, até ao nariz. Talvez pense que o boné lhe dá um ar suficientemente moderno, ou coisa assim. O Begónio anda a redigir um romance erótico O Pinguim Cor-de-Rosa."
Fechei o caderno, nauseado. Francamente, onde é que eu estava metido? O Pinguim Cor-de-Rosa? Valha-me São Freud...
Tentei serenar o ânimo. Depois, subitamente, ocorreu-me ter anotado umas quantas frases que ouvira a um amigo íntimo do biografado. Pensei que talvez me ajudassem. Procurei-as e logo me arrependi de as ter encontrado: "O Begónio arrasta de proa, abava a palhinha. O maricas afrancesado e..."
Desisti. Larguei a canenta e o caderno de notas, empurrei tudo para longe da minha vista e fui a correr buscar mais café.
Agarrei na carta da minha irmã, mas não a abri. Enchi o cachimbo. Deviam ser quatro, quatro e meia da tarde.
Lisboa turvava-se com a neblina azulada que subia do rio. Fiquei de chávena na mão, um tempo sem fim. E fui pensando coisas horríveis, formas de abate, sobre o estuporado do Begónio. Amaldiçoei-o a meia voz, como se rezasse. Por fim, encolhi os ombros. Fumei, bebi café, enquanto Lisboa se acendia ao lusco-fusco. De repente, pensei que a melhor forma de abater o Begónio era desistir da biografia encomendada. Foi o que fiz.
Mas voltemos ao que interessa. Naquele fatídico dia de Agosto ninguém me visitara, ninguém telefonara. Pelas sete e meia saí para jantar. Mas voltei para casa, logo a seguir, com a firme intenção de fazer a última tentativa para escrever a biografia.
Só consegui fumar e espiar, de vez em quando, a carta por abrir. Quando percebi que tinha fumado o Flying Man todo andei, deseperado, à procura de cigarros. Atirei de vez com a biografia para o cesto dos papéis. Acendi um cigarro. Instalei-me comodamente no sofá, ao fundo da sala. Abri a carta da minha irmã que passo a ler-vos, agora, em voz alta:
Meu querido irmão,
Encontrei esta caixa de Flying Man e pensei que gostarias de a ter. Estava na arrecadação, dentro duma mala com livros. No sótão, onde arrumaste tudo o que era teu antes de partires para Lisboa. Meteste-a na mala, de certeza, quando deixaste de fumar cachimbo, depois daquela cena com a Tininha Albuquerque. Lembras-te?
Por aqui as coisas vão andando mais ou menos. A mãe tem estado benzinho, e as tias estão, é claro, cada vez mais velhas. Parecem ter-se perdido numa idade sem algarismos, só de rugas. Lá continuam a roer as mesmas bolachas e a ir, aos domingos, ao cemitério. Fazem renda e remendam toalhas e lençóis, como sempre fizeram, para matar o tempo.
E agora o pior, querido irmão.
O pai, como sabias, andava muito mal. Não te quis dizer nada, para não te preocupar. Aí, tão longe, de qualquer modo, nada podias remediar.
O pai morreu na madrugada do dia 2 de Julho último. Morreu serenamente, lúcido até ao último segundo.
Como deves saber, exigiu que fosse cremado. Ele já te tinha falado nessa sua última vontade.
Lá andámos aflitas, eu e a mão, para conseguir a autorização. Tudo se resolveu sem grandes sobressaltos. Enfim, as tias é que ficaram muito impressionadas e, também, desgostosas. Para elas foi uma sepultura a menos para visitar.
Uma tarde desta semana abrimos o testamento. Nada de especial, o pai não tinha grande coisa. Estivemos todas reunidas para o acto e elas voltaram a desfazer-se em lágrimas.
Passo por cima dos detalhes e excessivas minúcias do testamento que, quando vieres de férias, tu mesmo verás. No entanto, anexo ao testamento havia uma pequena lista de últimas vontades. Tentámos cumpri-las com rigor. De resto, nada que não se pudesse executar.
Numa delas, o pai queria que fosses tu a guardar as suas cinzas. És o primogénito. notura, pediu que se continuasse a pôr, diariamente, a cadeira de baloiço debaixo da palmeira, perto do terraço, onde ele se sentava ao entardecer. Enfim, assim temos feito todos os dias.
Quanto às suas cinzas - quase me esquecia de te dizer -, como ia mandar-te a caixa de Flying Man aproveitei e misturei-as com o tabaco. Guarda-as preciosamente, o pai era um homem bom.
Beija-te, saudosa, tua irmã
Mila
Al Berto, O Esconderijo do Homem Triste, "VER", Círculo
de Leitores, Lisboa, Primavera 1992, N' 18, pp. 62-63
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quinta-feira, julho 19, 2007
terça-feira, junho 19, 2007
António Lobo Antunes
SEXTA-FEIRA
Testemunha Alice F., governanta na estalagem de Aveiro e resi-
dente na mesma, em Aveiro. Prestou juramento e aos costumes
disse nada. Inquirida disse: Que na terça-feira dez de Fevereiro,
entre as dezasseis e as dezassete horas, se encontrava no seu
posto de trabalho a explicar a nota de conta a um casal de ingleses
idosos e a vigiar o transporte da bagagem para o automóvel alu-
gado em que estes tinham vindo, quando entrou repentinamente
no vestíbulo uma criança do sexo masculino, de cerca de doze
anos de idade, filho da cozinheira da pousada, a qual, num estado
de extrema agitação, empurrou a inglesa com o cotovelo sujo e
gritou à depoente «Dona Alice venha ver o que ali está". Como
a depoente a admoestasse com severidade da sua ausência de
educação e do seu total e completo desrespeito pela indústria
turística, consubstanciada, no caso vertente, na pessoa da britânica
macróbia, cuja conduta se pautava aliás sempre, como é hábito
nessas ilhas, dentro dos parâmetros da mais perfeita educação,
a criança lançou violentamente ao solo uma armação de arame
pintado de branco, repleta de lindos postais ilustrados de curio-
sos rincões da nossa formosa terra tais como Monsaraz e outros,
e berrou, numa exaltação incontrolável, «Deixe-se de sermões sua
cabra que está um homem morto acolá no meio da areia".
António Lobo Antunes
explicação dos pássaros
vega - o chão da palavra
Pág.77
Testemunha Alice F., governanta na estalagem de Aveiro e resi-
dente na mesma, em Aveiro. Prestou juramento e aos costumes
disse nada. Inquirida disse: Que na terça-feira dez de Fevereiro,
entre as dezasseis e as dezassete horas, se encontrava no seu
posto de trabalho a explicar a nota de conta a um casal de ingleses
idosos e a vigiar o transporte da bagagem para o automóvel alu-
gado em que estes tinham vindo, quando entrou repentinamente
no vestíbulo uma criança do sexo masculino, de cerca de doze
anos de idade, filho da cozinheira da pousada, a qual, num estado
de extrema agitação, empurrou a inglesa com o cotovelo sujo e
gritou à depoente «Dona Alice venha ver o que ali está". Como
a depoente a admoestasse com severidade da sua ausência de
educação e do seu total e completo desrespeito pela indústria
turística, consubstanciada, no caso vertente, na pessoa da britânica
macróbia, cuja conduta se pautava aliás sempre, como é hábito
nessas ilhas, dentro dos parâmetros da mais perfeita educação,
a criança lançou violentamente ao solo uma armação de arame
pintado de branco, repleta de lindos postais ilustrados de curio-
sos rincões da nossa formosa terra tais como Monsaraz e outros,
e berrou, numa exaltação incontrolável, «Deixe-se de sermões sua
cabra que está um homem morto acolá no meio da areia".
António Lobo Antunes
explicação dos pássaros
vega - o chão da palavra
Pág.77
sábado, maio 19, 2007
António Lobo Antunes
As coisas da vida
Não te preocupes comigo porque eu sabia que as coisas não podiam durar sempre. Não foste feita para viver em duas asso- alhadas com um escritor que não escreve, para tomar banho de água gelada porque a companhia do gás não fia, para aturar as má-criações do senhorio porque me atrasei na renda. Não te preocupes comigo: compreendo que te vás embora, não armo escândalos, não te peço que fiques, Claro que me custa um bocadinho, ao princípio vou sentir a tua falta, nos primeiros tempos, em chegando as sete horas, ao ouvir os passos no pata- mar hei-de correr até à porta - É a Teresa e afinal não é a Teresa, é o vizinho do lado esquerdo com um saco do supermercado em cada mão, o vizinho a escapar ao meu abraço julgando que eu enlouqueci e eu a recuar aflitíssimo - Desculpe senhor Vasconcelos tomei-o por outra pessoa o vizinho a aconselhar-me com maus modos que deixe de beber e a aferrolhar-se em casa com medo que eu apareça para o beijar tratando-o por amor. Mas não te preocupes comigo: daqui a seis meses estou fino, daqui a seis meses já comecei o romance e consegui um empréstimo do editor, daqui a seis meses garanto-te, tenho a certeza que me esqueço de ti. No início estas coisas parecem sempre horríveis e depois à medida que a gente se habitua vamos tendo menos vontade de chorar, vamos recomeçando a interessar-nos por atentados à bomba e divórcios de princesas que são os dois tipos de catástrofes que mais nos apaixonam no jornal, deixamos de aborrecer os ami- gos com telefonemas a desoras e um belo dia (é a vida) damos por nós a assobiar ao espelho durante a barba da manhã, se alguém nos pergunta no café
António Lobo Antunes
Livro de Crónicas
Uma carta de Campo de Ourique
Pág. 229
Publicações D.Quixote 2ª edição 1998
Não te preocupes comigo porque eu sabia que as coisas não podiam durar sempre. Não foste feita para viver em duas asso- alhadas com um escritor que não escreve, para tomar banho de água gelada porque a companhia do gás não fia, para aturar as má-criações do senhorio porque me atrasei na renda. Não te preocupes comigo: compreendo que te vás embora, não armo escândalos, não te peço que fiques, Claro que me custa um bocadinho, ao princípio vou sentir a tua falta, nos primeiros tempos, em chegando as sete horas, ao ouvir os passos no pata- mar hei-de correr até à porta - É a Teresa e afinal não é a Teresa, é o vizinho do lado esquerdo com um saco do supermercado em cada mão, o vizinho a escapar ao meu abraço julgando que eu enlouqueci e eu a recuar aflitíssimo - Desculpe senhor Vasconcelos tomei-o por outra pessoa o vizinho a aconselhar-me com maus modos que deixe de beber e a aferrolhar-se em casa com medo que eu apareça para o beijar tratando-o por amor. Mas não te preocupes comigo: daqui a seis meses estou fino, daqui a seis meses já comecei o romance e consegui um empréstimo do editor, daqui a seis meses garanto-te, tenho a certeza que me esqueço de ti. No início estas coisas parecem sempre horríveis e depois à medida que a gente se habitua vamos tendo menos vontade de chorar, vamos recomeçando a interessar-nos por atentados à bomba e divórcios de princesas que são os dois tipos de catástrofes que mais nos apaixonam no jornal, deixamos de aborrecer os ami- gos com telefonemas a desoras e um belo dia (é a vida) damos por nós a assobiar ao espelho durante a barba da manhã, se alguém nos pergunta no café
António Lobo Antunes
Livro de Crónicas
Uma carta de Campo de Ourique
Pág. 229
Publicações D.Quixote 2ª edição 1998
quinta-feira, agosto 17, 2006
Marguerite Yourcenar
(Continuação)
de quem se desvia como de uma repelente macaca;
cospe à passagem da mulher do pope, que cho-
rou dois meses até se conformar. As Ninfas en-
tonteceram-no para melhor o enredarem nos
seus jogos, como uma espécie de fauno ino-
cente. Deixou de trabalhar; pouco lhe importam
os dias e os meses; fez-se mendigo, e por isso
come quase sempre até fartar. Erra pelos cam-
pos, evitando o mais possível os caminhos con-
corridos, mete-se pelas matas de pinhais no
meio das colinas desertas e diz-se que uma flor
de jasmim pousada num muro de pedra seca,
um seixo branco aos pés de um cipreste são
mensagens em que ele decifra a hora e o local
do próximo encontro com as fadas. Os campo-
neses pretendem que não há-de envelhecer:
como todos aqueles que a má sorte atingiu, há-
-de extinguir-se sem que se saiba se tem dezoito
anos ou quarenta. Mas tremem-lhe os joelhos,
o espírito deixou-o para não mais voltar, e
nunca mais a palavra tornará a nascer-lhe nos
lábios; já Homero sabia que aqueles que dor-
mem com as deusas de ouro vêem consumir-se-
-lhes a inteligência e a força. Mas eu invejo Pa-
negyotis. Saiu do mundo dos factos para entrar
no das ilusões, e acontece-me pensar que a ilu-
são é talvez a forma que as realidades mais se-
cretas adquirem aos olhos do comum.
- Mas afinal o João não acha - disse a se-
nhora Demetriadis um tanto irritada - que Pa-
negyotis viu realmente as Nereidas?
João Demetriadis não respondeu, tão ab-
sorto estava em soerguer-se na cadeira para
responder ao cumprimento altivo de três es-
trangeiras que ali passavam. Aquelas três jo-
vens americanas, cingidas nos seus vestidos
de linho branco, avançavam com passo leve
no cais inundado de sol, seguidas de um ve-
lho carregador dobrado ao peso das compras
feitas no mercado; e, como três meninas à
saída da escola, andavam de mão dada. Uma
delas ia de cabeça descoberta, com a cabe-
leira ruiva salpicada de raminhos de mirto,
mas a segunda levava um enorme chapéu de
algodão à volta da cabeça, à maneira das
camponesas, e uns óculos de sol com lentes
escuras protegiam-na como uma máscara.
Aquelas três mulheres haviam-se estabelecido
na ilha, onde tinham comprado uma casa,
longe das casas principais: de noite, pescavam
a bordo do seu próprio barco, armadas com
um tridente, e, no Outono, iam à caça das co-
dornizes; não se davam com ninguém e elas
próprias faziam o serviço da casa, receando
introduzirem alguma criada na intimidade da
sua existência; numa palavra, isolavam-se fe-
rozmente para evitar as más-línguas, prefe-
rindo-lhes talvez as calúnias. Em vão tentei
interceptar o olhar que Panegyotis lançou
àquelas três deusas, mas os seus olhos dis-
traídos mantinham-se vagos e apagados: ma-
nifestamente não reconhecia as suas Nereidas
vestidas de mulher. De repente, num movi-
mento ágil e quase animal, inclinou-se para
apanhar outro dracma que caíra de um dos
nossos bolsos, e eu vi, agarrado ao pêlo gros-
seiro do dólman que lhe pendia do ombro e
uma fivela prendia aos suspensórios, o único
objecto capaz de fornecer uma prova impon-
derável à minha convicção: o fio sedoso, o
subtil fio, o fio perdido de um cabelo loiro.
Fim
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
Publicações D. Quixote
de quem se desvia como de uma repelente macaca;
cospe à passagem da mulher do pope, que cho-
rou dois meses até se conformar. As Ninfas en-
tonteceram-no para melhor o enredarem nos
seus jogos, como uma espécie de fauno ino-
cente. Deixou de trabalhar; pouco lhe importam
os dias e os meses; fez-se mendigo, e por isso
come quase sempre até fartar. Erra pelos cam-
pos, evitando o mais possível os caminhos con-
corridos, mete-se pelas matas de pinhais no
meio das colinas desertas e diz-se que uma flor
de jasmim pousada num muro de pedra seca,
um seixo branco aos pés de um cipreste são
mensagens em que ele decifra a hora e o local
do próximo encontro com as fadas. Os campo-
neses pretendem que não há-de envelhecer:
como todos aqueles que a má sorte atingiu, há-
-de extinguir-se sem que se saiba se tem dezoito
anos ou quarenta. Mas tremem-lhe os joelhos,
o espírito deixou-o para não mais voltar, e
nunca mais a palavra tornará a nascer-lhe nos
lábios; já Homero sabia que aqueles que dor-
mem com as deusas de ouro vêem consumir-se-
-lhes a inteligência e a força. Mas eu invejo Pa-
negyotis. Saiu do mundo dos factos para entrar
no das ilusões, e acontece-me pensar que a ilu-
são é talvez a forma que as realidades mais se-
cretas adquirem aos olhos do comum.
- Mas afinal o João não acha - disse a se-
nhora Demetriadis um tanto irritada - que Pa-
negyotis viu realmente as Nereidas?
João Demetriadis não respondeu, tão ab-
sorto estava em soerguer-se na cadeira para
responder ao cumprimento altivo de três es-
trangeiras que ali passavam. Aquelas três jo-
vens americanas, cingidas nos seus vestidos
de linho branco, avançavam com passo leve
no cais inundado de sol, seguidas de um ve-
lho carregador dobrado ao peso das compras
feitas no mercado; e, como três meninas à
saída da escola, andavam de mão dada. Uma
delas ia de cabeça descoberta, com a cabe-
leira ruiva salpicada de raminhos de mirto,
mas a segunda levava um enorme chapéu de
algodão à volta da cabeça, à maneira das
camponesas, e uns óculos de sol com lentes
escuras protegiam-na como uma máscara.
Aquelas três mulheres haviam-se estabelecido
na ilha, onde tinham comprado uma casa,
longe das casas principais: de noite, pescavam
a bordo do seu próprio barco, armadas com
um tridente, e, no Outono, iam à caça das co-
dornizes; não se davam com ninguém e elas
próprias faziam o serviço da casa, receando
introduzirem alguma criada na intimidade da
sua existência; numa palavra, isolavam-se fe-
rozmente para evitar as más-línguas, prefe-
rindo-lhes talvez as calúnias. Em vão tentei
interceptar o olhar que Panegyotis lançou
àquelas três deusas, mas os seus olhos dis-
traídos mantinham-se vagos e apagados: ma-
nifestamente não reconhecia as suas Nereidas
vestidas de mulher. De repente, num movi-
mento ágil e quase animal, inclinou-se para
apanhar outro dracma que caíra de um dos
nossos bolsos, e eu vi, agarrado ao pêlo gros-
seiro do dólman que lhe pendia do ombro e
uma fivela prendia aos suspensórios, o único
objecto capaz de fornecer uma prova impon-
derável à minha convicção: o fio sedoso, o
subtil fio, o fio perdido de um cabelo loiro.
Fim
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
Publicações D. Quixote
terça-feira, agosto 08, 2006
Marguerite Yourcenar
(Continuação)
Julgou-se descortinar na erva rala leves
vestígios de pés femininos, sítios calcados pelo
peso dos corpos. Imagina-se a cena: as man-
chas de sol na sombra das figueiras, que não
é sombra, mas uma outra forma mais verde e
mais doce da luz; o jovem aldeão posto alerta
por risos e gritos de mulher, qual caçador por
um bater de asas; as divinas raparigas er-
guendo os alvos braços em que a loira penu-
gem intercepta o sol; a sombra de uma folhades
locando-se num ventre nu; um seio claro,
cujo bico se ergue, não violeta mais rosa; os
beijos de Panegyotis devorando aquelas cabe-
leiras que lhe deixam a impressão de masti-
gar o mel; o seu desejo perdendo-se entrea
quelas pernas loiras. Tal como não há amor
sem deslumbramento do coração, tão-pouco
existe verdadeira volúpia sem espanto da be-
leza. O resto será quando muito simples fun-
cionamento maquinal, como a sede e a fome.
As Nereidas abriram ao jovem insensato um
mundo feminino tão diferente das raparigas
da aldeia quanto estas o são das fêmeas do
gado; deram-lhe a embriaguez do desconhe-
cido, a prostração do milagre, as resplenden-
tes malícias da ventura. Pretende-se que
nunca deixou de as encontrar, pelas horas
quentes em que esses belos demónios do
meio-dia vagueiam em busca de amor; dir-se-
-ia ter esquecido o próprio rosto da noiva,
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
Publicações D. Quixote
Julgou-se descortinar na erva rala leves
vestígios de pés femininos, sítios calcados pelo
peso dos corpos. Imagina-se a cena: as man-
chas de sol na sombra das figueiras, que não
é sombra, mas uma outra forma mais verde e
mais doce da luz; o jovem aldeão posto alerta
por risos e gritos de mulher, qual caçador por
um bater de asas; as divinas raparigas er-
guendo os alvos braços em que a loira penu-
gem intercepta o sol; a sombra de uma folhades
locando-se num ventre nu; um seio claro,
cujo bico se ergue, não violeta mais rosa; os
beijos de Panegyotis devorando aquelas cabe-
leiras que lhe deixam a impressão de masti-
gar o mel; o seu desejo perdendo-se entrea
quelas pernas loiras. Tal como não há amor
sem deslumbramento do coração, tão-pouco
existe verdadeira volúpia sem espanto da be-
leza. O resto será quando muito simples fun-
cionamento maquinal, como a sede e a fome.
As Nereidas abriram ao jovem insensato um
mundo feminino tão diferente das raparigas
da aldeia quanto estas o são das fêmeas do
gado; deram-lhe a embriaguez do desconhe-
cido, a prostração do milagre, as resplenden-
tes malícias da ventura. Pretende-se que
nunca deixou de as encontrar, pelas horas
quentes em que esses belos demónios do
meio-dia vagueiam em busca de amor; dir-se-
-ia ter esquecido o próprio rosto da noiva,
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
Publicações D. Quixote
terça-feira, agosto 01, 2006
Marguerite Yourcenar
(Continuação)
Escapavam-se-lhe da boca sílabas sacudidas
como os últimos gorgolejos de uma fonte em agonia:
- As Nereidas... As damas... Nereidas... Be-
las... Nuas... Um portento... Loiras... Cabelos
todos loiros...Foram as únicas palavras que conseguiram
arrancar-lhe. Nos dias seguintes, por diversas
vezes o ouviram repetir baixinho para con-
sigo: "Cabelos loiros... loiros", como se afa-
gasse seda. Depois, mais nada. Os olhos dei-
xaram de brilhar, mas o olhar tornou-se vago
e fixo e adquiriu estranhas propriedades; con-
templa o sol sem pestanejar; talvez se com-
praza a fitar esse objecto tão esplendorosa-
mente loiro. Encontrava-me na aldeia durante
as primeiras semanas do seu delírio: nem fe-
bre, nem o menor sintoma de insolação ou de
um ataque. Os pais levaram-no a um mosteiro
célebre das redondezas para que fosse exor-
cizado: deixou-se conduzir com a brandura
de um cordeiro doente, mas nem as cerimó-
nias da Igreja, nem as fumigações de incenso,
nem os ritos mágicos das velhas da aldeia
conseguiram expulsar-lhe do sangue as loucas
ninfas da cor do sol. Os primeiros dias do seu
novo estado passaram-se num vaivém cons-
tante: voltava incansavelmente ao local onde
se dera a aparição; existe aàuma fonte onde
os pescadores vão por vezes abastecer-se
de água doce, um valezinho cavo, um campo
de figueiras com um carreiro que desce até ao mar.
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
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Escapavam-se-lhe da boca sílabas sacudidas
como os últimos gorgolejos de uma fonte em agonia:
- As Nereidas... As damas... Nereidas... Be-
las... Nuas... Um portento... Loiras... Cabelos
todos loiros...Foram as únicas palavras que conseguiram
arrancar-lhe. Nos dias seguintes, por diversas
vezes o ouviram repetir baixinho para con-
sigo: "Cabelos loiros... loiros", como se afa-
gasse seda. Depois, mais nada. Os olhos dei-
xaram de brilhar, mas o olhar tornou-se vago
e fixo e adquiriu estranhas propriedades; con-
templa o sol sem pestanejar; talvez se com-
praza a fitar esse objecto tão esplendorosa-
mente loiro. Encontrava-me na aldeia durante
as primeiras semanas do seu delírio: nem fe-
bre, nem o menor sintoma de insolação ou de
um ataque. Os pais levaram-no a um mosteiro
célebre das redondezas para que fosse exor-
cizado: deixou-se conduzir com a brandura
de um cordeiro doente, mas nem as cerimó-
nias da Igreja, nem as fumigações de incenso,
nem os ritos mágicos das velhas da aldeia
conseguiram expulsar-lhe do sangue as loucas
ninfas da cor do sol. Os primeiros dias do seu
novo estado passaram-se num vaivém cons-
tante: voltava incansavelmente ao local onde
se dera a aparição; existe aàuma fonte onde
os pescadores vão por vezes abastecer-se
de água doce, um valezinho cavo, um campo
de figueiras com um carreiro que desce até ao mar.
(continua)
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Marguerite Yourcenar
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sexta-feira, julho 21, 2006
Marguerite Yourcenar
(Continuação)
Ora, certa manhã de Julho, houve dois carneiros do pai
de Panegyotis que começaram a andar de roda.
A epidemia não tardou a alastrar às mais be-
las reses do rebanho e o quadrado de terra
batida defronte à casa transformou-se rapi-
damente num pátio para asilar o gado que en-
louquecera. Panegyotis fez-se sozinho à es-
trada, quando o calor apertava, em pleno sol,
em demanda do veterinário que vive na outra
encosta do Monte Santo Elias, numa aldeola
alapada à beira-mar. Pelo sol-pôr ainda não
voltara. A aflição do pai de Panegyotis mudou-
-se dos carneiros para o filho; em vão se ba-
teram os campos e os vales das redondezas;
durante toda a noite as mulheres da família
rezaram na capela da aldeia, que não passa
de um celeiro alumiado por duas dúzias de ve-
las, onde se diria a todo o momento que Ma-
ria vai entrar para deitar Jesus ao mundo. No
dia seguinte, pela tardinha, à hora do des-
canso em que os homens abancam na praça
da aldeia frente a uma minúscula chávena de
café, a um copo de água ou a uma colherada
de compota, viu-se aparecer um Panegyotis
novo, tão diferente como se tivesse passado
pela morte. Tinha os olhos resplandecentes,
mas dir-se-ia que a córnea e a pupila haviam
devorado a íris; nem dois meses de malária o
deixariam tão amarelo; um sorriso um tanto
repulsivo deformava-lhe os lábios, que já não
articulavam palavra alguma. Porém, não es-
tava ainda completamente mudo
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
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Ora, certa manhã de Julho, houve dois carneiros do pai
de Panegyotis que começaram a andar de roda.
A epidemia não tardou a alastrar às mais be-
las reses do rebanho e o quadrado de terra
batida defronte à casa transformou-se rapi-
damente num pátio para asilar o gado que en-
louquecera. Panegyotis fez-se sozinho à es-
trada, quando o calor apertava, em pleno sol,
em demanda do veterinário que vive na outra
encosta do Monte Santo Elias, numa aldeola
alapada à beira-mar. Pelo sol-pôr ainda não
voltara. A aflição do pai de Panegyotis mudou-
-se dos carneiros para o filho; em vão se ba-
teram os campos e os vales das redondezas;
durante toda a noite as mulheres da família
rezaram na capela da aldeia, que não passa
de um celeiro alumiado por duas dúzias de ve-
las, onde se diria a todo o momento que Ma-
ria vai entrar para deitar Jesus ao mundo. No
dia seguinte, pela tardinha, à hora do des-
canso em que os homens abancam na praça
da aldeia frente a uma minúscula chávena de
café, a um copo de água ou a uma colherada
de compota, viu-se aparecer um Panegyotis
novo, tão diferente como se tivesse passado
pela morte. Tinha os olhos resplandecentes,
mas dir-se-ia que a córnea e a pupila haviam
devorado a íris; nem dois meses de malária o
deixariam tão amarelo; um sorriso um tanto
repulsivo deformava-lhe os lábios, que já não
articulavam palavra alguma. Porém, não es-
tava ainda completamente mudo
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
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Marguerite Yourcenar
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sábado, julho 08, 2006
Marguerite Yourcenar
O homem que amou as sereias
(Continuação)
Os nossos fantasmas não se assemelham aos
vossos espectros do Norte, que saem só à
meia-noite e se abrigam de dia nos cemitérios.
Não se dão ao cuidado de se cobrirem com
lençóis e têm o esqueleto coberto de carne.
Mas são talvez mais perigosos do que as al-
mas dos mortos que, pelo menos, foram bap-
tizados, conheceram a vida, souberam o que
era sofrer. Essas Nereidas dos nossos campos
são inocentes e más como a natureza, que ora
protege o homem ora o destrói. Os deuses e
as deusas antigos morreram mesmo, e os mu-
seus apenas encerram os seus cadáveres de
mármore. As nossas ninfas assemelham-se
mais às vossas fadas do que à imagem que de-
las fazeis segundo Praxíteles. Mas o nosso
povo crê nos seus poderes; elas existem como
a terra, a água e o perigoso sol. Nelas, a luz
do Verão faz-se carne, e por isso a sua vista
provoca a vertigem e o espanto. Apenas saem
à hora trágica do meio-dia; estão como que
imersas no mistério da luz mais plena. Se os
camponeses trancam as portas das suas casas
antes de se deitarem para a sesta, não é para
se protegerem do sol, mas delas; estas fadas
realmente fatais mostram-se belas, refres-
cantes e nefastas como a água em que se be-
bem os germes da febre; aqueles que as viram
consomem-se lentamente no langor e no de-
sejo; aqueles que tiveram a ousadia de se
aproximar ficam mudos para toda a vida, pois
que os segredos do seu amor não hão-de ser
revelados ao comum dos mortais.
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
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Marguerite Yourcenar
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(Continuação)
Os nossos fantasmas não se assemelham aos
vossos espectros do Norte, que saem só à
meia-noite e se abrigam de dia nos cemitérios.
Não se dão ao cuidado de se cobrirem com
lençóis e têm o esqueleto coberto de carne.
Mas são talvez mais perigosos do que as al-
mas dos mortos que, pelo menos, foram bap-
tizados, conheceram a vida, souberam o que
era sofrer. Essas Nereidas dos nossos campos
são inocentes e más como a natureza, que ora
protege o homem ora o destrói. Os deuses e
as deusas antigos morreram mesmo, e os mu-
seus apenas encerram os seus cadáveres de
mármore. As nossas ninfas assemelham-se
mais às vossas fadas do que à imagem que de-
las fazeis segundo Praxíteles. Mas o nosso
povo crê nos seus poderes; elas existem como
a terra, a água e o perigoso sol. Nelas, a luz
do Verão faz-se carne, e por isso a sua vista
provoca a vertigem e o espanto. Apenas saem
à hora trágica do meio-dia; estão como que
imersas no mistério da luz mais plena. Se os
camponeses trancam as portas das suas casas
antes de se deitarem para a sesta, não é para
se protegerem do sol, mas delas; estas fadas
realmente fatais mostram-se belas, refres-
cantes e nefastas como a água em que se be-
bem os germes da febre; aqueles que as viram
consomem-se lentamente no langor e no de-
sejo; aqueles que tiveram a ousadia de se
aproximar ficam mudos para toda a vida, pois
que os segredos do seu amor não hão-de ser
revelados ao comum dos mortais.
(continua)
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Marguerite Yourcenar
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quinta-feira, junho 22, 2006
Marguerite Yourcenar
O HOMEM QUE AMOU AS NEREIDAS
(continuação)
- Surdo não é - repetiu João Demetriadis
pousando à sua frente a chávena meia cheia
de uma espessa borra preta. - A palavra e o
espírito foram-lhe retirados em condições tais
que chego a invejá-lo, eu o homem pensante,
o homem rico, que tantas vezes apenas en-
contra o tédio e o vazio pelo caminho. Este Pa-
negyotis (é como ele se chama) perdeu a fala
aos dezoito anos por ter encontrado as Nerei-
das nuas.
Nos lábios de Panegyotis, que ouvira pro-
nunciar o seu nome, desenhou - se um sorriso
tímido. Parecia não compreender o sentido
das palavras daquele homem importante em
que reconhecia vagamente um protector, mas
o tom, e não as próprias palavras, atingia-o.
Contente por saber que se tratava dele e que
talvez fosse de esperar outra esmola, avançou
imperceptivelmente a mão, com o jeito receo-
so do cão que aflora com a pata o joelho do
dono, para que se não esqueçam de lhe dar
de comer.
- É filho de um dos camponeses mais abas-
tados da minha aldeia - continuou João De-
metriadis - e, coisa rara entre nós, aquilo é
mesmo gente rica. Os pais têm tantas terras
que nem sabem o que hão-de fazer-lhes, uma
bela casa de pedra de cantaria, um pomar
com diversas variedades de fruta, e legumes
na horta, um despertador na cozinha, uma
lâmpada acesa junto à parede dos ícones, en-
fim, nada lhes falta. Podia dizer-se de Pane-
gyotis aquilo que raramente se pode dizer de
um jovem grego: que lhe coziam o pão todos
os dias e para toda a vida. Podia-se também
dizer que tinha o caminho traçado à sua
frente, um caminho grego, poeirento, pedre-
goso e monótono, mas semeado de grilos a
cantar aqui e além e de umas pausas nada de-
sagradáveis à porta das tabernas. Ajudava as
velhotas na vareja da azeitona; vigiava a em-
balagem das caixas de uva e a pesagem dos
fardos de lã; nas discussões com os compra-
dores de tabaco, defendia discretamente o pai,
cuspindo de desdém a toda a proposta que
não ultrapassasse o preço desejado; estava
noivo da filha do veterinário, uma rapariguita
simpática que trabalhava na minha fábrica;
como era muito belo, atribuíam-lhe tantas
amantes quantas as raparigas da região que
amam o amor; pretendeu-se que dormia com
a mulher do padre; a ser verdade, o padre não
lhe queria mal pois gostava pouco de mulhe-
res e não ligava à dele, que, aliás, se oferece
a qualquer um. Imagine a humilde felicidade
de Panegyotis; o amor das damas, a inveja dos
homens e por vezes o seu desejo, um relógio
de prata, uma camisa maravilhosamente
branca, engomada pela mãe, de dois ou de
três em três dias, o pilaf ao meio-dia e o
glauco e perfumado ouzo antes da ceia. Mas
a felicidade é frágil, e quando a não destroem
os homens ou as circunstâncias, ameaçam-na
os fantasmas.
Talvez não saibam que a nossa
ilha está povoada de presenças misteriosas.
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
Publicações D. Quixote
(continuação)
- Surdo não é - repetiu João Demetriadis
pousando à sua frente a chávena meia cheia
de uma espessa borra preta. - A palavra e o
espírito foram-lhe retirados em condições tais
que chego a invejá-lo, eu o homem pensante,
o homem rico, que tantas vezes apenas en-
contra o tédio e o vazio pelo caminho. Este Pa-
negyotis (é como ele se chama) perdeu a fala
aos dezoito anos por ter encontrado as Nerei-
das nuas.
Nos lábios de Panegyotis, que ouvira pro-
nunciar o seu nome, desenhou - se um sorriso
tímido. Parecia não compreender o sentido
das palavras daquele homem importante em
que reconhecia vagamente um protector, mas
o tom, e não as próprias palavras, atingia-o.
Contente por saber que se tratava dele e que
talvez fosse de esperar outra esmola, avançou
imperceptivelmente a mão, com o jeito receo-
so do cão que aflora com a pata o joelho do
dono, para que se não esqueçam de lhe dar
de comer.
- É filho de um dos camponeses mais abas-
tados da minha aldeia - continuou João De-
metriadis - e, coisa rara entre nós, aquilo é
mesmo gente rica. Os pais têm tantas terras
que nem sabem o que hão-de fazer-lhes, uma
bela casa de pedra de cantaria, um pomar
com diversas variedades de fruta, e legumes
na horta, um despertador na cozinha, uma
lâmpada acesa junto à parede dos ícones, en-
fim, nada lhes falta. Podia dizer-se de Pane-
gyotis aquilo que raramente se pode dizer de
um jovem grego: que lhe coziam o pão todos
os dias e para toda a vida. Podia-se também
dizer que tinha o caminho traçado à sua
frente, um caminho grego, poeirento, pedre-
goso e monótono, mas semeado de grilos a
cantar aqui e além e de umas pausas nada de-
sagradáveis à porta das tabernas. Ajudava as
velhotas na vareja da azeitona; vigiava a em-
balagem das caixas de uva e a pesagem dos
fardos de lã; nas discussões com os compra-
dores de tabaco, defendia discretamente o pai,
cuspindo de desdém a toda a proposta que
não ultrapassasse o preço desejado; estava
noivo da filha do veterinário, uma rapariguita
simpática que trabalhava na minha fábrica;
como era muito belo, atribuíam-lhe tantas
amantes quantas as raparigas da região que
amam o amor; pretendeu-se que dormia com
a mulher do padre; a ser verdade, o padre não
lhe queria mal pois gostava pouco de mulhe-
res e não ligava à dele, que, aliás, se oferece
a qualquer um. Imagine a humilde felicidade
de Panegyotis; o amor das damas, a inveja dos
homens e por vezes o seu desejo, um relógio
de prata, uma camisa maravilhosamente
branca, engomada pela mãe, de dois ou de
três em três dias, o pilaf ao meio-dia e o
glauco e perfumado ouzo antes da ceia. Mas
a felicidade é frágil, e quando a não destroem
os homens ou as circunstâncias, ameaçam-na
os fantasmas.
Talvez não saibam que a nossa
ilha está povoada de presenças misteriosas.
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
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terça-feira, junho 20, 2006
Marguerite Yourcenar
O HOMEM QUE AMOU AS NEREIDAS
Estava de pé, descalço na poeira, no calor
e nas exalações do porto, debaixo do exíguo
toldo de um cafezito onde alguns clientes, re-
fastelados nas cadeiras, em vão esperavam
proteger-se do sol. As suas velhas calças ru-
ças mal lhe chegavam aos tornozelos, e aquele
ossinho bicudo, a ponta do calcanhar, as com-
pridas plantas dos pés, calosas e escoriadas,
os dedos ágeis e tácteis pertenciam a essa
raça de pés inteligentes, acostumados a todas
as lides com o ar e o chão, endurecidos nas
asperezas das pedras, que nos países medi-
terrânicos ainda deixam ao homem vestido
um pouco do livre desafogo do homem nu. Pés
ágeis, tão diferentes dos canhestros e pesados
suportes encerrados nos sapatos do Norte... O
azul desbotado da camisa condizia com os
tons daquele céu esbatido pela luz do Verão;
os ombros e as omoplatas rompiam pelos ras-
gões do pano como agrestes rochedos; as ore-
lhas um tanto alongadas enquadravam-lhe
obliquamente o crânio à maneira das asas de
uma ânfora; viam-se ainda incontestáveis ves-
tígios de beleza no seu rosto pálido e ausente,
como antiga estátua quebrada que aflorasse
em solo ingrato. Os olhos de bicho doente dis-
simulavam-se-lhe sem suspeita por detrás de
umas pestanas tão compridas como as que or-
lam as pálpebras das mulas; mantinha a mão
direita constantemente estendida, com o gesto
obstinado e importuno dos ídolos arcaicos que
parecem exigir aos visitantes dos museus a es-
mola da admiração, e da boca escancarada
sobre uns dentes brilhantes soltavam-se vagi-
dos indistintos.
- É surdo-mudo?- Surdo não é.
João Demetriadis, proprietário das impor-
tantes fábricas de sabão da ilha, aproveitou
um momento de desatenção em que o olhar
vago do idiota se perdia para o lado do mar
para deixar cair um dracma na laje polida. O
leve tilintar meio abafado por uma fina ca-
mada de areia não passou despercebido ao
mendigo, que apanhou gulosamente a moe-
dita de níquel para logo a seguir retomar a
sua posição contemplativa e gemebunda,
como uma gaivota na beira do cais.
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
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Estava de pé, descalço na poeira, no calor
e nas exalações do porto, debaixo do exíguo
toldo de um cafezito onde alguns clientes, re-
fastelados nas cadeiras, em vão esperavam
proteger-se do sol. As suas velhas calças ru-
ças mal lhe chegavam aos tornozelos, e aquele
ossinho bicudo, a ponta do calcanhar, as com-
pridas plantas dos pés, calosas e escoriadas,
os dedos ágeis e tácteis pertenciam a essa
raça de pés inteligentes, acostumados a todas
as lides com o ar e o chão, endurecidos nas
asperezas das pedras, que nos países medi-
terrânicos ainda deixam ao homem vestido
um pouco do livre desafogo do homem nu. Pés
ágeis, tão diferentes dos canhestros e pesados
suportes encerrados nos sapatos do Norte... O
azul desbotado da camisa condizia com os
tons daquele céu esbatido pela luz do Verão;
os ombros e as omoplatas rompiam pelos ras-
gões do pano como agrestes rochedos; as ore-
lhas um tanto alongadas enquadravam-lhe
obliquamente o crânio à maneira das asas de
uma ânfora; viam-se ainda incontestáveis ves-
tígios de beleza no seu rosto pálido e ausente,
como antiga estátua quebrada que aflorasse
em solo ingrato. Os olhos de bicho doente dis-
simulavam-se-lhe sem suspeita por detrás de
umas pestanas tão compridas como as que or-
lam as pálpebras das mulas; mantinha a mão
direita constantemente estendida, com o gesto
obstinado e importuno dos ídolos arcaicos que
parecem exigir aos visitantes dos museus a es-
mola da admiração, e da boca escancarada
sobre uns dentes brilhantes soltavam-se vagi-
dos indistintos.
- É surdo-mudo?- Surdo não é.
João Demetriadis, proprietário das impor-
tantes fábricas de sabão da ilha, aproveitou
um momento de desatenção em que o olhar
vago do idiota se perdia para o lado do mar
para deixar cair um dracma na laje polida. O
leve tilintar meio abafado por uma fina ca-
mada de areia não passou despercebido ao
mendigo, que apanhou gulosamente a moe-
dita de níquel para logo a seguir retomar a
sua posição contemplativa e gemebunda,
como uma gaivota na beira do cais.
(continua)
A Salvação de Wang-Fô
e outros Contos Orientais
Marguerite Yourcenar
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terça-feira, maio 23, 2006
Nada de novo na frente ocidental

Nada de novo na frente ocidental chegou-me numa "herança".
Gasto, sem capa, sem data de publicação.
Passam os meses. Êste verão de 1918 é o mais
doloroso e o mais sangrento de todos. Os dias são
como anjos vestidos de azul e ouro, pairando impas-
síveis sôbre o campo da morte. Todos sabemos que
perderemos a guerra. Não se fala muito nisso. Re-
cuamos; depois desta grande ofensiva, não pode-
remos atacar ; já não temos soldados nem munições.
Todavia, a luta continua, continua-se a morrer...
Verão de 1918... Nunca, a vida, na sua miserável
encarnação, nos pareceu tão desejável como agora:
papoulas vermelhas dos prados dos nossos acampa-
mentos de repouso, brilhantes insectos sôbre tufos
de hervas, tardes quentes nos quartos frescos e na
penumbra; árvores negras e misteriosas ao crepús-
culo, estrêlas e águas correntes, sonhos e longos
sonos, ó vida, vida, vida!...
Verão de 1918... Nunca se sofreram em silêncio
tantas dores como na hora de partir para a primeira
linha. Os tão excitantes falsos boatos de armistício
e de paz brotam, sobressaltam os corações e tornam
as partidas mais dolorosas do que nunca.
Verão de 1918... Nunca a vida na frente foi mais
amarga nem mais atroz que durante as horas passa-
das debaixo de fogo, quando as caras lívidas estão
deitadas sôbre a lama e as mãos se crispam num
único protesto: - Não, não, não, ainda não! Ainda
não, pois isto vai acabar!
Verão de 1918... Vento de esperança que acaricia;
os campos devastados pela metralha, febre ardente
da impaciência e da decepção, arrepio doloroso da
morte. Uma pregunta incompreensível:
- Porquê! Porque não se acaba com isto ? E por-
que correm estes boatos anunciando o fim?
Nada de novo na frente ocidental
Erich Maria Remarque
Tradução de Acúrcio Pereira
Quinta edição
Livrarias Aillaud e Bertrand
Lisboa
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